Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Salles rompe com ministro Ramos e chama colega de 'Maria Fofoca'

Apesar das movimentações ministeriais previstas para janeiro do ano que vem, Salles tem afirmado a interlocutores que não tem planos de deixar o ministério

André Borges, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2020 | 14h20
Atualizado 23 de outubro de 2020 | 23h03

BRASÍLIA – O ataque que o ministro do Meio Ambiente (MMA), Ricardo Salles, desferiu nas redes sociais contra o general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo da Presidência, passa diretamente por uma mobilização interna no Palácio do Planalto, para substituição de seu nome à frente do MMA.

O que seria um gesto mal calculado de Salles, que disse a Ramos que pare com sua “postura de Maria Fofoca”, ao comentar uma reportagem do jornal O Globo, foi, mais concretamente, um rompimento, uma resposta a gestos silenciosos que, há meses, ocorrem dentro da cúpula do governo. Salles tem informações de que Ramos atua para minar sua atuação no MMA, e resolveu partir para cima.

Um dos episódios que mais incomodaram o titular da pasta do Meio Ambiente, conforme apurou o Estadão, foi o fato de Ramos ter atuado junto ao Ministério da Economia, para definir como deveriam ser feitas as imposições de limites de gastos para cada ministério que ocupa a Esplanada. Ao debater a divisão do bolo financeiro do governo, Ramos atuou para que se priorizasse liberações para os ministérios da Infraestrutura e do Desenvolvimento Regional. Para o MMA, no entanto, a orientação dada foi no sentido de impor limites. 

A atribuição legal de definir como o governo federal gasta e arrecada seus recursos financeiros é do Ministério da Economia. É dentro do Palácio do Planalto, porém, que tudo isso é filtrado, obviamente, com mãos de ferro pela articulação política do governo, liderada pela Segov de Ramos. 

Procurado pela reportagem, Ramos não comenta este ou qualquer assunto sobre o embate, ao menos, por enquanto. Ramos estava presente na reunião que definiu cada repasse e corte. Ao atender o Estadão, Ricardo Salles limitou-se a dar uma única declaração sobre o episódio: “Esse assunto com Ramos está encerrado. Bola para frente.” 

Apesar das movimentações ministeriais previstas para janeiro do ano que vem, Salles tem afirmado a interlocutores que não tem planos de deixar o MMA e que seguirá tocando a pauta de Bolsonaro à frente da pasta. Sua interpretação sobre o embate com Ramos não é a de que partiu para um “tudo ou nada”, ao desancar Ramos em praça pública, mas que deu um recado claro ao general que muitos outros já gostariam de ter dado, tendo, inclusive, o aval do presidente para se manifestar, além do apoio do clã Bolsonaro. 

Na manhã desta sexta-feira, 23, ao comentar as declarações do ministro do Meio Ambiente, o vice-presidente Hamilton Mourão não escondeu o total incômodo com a situação. Mourão, que comanda o Conselho Nacional da Amazônia e passou a liderar a maior parte das ações de combate ao desmatamento na região, classificou como “péssimo” o que foi dito por Salles. Afirmou ainda acreditar no “arrependimento” de Salles. Falta combinar com o titular do MMA. Não há nenhum movimento neste sentido. 

O estilo beligerante de Salles pode até ter desagradado Mourão, mas acabou por amealhar diversas insatisfações sobre a atuação de Ramos, que há meses passou a nutrir fama de “vazador” de informações contra seus pares, daí o apelido de “Maria Fofoca” escrito por Salles. Antes dessa publicação, o ministro do Meio Ambiente chegou a publicar uma imagem do personagem de desenho animado Bananas de Pijamas, fazendo referência ao general, foi para a reserva militar poucos meses atrás. Mas decidiu apagar a publicação jocosa. 

A ala ideológica do governo Bolsonaro pesa contra o general, por ver nele um dos principais responsáveis pela aproximação do presidente com o chamado “Centrão” do Congresso Nacional. O histórico de desarranjos inclui ainda pressão sobre o ministro da Economia, Paulo Guedes, e o ex-líder do governo na Câmara, o major Vitor Hugo (PSL-GO). No Ministério da Agricultura, nomeações para cargos indicadas por Ramos também têm incomodado a ministra Tereza Cristina.

Acusado por Salles de ser fofoqueiro, Ramos já disse ter sido ele, sim, o alvo de fofoca. Em fevereiro deste ano, o general foi acusado de ceder a reivindicações do Congresso quando negociava as regras do orçamento impositivo. Naquela ocasião, colegas que compõem o primeiro escalão do governo questionaram sua atuação de Ramos, dizendo que Ramos, para se cacifar como articulador e se aproximar dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (AP) cedia às reivindicações do parlamento, mesmo sabendo que isso poderia prejudicar os planos do governo e Paulo Guedes. 

Ramos reagiu. “Está claro que o presidente tem me prestigiado e me apoiado, fruto de uma relação de amizade. Então começam a falar que estou articulando com Rodrigo Maia e o Alcolumbre contra planos do governo. Isso é só fofoca. Não tem nada. É ciumeira. Por isso digo que minha missão é difícil”, comentou.

Em maio, o ministro responsável pela articulação política com o Congresso teve que se justificar com os colegas do Exército, por causa da aproximação do Planalto com o Centrão. Enviou uma mensagem aos integrantes da turma de 1979 da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman). 

Em letras patrióticas, o general chegou a dizer que pensava em voltar ao Exército neste ano, mas acrescentou que não o faria porque “a guerra continua”. Ramos argumentou ainda Jair Bolsonaro, como qualquer presidente, precisa de uma “base” no Congresso, mas que não há corrupção no governo e que, por ele, “não passa nada que não seja republicano, legal e ético”.

A explicação foi dada pelo ministro, após o Estadão mostrar que militares tinham passado a negociar cargos com partidos, em troca de apoio a Bolsonaro que, naquele momento, tentava afastar rumores sobre uma possível abertura de processo de impeachment no Congresso.

Nesta sexta-feira, as redes sociais seguem como arena para embate instalado no governo. Líder do governo na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR) cerrou fileira ao lado do general Ramos. Publicou uma foto ao lado do ministro e de Bolsonaro, para se referir ao “Ministro Ramos competente na articulação política”. Ainda ontem, em solenidade no Palácio do Planalto, escreveu Barros, “tratamos do tema da articulação com o presidente Bolsonaro. Entrosado com os líderes do governo e dos partidos na câmara e no senado, Ramos está assegurando governabilidade.”

Não é demais lembrar que Ricardo Barros foi colocado no posto de líder, ao substituir major Vitor Hugo (PSL-GO), após conflitos deste com general Ramos.

Hoje, Salles passou toda a manhã colado ao presidente Jair Bolsonaro, durante a cerimônia em homenagem ao Dia do Aviador e da FAB, realizada em Brasília, para apresentação oficial do caça F-39 Gripen, desenvolvido em parceria pelo Brasil e Suécia. Em alguns momentos, Salles esteve, inclusive, ao lado do próprio general Ramos. 

Na noite de ontem, Salles e Ramos chegaram a trocar 30 segundos de palavras ríspidas por telefone, e desligaram. Nesta sexta-feira, após o evento do Gripen, almoçaram com o presidente Bolsonaro, entre outros ministros e membros do governo. Durante o almoço, trocaram apenas uma frase, para dizer que conversarão pessoalmente, em outra ocasião. Não há data para isso. 

No fim do dia, o vice-presidente Hamilton Mourão voltou a ser questionado sobre o assunto e a posição de Salles no governo, mas preferiu evitar polêmica. “Isso ai não passa por mim, isso é questão do presidente. Eu não me meto nessa guerra.”/COLABOROU EMILLY BEHNKE

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