''''Sabemos que foram PMs''''

Parentes de mortos em chacina nunca aceitaram versão

O Estadao de S.Paulo

16 de fevereiro de 2008 | 00h00

O motorista Celestino Manoel dos Santos, de 66 anos, nunca teve passagens pela polícia nem se envolveu com traficantes de drogas. Em 24 de maio de 2007, ele, o pedreiro José Roberto de França, de 38, e Alessandro Mendes Correia, de 20, foram executados a tiros num bar no Jaraguá, zona norte. G.S.F., de 20 anos, também foi baleado, mas sobreviveu.Familiares das vítimas da chacina acreditam que os atiradores eram PMs: "Sabemos que eram policiais militares. Mas não podemos provar", lamentou o parente de um dos mortos. Todas as vítimas moravam no Jaraguá. Seus parentes ainda estão apavorados.A mulher de Santos, que pediu para não ser identificada, soube da morte do marido em casa. "Estava de resguardo", disse. O crime aconteceu na Rua Antonio Galvão Medeiros. O dono do bar, Manoel Leonez Temóteo, de 44 anos, é outro que permanece assustado e diz não ter condições de reconhecer os atiradores: "Eu estava no caixa, aqui atrás desse balcão, e não vi nada. Só escutei o barulho dos tiros", contou.Os mortos eram amigos. José Roberto, Celestino e G.S.F., que sobreviveu, moravam no mesmo conjunto habitacional. A chacina chocou os vizinhos, amigos e parentes. Foram acusados pela matança Charles Wagner Felício, de 32 anos, e Cleiton de Souza, de 25. Os dois foram mortos por PMs do 18º Batalhão, no mesmo dia.A Polícia Militar alegou, na época, que Charles e Cleiton cometeram a chacina, fugiram, foram perseguidos e trocaram tiros com o sargento José Rivanildo da Silva Sá, de 38 anos, e os soldados Ricardo Gonçalves de Moraes, de 38, Luzinário Moreira do Nascimento Solto, de 32, e Eliabe Antonio de Mello, de 32, da viatura 18.033, Força Tática, do 18º Batalhão da PM.Os próprios parentes das vítimas, no entanto, disseram que tanto Charles como Cleiton não conheciam as vítimas da chacina e não tinham, portanto, motivo para matá-los. Até hoje, a dona de casa Leonice de Jesus, de 59 anos, chora a morte do filho José Roberto: "Tive um pressentimento naquele dia. Estava frio. Meu filho saiu para fazer bico. Ficou o dia inteiro sem almoço. No começo da noite, ele chegou, comeu e foi para o bar com os amigos. Senti um aperto no coração, mas não sabia o que era. Mais tarde, recebi a notícia", contou Leonice, aos prantos.A mãe conta que o filho sempre trabalhou e afirma que nunca conseguiu se recuperar da perda. José Roberto vivia com a mãe num apartamento modesto de Jaraguá. "Ele era um bom filho. Um dia antes, ele me fez massagem no peito, quando eu tive uma crise de falta de ar. Ele sempre foi muito prestativo, tanto que ajudava os vizinhos daqui, como a Toninha, que ele foi consertar a porta da casa dela, um dia antes de ser morto."

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