Russo que invadiu instalação militar em Manaus é liberado da prisão após 39 dias

Após ganhar o direito de responder ao processo em liberdade, Denis Saltanov embarcou de volta para Moscou

Marcelos Gomes, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2013 | 12h22

Após ficar quase 40 dias preso sob a acusação de ter invadido um quartel do Exército em Manaus (AM), o cidadão russo Denis Alexandrovich Saltanov, de 42 anos, foi solto na sexta-feira, dia 7, pela Justiça Militar da capital amazonense, após julgar liminar em mais um habeas corpus impetrado pela Defensoria Pública da União (DPU). No pedido, o defensor público da União Thomas Luchsinger alegou que o estrangeiro tem residência fixa em Moscou e ocupação lícita (atua como jornalista na área de turismo em seu país). Outros pedidos de habeas corpus haviam sido negados pelo Superior Tribunal Militar (STM) e pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Saltanov deixou a cela individual que ocupava na 12ª Companhia de Polícia do Exército, em Manaus, e pernoitou num hotel, cuja diária foi custeada pela Embaixada da Rússia. Na manhã deste sábado (08), embarcou de volta para Moscou. De Manaus, o estrangeiro seguiu de avião para São Paulo, de onde pegará um voo para a capital russa com conexão em

Frankfurt, na Alemanha. O russo foi preso em flagrante por militares em 29 de abril, após pular um muro do Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) do Exército, em Manaus. Ele foi denunciado pelo Ministério Público Militar em 10 de maio pelo crime de "penetrar em estabelecimento militar por onde seja defeso (proibido) ou não haja passagem regular", previsto no artigo 302 do Código Penal Militar.

Se condenado, ele pode pegar de seis meses e dois anos de detenção. Apesar de obter o direito de responder em liberdade, o processo criminal prossegue normalmente na Justiça Militar de Manaus. "Saltanov estava tão traumatizado com essa situação que, quando chegou o alvará de soltura, ele não acreditou que fosse verdade. Levou 30 minutos para aceitar sair da cela", disse o defensor público Thomas Luchsinger ao Estado. "Desde o início essa prisão foi um absurdo. Mesmo que ele seja condenado ao término do processo, na prática não ia ficar preso porque a pena é de no máximo dois anos".

Visita ao Zoológico. Em depoimento no procedimento aberto pelo Exército logo após a prisão em flagrante do russo, uma tenente disse que, ao perguntar o motivo que o levou a saltar para dentro do quartel, ele respondeu que pulou o muro "para testar o treinamento dos soldados", com visível "ar de deboche, sorrindo e gracejando". Um major afirmou que, ao perguntar se a atitude de pular muros de instalações militares seria comum em seu país de origem, o russo disse que não.

Ainda segundo o major, Saltanov disse que sabia que o que ele havia feito era contra a lei. Ao ser interrogado, em inglês, com a ajuda de um intérprete, Saltanov disse que pretendia visitar o zoológico (que fica dentro do GICS), mas que pretendia usar a entrada principal. Ele não disse por que decidiu pular o muro. Ao final, pediu para ver a identificação do escrivão que lavrou o auto de prisão em flagrante.

Em depoimento à Justiça Militar, Saltanov negou que tenha dito que queria testar o treinamento dos soldados. Segundo o defensor Thomas Luchsinger, o estrangeiro pretendia visitar o zoológico, e pulou o muro para cortar caminho pela mata. Ele estava com um mapa que não dizia que ali era uma instalação militar. Além disso, as placas de perigo são em português, e Saltanov mal fala inglês, diz Luchsinger. Saltanov estava viajando pela América do Sul desde 5 de fevereiro. De acordo com bilhetes apreendidos com o russo, ele deu entrada no Brasil

em 24 de abril por Tabatinga (AM), na fronteira com a Colômbia. Depois, seguiu de barco até Manaus. Em seu perfil no Facebook, há fotos tiradas no Brasil, na Argentina, no Chile, na Colômbia e no Peru.

Nascido em Moscou, Saltanov também tem cidadania equatoriana porque foi casado com uma mulher daquele país. Ele estava com passaportes da Rússia e do Equador. O russo é jornalista e fotógrafo registrado na Associação Mundial de Imprensa. A Embaixada da Rússia informou que Saltanov não responde por nenhum crime em seu país.

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