Rumos da política externa brasileira após eleição provocam expectativa

País ganhou destaque nos últimos anos em fóruns internacionais, e dúvida é saber como será atuação do novo governo

, O Estado de S.Paulo

31 Outubro 2010 | 00h00

O mundo tem esperado com especial atenção o desfecho da eleição presidencial no Brasil. Uma das maiores dúvidas é como será a atuação do País nos fóruns internacionais sem Luiz Inácio Lula da Silva na Presidência. O presidente já indicou que, se Dilma Rousseff ganhar, a levará na reunião do G-20, em Seul, como forma de apresentá-la aos líderes mundiais.

Cheick Sidi Diarra, subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), estima que um primeiro teste para a política externa viria já em fevereiro. "Pela primeira vez, teremos um encontro dos países mais pobres do mundo com os novos emergentes. A ideia é a de explicar a esse novo grupo de potências a necessidade de ajudar os mais pobres, com projetos de investimento e social", disse Diarra. "O Brasil sempre esteve implicado nessas iniciativas nos últimos anos."

Países que têm apostado na relação com o Brasil para não ficarem isolados no cenário mundial também aguardam as eleições para definir futuros projetos. O Irã é um deles. Ali Larijani, presidente do Parlamento do Irã e considerado um dos políticos mais influentes do país, disse esperar que o próxima governo mantenha os canais abertos com Teerã. "As relações entre o Brasil e o Irã são históricas. Incrementamos o comércio e o contato durante o governo Lula. Agora, esperamos que as relações continuem assim", disse.

Já ativistas de direitos humanos esperam que a mudança de governo também represente uma mudança de postura diante das violações por governos estrangeiros. "Apelamos para o próximo governo brasileiro que lidere a luta pela promoção dos direitos humanos, tanto dentro dos Bric como na comunidade internacional. O Brasil precisa ter esse papel", afirmou o diretor mundial da Anistia Internacional, Salil Shetty.

Apesar dessa expectativa, porém, o segundo turno da eleição, pelo menos para a mídia europeia, tem despertado bem menos interesse. Isso ocorre porque, segundo analistas, jornais, rádios e emissoras de TV realizaram coberturas exaustivas no início do mês, apostando que a candidata de Lula obteria mais de 50% dos votos. Para a mídia europeia, o candidato tucano é um desafiante com poucas chances.

A queda do interesse pela eleição brasileira se expressa das bancas de revistas aos debates televisivos. Às vésperas de 3 de outubro, em Paris, jornais como o Le Monde e revistas como a L"Express dedicaram reportagens de capas ou longos dossiês sobre o fim da "Era Lula", projetando o País sob a tutela de Dilma, então considerada franca favorita. Temas como a redução da miséria, o desenvolvimento econômico e a nova dimensão diplomática brasileira foram largamente explorados.

Agora, a pauta parece esgotada ou menos atraente. "Falamos muito de Brasil antes do primeiro turno, mas a verdade é que a mídia tratou o tema como uma eleição de um único turno", afirma Jean-Jacques Kourliandisky, cientista político e historiador especializado em América Latina do Instituto de Relações Internacionais Estratégicas (Iris), de Paris.

Avaliação idêntica tem Denis Rolland, professor de História das Relações Internacionais do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Science Po). "Para os europeus, Dilma ganharia no primeiro turno, porque a popularidade internacional de Lula fazia parecer óbvia essa escolha", diz o acadêmico. "Ficou uma impressão de fracasso."

Ainda segundo o pesquisador, há diferenças na forma como britânicos, de um lado, e franceses e espanhóis, de outro, veem os candidatos. "Nos mundos liberais, como os EUA e Grã-Bretanha, há muito mais resistência a Dilma, enquanto que as opiniões públicas francesa e espanhola se identificam mais com a candidata do PT", explica Rolland.

Votos. A afirmação do pesquisador é comprovada pelos números da eleição brasileira em Nova York. José Serra foi o vencedor no primeiro turno no maior colégio eleitoral fora do País. Foram 3.753 votos contra 2.198 de Dilma. Para o mercado financeiro americano, no entanto, não há muita diferença entre os candidatos.

Segundo o brasileiro Marcello Hallake, sócio do escritório de advocacia Thompson & Knight, os investidores que conhecem o Brasil mais superficialmente "estão tranquilos" e veem Dilma mais como uma continuidade do governo Lula. Serra, caso vença, tampouco será um problema para eles, que consideram o tucano um pouco mais à direita do que a petista - algo positivo no meio financeiro de Nova York. "Mas o setor que mais conhece o Brasil já contabilizou uma vitória de Dilma", disse.

No total, mais de 200 mil brasileiros que vivem no exterior estão aptos a votar nas eleições presidenciais de hoje em 154 cidades espalhadas pelos cinco continentes. No primeiro turno, porém, apenas 88.977 compareceram para votar, o que significou uma abstenção de 55,52%. À diferença do que ocorreu dentro do Brasil, o vencedor fora do País foi José Serra (PSDB), com 40,25% dos votos válidos. Dilma Rousseff (PT) obteve 36,81% e Marina Silva (PV), 20,43%.

Na vizinha Argentina, no entanto, repetiu-se o padrão registrado em território brasileiro. Em Buenos Aires, Dilma Rousseff teve 1.187 votos, enquanto José Serra ficou com 546. Do total de 3.877 eleitores cadastrados em Buenos Aires, 2.147 compareceram para votar no primeiro turno. / JAMIL CHADE (GENEBRA), ANDREI NETTO (PARIS), GUSTAVO CHACRA (NOVA YORK), CLÁUDIA TREVISAN (PEQUIM) E ARIEL PALÁCIOS (BUENOS AIRES)

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