Rugas de felicidade

 Confesso que fiquei tentado ao ler sobre esse leilão em que o Copacabana Palace botou fora 1.040 peças de mobiliário e decoração. Quando dei por mim, tinha embarcado no sonho de entronizar no meu cafofo paulistano alguma relíquia - sofá, poltrona, cabeceira, mesa, cômoda, luminária, tapete, cortina, uma toalha que fosse - do mais charmoso hotel brasileiro, disposto, à beira dos 90 anos, a encarar uma renovação.

Humberto Werneck,

29 Julho 2012 | 10h13

Meia hora de delírio bastou para me convencer de que estava sonhando na mão oposta ao que de fato valeria a pena: cacareco por cacareco, melhor seria, em vez de trazer de algum de lá, instalar-me eu mesmo no Copa; não como mero hóspede: na condição de residente. Feito móveis & utensílios, se você quiser, mas, por falta de maiores atrativos, razoavelmente a salvo de futuros leilões. Que nem uns tantos senhores e senhoras com quem cruzei ali, sorridentes e abonados. Não seria mau lugar para passar o tempo que me resta.

Idade já tenho, e sorridente volta e meia me apresento; só não tenho ainda os cifrões que farão de mim um senhor abonado. E trago a modesta porém sólida experiência de quem pousou no Copa em três ou quatro ocasiões. Todas como hóspede, devo admitir; nunca “a nível” de pessoa física, dessas que pagam sua conta; lá estive apenas “enquanto” pessoa jurídica. Mais exatamente, como repórter em ação. Na última vez, coube-me uma suíte no sexto andar, nada menos que a mais cara e luxuosa - e por pouco não malbaratei tamanha mordomia, emaranhado que estava numa espessa, viscosa depressão. Pérolas aos porcos, quase.

Mal chegara a meus domínios quando bateu na porta um camareiro, oferecendo-se para desfazer as malas. Só esse plural bastou para deixar ainda mais arrasado o dono de uma solitária, plebeia e por demais viajada maleta. Salvou-me a garrafa de champanhe que encontrei a minha disposição. Nela achei ânimo para abrir minha reportagem com esta comprometedora declaração: “Mick Jagger dormiu na minha cama.” Tratei de acrescentar: “E não só ele - também a rainha Beatriz, da Holanda, o príncipe Charles e a princesa Diana se estenderam nesta cama, apropriadamente king size, entre alvíssimos lençóis de percal de 500 fios.” Mais um pouco e teria externado caprichos de estrela, como o cantor Johnny Mathis, que bateu o pezinho por lençóis cor-de-rosa, ou o bailarino Rudolf Nureyev, que fez questão de cama de solteiro “voltada para o poente”.

Além do champanhe, serviram para turbinar meu ânimo as inconfidências que extraí de veteranos camareiros - um dos quais pingou segredos de Mário Reis, morador que só deixou o Copa para morrer, em 1981. Fiquei sabendo que o elegante guarda-roupa do cantor não enchia mais que uma velha mala de papelão - e, detalhe sussurrado pelo informante, não incluía pijamas nem cuecas. Infelizmente já não encontrei no hotel o maître a quem Marlene Dietrich, pronta para um show no Golden Room, pediu um balde de areia - para que, empacotada que estava num vestido longo e justo, pudesse fazer de pé o seu “burguês pipi”.

Na mesma ocasião, tomei um trago com Jorge Guinle, aos 82 anos ainda em boa forma. Neto do fundador do Copa, dormiu lá na noite de inauguração, em 13 de agosto de 1923. Tinha 7 anos e brincou na praia com outro pequeno príncipe, Joaquim Monteiro de Carvalho, que décadas depois lhe compraria as ações do Copacabana Palace havidas como herança. Dormiria no hotel outras incontáveis noites - nunca sozinho, contou sem gabolice, e sempre bem acompanhado. Admitia ter queimado uns US$ 20 milhões na fogueira dos prazeres. Pena ter calculado mal: a dinheirama se acabou antes da vida.

Enquanto ele falava, atentei no bronzeado de bon vivant, bronzeado de quem dispusesse de um sol particular, ainda aceso lá dentro. Nos cantos dos olhos, as pequenas rugas de todos os maduros. As de Jorge Guinle, porém, não vincavam o rosto para baixo, como sói acontecer, subiam em diagonal; eram, em mais de um sentido, rugas para cima - raras, invejáveis rugas de felicidade.

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