Sabesp cobra, mas não coleta esgoto

Companhia admite que detritos do Jardim Nélia, na zona leste da capital, são despejados no Córrego Itaim

Naiana Oscar, O Estadao de S.Paulo

30 de abril de 2009 | 00h00

Moradores do bairro Jardim Nélia, na zona leste, descobriram que pagam por um serviço público ao qual não têm acesso. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) cobra pela coleta e tratamento de esgoto e despeja tudo no Córrego Itaim. Revoltados com o valor das contas que chegam todos os meses, moradores resolveram testar o serviço para cobrar uma solução. Despejaram tinta branca na privada de uma das residências do bairro e, depois da descarga, correram para o rio. "Para nossa surpresa, a água começou a ficar branca", disse o presidente da Associação de Moradores do Jardim Nélia, Joãoberto da Silva Neto. "É um absurdo a gente pagar para poluir nosso próprio bairro." O comerciante Antônio Cândido Rodrigues, de 55 anos, mora na Rua Antônio Vieira de Lima, bem perto do Córrego Itaim. Ele se instalou ali com a família 30 anos atrás, quando até se pescava no córrego. "Fomos nós mesmos que poluímos o rio. E por isso acho certo pagar, mas com a garantia de que vamos ter o benefício", disse, com a conta de água e esgoto na mão. Em janeiro, pagou R$ 99 pelos dois serviços. A própria Sabesp admite que o esgoto é coletado e jogado no córrego. Em nota, a Assessoria de Imprensa da companhia informou "ainda não existir coletor-tronco no trecho", com o qual seria possível levar o esgoto para a estação de tratamento. A despoluição do Córrego Itaim está prevista no programa Córrego Limpo, ação conjunta da Prefeitura e do governo do Estado para melhorar a qualidade das águas na capital. Segundo a Sabesp, estão previstos R$ 9,3 milhões para as obras do córrego, numa área de 9,4 km². "A Sabesp investe, mas também agrava a situação. Basta saber que nem 20% do esgoto coletado passa por um tratamento", disse o engenheiro Julio Cerqueira Cesar Neto, da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental. Cerqueira aponta também a necessidade de revisão da cobrança do serviço feita pela companhia. "Para ela ter direito a esse pagamento, tem de fazer coleta, transporte e tratamento." Em novembro do ano passado, a reportagem mostrou que a Sabesp despeja esgoto in natura em 6.670 pontos de rios e córregos da Região Metropolitana - chamados de lançamentos provisórios. VAZAMENTODesde segunda-feira, a Rua Luiz Costa da Rosa, no limite de São Paulo com Ferraz de Vasconcelos, estava tomada por esgoto. Um restaurante teve de fechar as portas porque foi invadido por detritos. Os moradores acionaram a Sabesp já no primeiro dia em que o problema apareceu. Mas a solução só chegou ontem à tarde, depois que a reportagem esteve no local. Ontem à noite, a assessoria da companhia informou que uma equipe técnica foi ao local e desobstruiu a rede no período da tarde. A Sabesp informou ainda que abriu licitação para contratar uma empresa para "executar uma obra no local e solucionar definitivamente o problema daquela região". A licitação, segundo a Sabesp, "ocorrerá no prazo de dois meses e as obras ficarão prontas em 120 dias, a partir do início dos trabalhos".

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