Sábado de aleluia

Fazia tempo que a sorte não se mostrava uma aliada tão fiel dos tucanos como no último sábado, quando, no anúncio da candidatura de José Serra à Presidência da República, até os erros acabaram dando certo.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2010 | 00h00

Traumatizados pela produção de atos partidários anteriores marcados pela discórdia na cúpula, o desânimo nas bases e o desinteresse da militância, os tucanos foram modestos na expectativa e escolheram um local aquém da cerimônia.

Cerimônia? Maneira de dizer. Balbúrdia descreveria melhor o ambiente totalmente estranho ao modo tucano de ser.

Gente amontoada num desconforto de dar dó e, ainda assim, apaixonada e motivada.

Nem tudo, no entanto, foi improviso. Os presidentes de partidos aliados, Rodrigo Maia, do DEM, e Roberto Freire, do PPS, foram os primeiros a bater forte no adversário.

Fernando Henrique Cardoso ficou com a ironia de expor como trabalho de propaganda as obras do governo. "Ouço falar nos discursos, mas não vejo nada."

Antes do início dos pronunciamentos havia uma preocupação entre os organizadores - falsa, viu-se depois - com o atraso de Aécio Neves. Tudo combinado. O mineiro chegou durante o discurso de FH, recebido em delírio da plateia, que pressionou como se não houvesse amanhã nem recomendação da direção nacional: "Vice, vice!"

Os dois, José Serra e Aécio Neves, dançaram conforme pedia a música da ocasião. O candidato alternou uma conversa amena sobre sua biografia com discurso afirmativo de propostas, ressaltando a questão da segurança pública, ponto em que os dois governos anteriores foram absolutamente omissos, e pregou a união do Brasil repudiando o "raciocínio do nós contra eles".

Já Aécio aceitou o desafio e disse que se fosse para discutir o passado o partido estava preparado para expor os fatos, a começar pela recusa do PT a participar do processo de transição democrática. E, a fim de dirimir dúvidas, finalizou: "A partir de hoje, o candidato de Minas é José Serra."

Dito isso, puxou Serra para o centro do palco e encerraram os dois o espetáculo deixando um aroma de puro-sangue no ar.

Ao fim no encontro, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, e o deputado Jutahy Júnior saiam ainda meio aparvalhados, sem acreditar no que tinham acabado de ver. "Esperávamos umas dez pessoas do Amazonas, mas apareceram 150", relatava Sérgio Guerra.

"Da Bahia chegaram ônibus de gente que nem conhecíamos", contava Jutahy.

À noite, já em São Paulo, José Serra checava pelo telefone e via e-mails o efeito do discurso que na opinião dele havia sido positivo, com muitos improvisos, mas queria ter certeza se a impressão interna correspondera à repercussão externa.

Avaliação sucinta do próprio: "Foi tudo na medida. Aécio irrepreensível sob todos os aspectos", com acréscimo provocativo a Fernando Henrique que o chamou de irmão: "Mais adequado teria sido sobrinho." Serra tem dez anos de idade a menos que FH e faz questão de cada um deles.

Arapuca. Se a candidata Dilma Rousseff tiver juízo não cairá na provocação do MST para forçá-la a se pronunciar sobre reforma agrária. Inclusive porque nos termos em que as coisas são postas, com João Pedro Stédile chamando Dilma de "ignorante" no tema, não há um convite racional ao debate.

O que existe é um óbvio desastre anunciado, cuja intenção do MST não é perceptível a olho nu, mas que muito agradará à oposição.

Se o MST não apoiar Dilma, tanto melhor para ela.

Tribos de Marina. Alfredo Sirkis, coordenador da campanha da senadora Marina Silva (PV), diz que neste momento o alvo são três tipo de público: "Os jovens, a classe média iluminista e as mulheres cristãs, em sua maioria pobres."

Crítica e autocrítica. "Os políticos se valorizam além do valor que eles têm" (César Maia).

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