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Pedro Jordão, especial para O Estado
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Sábado de Zé Pereira em Pernambuco não tem Galo pela 1ª vez em 43 carnavais

Apesar de comércio movimentado, tradicional desfile de Recife não aconteceu; em Olinda, corredores estão silenciosos e desertos

Pedro Jordão, especial para O Estado, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2021 | 18h19

RECIFE - Recife não teve seus tradicionais desfiles carnavalescos neste sábado, 13, dia em que a folia começaria oficialmente em Pernambuco, não fosse a pandemia. O Galo da Madrugada, apontado desde 1995 como o maior bloco carnavalesco do mundo pelo Livro dos Recordes (Guinness Book), indo às ruas desde 1978 no chamado Sábado de Zé Pereira, ficou entocado este ano com medo do novo coronavírus. As ladeiras de Olinda, sempre coloridas nesta época do ano, também ficaram silenciosas e desertas.

Em 17 de dezembro de 2020, o governo do Estado anunciou a suspensão do carnaval de 2021 em Pernambuco, além de prorrogar o decreto de calamidade pública para até junho. Por essa razão, hoje não houve estátua gigante do Galo na Ponte Duarte Coelho. Nem os camarotes oficiais na Avenida Dantas Barreto com suas fantasias irreverentes, bandas e aglomerações. Na Avenida Conde da Boa Vista, um dos corredores de ônibus mais importantes e um dos principais acessos ao Galo, quase não havia referências à festa de Momo.

O folião Luiz Carlos Mendes, 58, relata que vai ao Galo da Madrugada há 40 anos, sem nenhuma exceção, para dançar, cantar as músicas e se divertir. “Fui a primeira vez só para ver como era, e não larguei mais. Faça chuva ou faça sol, estou lá todos os anos". Ele conta que chegou a participar da festa mesmo quando foi diagnosticado com dengue e compara a ausência deste ano a uma amputação: "Está um vazio muito grande; chorei muito, não tenho vergonha de dizer, só de falar já fico emocionado”.

“No passado, quando estava indo embora do Galo, olhei para ele e disse ‘até o próximo ano, amigo’, mas o próximo não chegou. E está sendo horrível para mim. Não imagino o Galo fora da minha vida. Então, fugi para Gravatá [cidade de noites frias no Agreste de Pernambuco] porque não dá para aguentar ficar em casa, lembrando que tem Olinda, o Galo, o carnaval. Saí para, pelo menos, tentar esquecer um pouco”, lamenta.

Na Ponte Duarte Coelho, onde tradicionalmente fica a estátua do Galo da Madrugada, a família Ramos fazia “selfies” na manhã deste sábado, registrando o momento histórico em que uma das maiores e mais tradicionais festas de Pernambuco simplesmente não aconteceu. “A gente veio passear e aproveitar para ver a cidade sem o Galo, sem o carnaval, em geral. A essa hora, isso aqui estava ‘o bicho’, ‘um vapor’ e agora não tem nada; parece que não é carnaval”, comenta Sidiclei Ramos, 48.

Para a esposa dele, Maria das Graças, 44, a sensação de não ter o Galo é algo novo e muito diferente de tudo o que já viveu. “Sempre é muito tumultuado e hoje está livre. Só as pessoas andando e os ônibus passando. Para muitas pessoas, não é certo ficar sem carnaval, mas pela vida, por causa da pandemia, eu acho que é o certo, sim”, afirma.

Apesar da falta de folia, o comércio funcionou normalmente, com movimento intenso de pessoas nas ruas do centro de Recife. As lojas seguem vendendo seus produtos sem decoração de carnaval. Os ambulantes, que sempre vendiam fantasias, acessórios e utilidades para a festa, ofereciam itens que nada tinham a ver com a folia carnavalesca. Em Olinda, no sítio histórico da cidade, as ruas ficaram desertas e sob vigilância policial.

Na última quarta-feira, 10, o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB) anunciou que o funcionamento de bares, restaurantes e comércio ambulantes seria proibido no bairro do Recife Antigo e no Sítio Histórico de Olinda a partir das 20 horas da sexta-feira, 12, até as 6 horas da segunda-feira, 15. A medida visa impedir aglomerações nas duas principais regiões de aglomeração de foliões no carnaval do Estado.

Em publicação nas redes sociais, o governador Paulo Câmara informou que investirá R$ 3 milhões no pagamento de auxílio emergencial para beneficiar 450 artistas e agremiações vinculadas ao carnaval de Pernambuco, que deverão seguir critérios de um edital da Secretaria de Cultura do Estado.

Meire Oliveira, 63, mora na Rua do Amparo, importante localização do Sítio Histórico de Olinda, por onde muitos blocos carnavalescos passam, arrastando multidões. Ela conta que, neste sábado, tudo está muito diferente e que, tanto ela quanto os vizinhos estão se sentindo tristes e saudosos.

“Há poucas pessoas transitando, um silêncio nunca visto no carnaval. Às vezes, uma ou outra pessoa passa cantando uma marchinha, levando vizinhos às lágrimas. Olinda amanheceu como nunca vi antes. Tive saudade até do homem gritando ‘olha o gelo, olha o gelo’, dos carros de mão subindo, lotados de caixas de cervejas, das pessoas se organizando para vender bebidas e dos foliões chegando com alegria. Estamos também na expectativa de como vai ser o primeiro ano sem a saída do Homem da Meia-noite [bloco tradicional de Olinda]. Estamos numa imensa tristeza”, afirma.

De acordo com a empreendedora, a polícia vem fazendo plantão nas ruas do Sítio Histórico de Olinda para garantir que ninguém desrespeite o decreto do governo estadual. Mesmo mantendo um restaurante desde o carnaval de 2020, acredita que não ter a festividade seja o melhor agora. 

“É necessário viver este momento por mim mesma, pelos meus, pelos outros e pelo mundo inteiro. É preciso ter muita maturidade e consciência para viver este momento e para poder até acalentar quem não está conseguindo. A gente sabe que tem muitas famílias de luto e a gente tem que, de certa forma, ter empatia. Então o carnaval não ter acontecido foi uma medida que eu acredito que a gente só vai ter ganhos. Hoje, estamos perdendo para ganhar depois. E o que nos resta é esperar”, completa Meire.

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