"Sabia que a coisa era barra pesada", disse Olivetto

O publicitário Washington Olivetto concedeu hoje pela manhã sua primeira entrevista coletiva, após o seqüestro que durou 53 dias. Com os cabelos já cortados e vestido de maneira informal, calça esporte marrom e camiseta preta, ele falou de forma coloquial para cerca de 180 jornalistas credenciados, por mais de uma hora, ininterruptamente.Olivetto garantiu não ter pago qualquer apólice internacional de seguro e disse não acreditar que o crime tenha sido político. Ele agradeceu o apoio de todos que rezaram por ele, da imprensa, do Brasil e do "planeta". A entrevista ocorreu no auditório da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), sob forte esquema de segurança.Segurança pessoalO publicitário alegou nunca ter se preocupado com segurança pessoal, pois não se considerava uma pessoa seqüestrável. "O meu carro era blindado porque o motorista tinha medo de que roubassem o relógio dele. Nunca me preocupei com segurança pessoal", disse. Mas, após o seqüestro e os dias de cativeiro, já pensa em mudar a rotina e reforçar a segurança.Motivação políticaO titular da Delegacia Especializada Anti-Seqüestro (Deas), Wagner Giudice, e o produtor musical André Midani, estavam ao lado de Olivetto durante toda coletiva. Giudice, a quem o publicitário chamou de seu "melhor amigo de infância desde o último sábado", também disse não acreditar na tese de motivação política.Segundo ele, o que se falava o tempo inteiro era sobre o valor do resgate, sobre o dinheiro. O delegado acredita, inclusive, que os seqüestradores poderão insistir na tese de crime político para tentar obter vantagem no processo.Olivetto afirmou que não tinha idéia das motivações do seu seqüestro. "Não tenho referencial para julgar isso (o nível e profissionalização da quadrilha). Me passou pela cabeça que era profissional, mas jamais pensei se era político ou não".Ele disse que só tomou consciência de que os seqüestradores eram pessoas cultas quando recebeu a revista The Economist para ler. Depois contou que recebeu a edição de agosto da revista de literatura Cult, com uma longa entrevista de Caetano Veloso. "Estou lidando com gente ´barra pesada´", reiterou. Mas em nenhum momento soube o que estava acontecendo. SilêncioOlivetto revelou que passou os dias no cativeiro sem falar e ver ninguém. Tentou falar com os seqüestradores, mas não obteve sucesso. Sua única relação com os seqüestradores era através de cartas e bilhetes. "Eu enviava bilhetes e eles respondiam com atitudes, quando eu era agressivo, eles cortavam a luz ou colocavam uma música que eu não gostava".Em uma das respostas, os seqüestradores disseram que Olivetto era uma pessoa sofisticada e requintada e que não deveria se manifestar daquela forma.Tinha luz e música, constantemente. No sábado, quando sumiu a luz, preocupou-se com o respirador. "Bati na porta: ´não tô a fim de encher o saco, mas o ar foi cortado. Vou dar porrada na porta, para saber se vocês estão aí´. Como não obtive resposta, vi que a rapaziada tinha ido embora".A respeito da nacionalidade dos bandidos, ele disse que recebeu bilhetes em português extremamente correto e sofisticado. Em outros momentos, recebeu o que beirava o "portunhol". Aí percebeu que estava lidando com uma quadrilha internacional. Apesar disso, em nenhum momento foi falado em crime político. Nos bilhetes, a única coisa na qual se falava era sobre o valor do resgate e do dinheiro. LucidezUm dos momentos de maior emoção foi quando lembrou que escrevia muito, "dia e noite compulsivamente", para manter o equilíbrio mental e emocional. Na entrevista, Olivetto lembrou Monteiro Lobato e Scott Fiztgerald, escritores que colocavam a questão de escrever como uma razão de viver. Com talheres de plástico, ele escrevia na parede do cativeiro os nomes das pessoas mais importantes de sua vida. "Assim eu ia marcando os pontos afetivos da minha história de vida."Ao dizer que não havia pago nenhuma apólice internacional de seguro, o publicitário revelou que tem uma vida boa. "Porém, tenho mais acesso ao uso do que à posse, e isso é até uma questão ideológica, por isso nunca me imaginei uma pessoa seqüestrável," considerou.Olivetto disse que a operação do seqüestro não foi muito diferente do que a imprensa descreveu exaustivamente nos últimos dias. "Eu só percebi que era um seqüestro quando abriram a porta do carro e vi que as letras do colete, onde estava escrito Polícia Federal, eram desproporcionais."Pensei: se ficar aqui dentro do carro serei levado", contou. Ele disse que saiu do carro e lutou com o primeiro seqüestrador, mas logo vieram outros e o dominaram."Policiais bacanas"Washington Olivetto insistiu, durante a entrevista, em fazer uma homenagem ao que ele chamou de "policiais bacanas". "Porque também tem policial bacana", disse. Ele se referia aos policiais da Divisão Anti-Seqüestro (Deas) e aos policiais militares que o resgataram. "Um deles, com a arma na mão, chorou quando viu que era eu. O outro disse: ´ele também é corintiano´"."O Fernando Henrique Cardoso, de quem sou amigo, mas que não via há muito tempo, me ligou e fiz questão de dizer isso a ele. Falei que agradecia a ele e a turma dele e também a polícia, a este pessoal bacana da polícia", comentou Olivetto.Quando esteve no cativeiro, Olivetto disse que chegou a imaginar que vivia o resultado da situação social brasileira. "Mas, agora, já não penso isso. Eu fui seqüestrado em território brasileiro, mas por estrangeiros", afirmou.Para Olivetto, o debate sobre a divulgação de seqüestros pela mídia não pode ser reduzido. "Cada caso é um caso. No meu caso, a divulgação teria sido um desastre", disse. LiberdadeO publicitário lembrou do momento de sua libertação. "Ouvi uma resposta, devia ser a mãe da garota, que acho que pensou que eu estava fazendo barulho. Ela falava junto comigo. Eu disse: senhora, um por vez. Quando fez silêncio, tentei me identificar, aí que eu acho que a menina pegou o estetoscópio. Ela falou algo claramente: estou te ouvindo. Aí me identifiquei."Os policiais foram chamados. "Eles pularam o muro, entraram na casa. Foi uma cena muito louca. Dois garotões entraram, eu estava uma coisa horrorosa. Nisso, um dos policiais estava com um arma na mão, pronta para uso. Eu falei: porra, vira esta merda para outro lugar (sic). Aí, ele falou: ´nossa é você, você é corintiano´. Eram dois corintianos e dois palmeirenses. Quando iam embora, pedi para voltar porque esqueci meus cadernos (sic)?, disse.Antes do início das perguntas ele fez um pedido aos jornalistas: "Sempre fui paparicado a vida inteira pela imprensa. Mas gostaria de pedir que essa fosse a última vez que a pauta fosse sobre o assunto seqüestro."

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