Sakina leva Campo Limpo à Bienal

Estilista francesa expõe criações de costureiras da periferia de São Paulo e de Paris na São Paulo Fashion Week

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2009 | 00h00

Há dois anos, a paraibana Roseane Laudelino Silva, de 34 anos, trabalhava numa confecção de uniformes para enfermeiros. Era a responsável pelos arremates, todos feitos à mão, e pelo empacotamento das peças. Até então nunca tinha costurado à maquina. Amanhã, quando a São Paulo Fashion Week abre suas portas, compradores e estilistas profissionais poderão ver ao menos três modelos assinados por Roseane, que participa da exposição Brasilópolis Jardim Paris. "Não imaginava que seria capaz de fazer uma roupa da minha cabeça, sem copiar", diz Roseane, uma das 12 costureiras iniciantes que estreiam no evento. Esse grupo de mulheres, muitas desempregadas, aprenderam a costurar num curso profissionalizante gratuito oferecido pelo Ofício Moda, do Movimento Comunitário Estrela Nova, no Campo Limpo, zona sul de São Paulo, organização não-governamental que atende mensalmente cerca de 500 pessoas, também com serviços de saúde e creche. Lá, o grupo participou de um desafio promovido pela estilista francesa Sakina M?Sa, de 37 anos, uma das convidadas da comemoração do Ano da França no Brasil, que participa da Fashion Week.PESQUISAA designer é conhecida internacionalmente pelo seu trabalho de pesquisa, que consiste em viajar pelo mundo à procura de novas formas de criação, principalmente entre comunidades carentes. Na exposição, ela reúne os trabalhos de costureiras das periferias de São Paulo, de Paris e de alunos da Faculdade de Moda da Anhembi Morumbi. Sakina é uma especialista na arte da desconstrução. Mas o primeiro passo de sua técnica consiste em costurar um modelo qualquer para depois desmontá-lo e interferir na forma bruscamente. Os alunos da Anhembi Morumbi, por exemplo, montaram um vestido para Sakina dividi-lo em duas partes. A partir de uma dessas partes receberam a missão de construir um outro modelo. "É aí que você começa a inventar. Uma gola pode virar um bolso e a barra de uma camiseta básica, um barrado", diz Luis Fernando Freiberger, aluno do segundo ano da Faculdade de Moda. "Você vai adicionando volume ao modelo. Ela diz que o volume dá mais liberdade de criação." Pela mesma experiência passaram as costureiras do Campo Limpo, com uma grande desvantagem em relação aos alunos da faculdade: nunca antes tinham ouvido falar de Sakina ou de sua técnica. "Não entendi nada nas primeiras aulas", diz Roseane. "A mulher falava francês e uma outra explicava ao mesmo tempo em português." Depois de passarem pelo estranhamento da língua, essas mulheres receberam a missão de costurar 50 batas, o que fizeram com alguma dificuldade, por serem iniciantes. "Quando dissemos que, depois de todo esse trabalho, as batas teriam de ser desmontadas, para então começarmos a criar, elas não gostaram. Algumas se recusaram mesmo. Mas acabaram aceitando", diz Renata Piemonte Ribeiro, coordenadora pedagógica do Ofício Moda. "Só comecei a entender o que a francesa queria na terceira aula, quando ela pegou a bata e começou a mostrar na prática o que deveríamos fazer", conta Roseane. E Sakina ficou impressionada com o resultado. "Elas foram mais criativas que os estudantes de Moda. Sem nenhum conhecimento anterior, as costureiras criaram propostas que lembram o trabalho de Viktor & Holf (dupla holandesa badalada de estilistas)", diz Sakina. "Elas fizeram, por exemplo, modelos com sobreposições de várias golas." Filha de um açougueiro e de uma dona de casa, Sakina começou na moda aos 16 anos. Na época ganhou uma bolsa de estudos na área. Morava na periferia de Paris, onde montou um grupo para divulgar o trabalho de moda da região. O resultado chamou a atenção, ela conseguiu uma verba do prefeito para o projeto e sua carreira deslanchou. Aos 25 anos, estava com suas roupas à venda na Galeria Lafayette, em Paris. "Já rodei o mundo com esse projeto. Os brasileiros têm uma liberdade maior com o corpo. Criam com mais sensualidade", diz Sakina, que tem um site com suas peças comerciais (www.sakinamsa.com). Animada com a produção das mulheres de Campo Limpo, a estilista vai desenvolver uma coleção em parceria com as costureiras, cuja renda será revertida para o Ofício Moda. "Nunca imaginei fazer uma roupa para a São Paulo Fashion Week", diz Roseane. "É muito chique."

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