Sala SP em versão acessível. E o público aplaude de pé

Projeto Concertos Matinais, com ingressos a R$ 2, atrai fãs de música clássica - ou nem tanto

Flávia Tavares, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Quando fazia suas solitárias caminhadas pelo centro da cidade, o pintor-poeta-faz-bicos-para-viver Antônio Soares Dutra se incomodava com o abandono da antiga estação da Estrada de Ferro Sorocabana, junto à Julio Prestes. Ele via aqueles vasos enormes com plantas sem muita graça e os pilares a sustentar a claraboia, que iluminava coisa nenhuma, e não se conformava. Tomou coragem e escreveu uma carta para a superintendência da Rede Ferroviária Federal, em que sugeria que o espaço fosse transformado numa sala de concertos. Mas a coragem não foi tanta e ele não assinou a missiva. Antônio, o anônimo, garante que a Sala São Paulo existe graças à sua visão. "Quando ouvi na TV que tinham aceitado minha sugestão, não quis reconhecimento. Apenas fiquei emocionado", conta.

No domingo, o "idealizador" de um dos maiores espaços para concerto da América Latina foi assistir a uma sessão especial a preços populares. Parte do projeto Concertos Matinais, que acontece a cada 15 dias, sempre aos domingos, com ingressos a R$ 2, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais lotou a plateia da Sala São Paulo e Antônio estava lá. Ele comparece a tantos eventos culturais da cidade que, segundo conta, já foi contemplado com o título de cidadão-sênior de São Paulo, cedido pelo Ministério da Cultura. "Eles veem meu nome nas listas de presença."

Há também estreantes entre o público dos Concertos Matinais. Malvina Zeferina Vaz, de 84 anos, arrastou a amiga Luíza Ohanesian, de 76, pelo trem que vem de Osasco e chegou à sala pela primeira vez. Malvina e Luíza souberam do ingresso barato e decidiram conhecer o espaço. "Aqui é coisa muito chique, né? Sempre quis vir", conta Luíza.

Enquanto as duas amigas e o resto do público se preparavam para tomar seus assentos, chamava a atenção um ponto que engordava a fila: eram as famílias Maia e Guimarães, trazidas de Perus por Letícia, a flautista que convidou todos a aproveitar o preço e prestigiar o concerto. Os parentes não perderam a chance também de fazer propaganda da garota, que fará um concerto com a Orquestra Filarmônica Melhoramentos Caieiras no dia 19. "Vai ser como aqui: música de alta qualidade com preço bom", alardeava Eunice Guimarães Maia.

Público acomodado. Os primeiros sinais de que o concerto vai começar são dados. Num canto à direita, Arthur e Guilherme, gêmeos de 3 anos e 11 meses, não dão trabalho a Edson e Tânia, seus pais. Os garotos estão tendo as primeiras aulas de "musicalização". O pai se preocupava com o acesso à Sala São Paulo, não sabia se era seguro. Ficou satisfeito com a estrutura. "O estacionamento é coberto e tem polícia na porta. Foi ótimo."

As luzes se apagam e a plateia permanece inquieta. Antônio, de casa que é, sumiu pelas fileiras. Malvina e Luíza se sentaram bem pertinho do palco, logo à frente dos Maia e Guimarães. Quando os músicos entraram no palco, aplausos longos, empolgados. Um celular toca, as pessoas cochicham em reprovação. O programa da Filarmônica passeou por Carl Maria von Weber, Franz Schubert e Leonard Bernstein. Entre um movimento e outro, uma moça comenta com a amiga como está achando "tudo isso muito lindo", ao admitir que não entende muito de música clássica.

Embora o público tivesse saudado com entusiasmo o repertório mais erudito, foi mesmo em Danças Sinfônicas de West Side Story, de Leonard Bernstein, que a interação entre músicos e audiência chegou ao auge. Conduzida por Fabio Mechetti, diretor artístico e regente da orquestra, a obra tem estalos de dedos, solos de bateria e um raríssimo momento em que se ouve a voz dos músicos, num inesperado "Mambo!".

"O público brasileiro é muito caloroso", comentava Mechetti, depois da apresentação de pouco mais de uma hora, em que a plateia aplaudiu fervorosamente - algumas vezes, em momentos pouco apropriados. Sobre essas intervenções fora de hora da audiência não treinada para concertos, Mechetti respondeu com bom humor: "Contanto que não vaiem..." Não vaiaram. O regente saiu do palco com seus músicos ovacionado, público em pé com gritinhos de "uh! uh!". Famílias, casais e amigos que se propuseram a ir ao centro, assistir a um concerto de música erudita, num domingo chuvoso, no meio de um feriado, não se arrependeram.

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