Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Samarco quer usar a flotação para conter lama de barragem de Mariana

Órgãos ambientais rejeitaram diques propostos pela mineradora como solução para retirar os rejeitos de minério de ferro no Rio Gualaxo do Norte

Fabio Leite, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Pressionada pelos órgãos ambientais a acabar com a poluição do Rio Gualaxo do Norte, o mais afetado pelo trágico rompimento da Barragem de Fundão há um ano, em Mariana (MG), a Samarco estuda implantar um sistema de flotação (técnica de remoção de sujeira) semelhante ao que foi testado e descartado há menos de dez anos no Rio Pinheiros, em São Paulo, para impedir que a lama de rejeitos de minério de ferro continue chegando até o Rio Doce, provocando danos ambientais e sociais.

O Estado apurou que a flotação virou a principal alternativa em análise pela Samarco depois que o projeto de construção de três diques em série ao longo do Rio Gualaxo apresentado pela mineradora foi rejeitado há menos de um mês pelo Comitê Interfederativo (CIF), criado para orientar e validar as ações de recuperação do desastre que matou 19 pessoas e deixou 1.500 pessoas desabrigadas.

A proposta de construir três diques galgáveis e filtrantes entre as cidades de Mariana e Barra Longa para impedir que a lama do Gualaxo chegue até o Rio do Carmo, um dos formadores do Rio Doce, foi feita em agosto pela Samarco. Após sete reuniões, os técnicos dos governos federal, de Minas, do Espírito Santo que compõem o comitê reprovaram a medida emergencial, alegando ineficiência.

No dia 24 de novembro, o CIF publicou uma deliberação na qual afirma que “a documentação apresentada pela Samarco foi considerada tecnicamente insuficiente para demonstrar a eficiência dos diques para a melhoria da qualidade da água do Rio Gualaxo do Norte”. Segundo o despacho, “os produtos químicos propostos para serem aplicados nas bacias dos diques não possuem registro no Ibama e seus efeitos ecotoxicológicos ainda são desconhecidos”. 

O CIF recomendou que a Samarco apresente aos órgãos ambientais “soluções eficazes e definitivas visando a cessação dos danos ambientais na calha e margens do rio Gualaxo do Norte” que sejam “adotadas antes do próximo período chuvoso”, que começa em outubro de 2017, “não sendo admitida a continuidade da poluição gerada em decorrência do desastre ambiental”.

De acordo com Marcelo Belisário, superintendente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em Belo Horizonte, os três diques até poderiam reter sedimentos maiores, mas não conseguiriam impedir a passagem de partículas menores de óxido de ferro, por exemplo, que dão o tom alaranjado à água e provocam turbidez, comprometendo a vida aquática. 

“Os diques do Gualaxo não são eficientes para a contenção de todos os rejeitos, principalmente para recuperação da água. Eles não eliminam o DNA da mineração que ainda está na água. E pelo prazo de sete meses para execução proposto pela Samarco (a previsão inicial era de quatro meses), eles perdem a característica de emergência”, afirma Belisário. “Agora, a alternativa analisada é a da Unidade de Tratamento de Rio, da flotação, como é feito no Zoológico de São Paulo. Já existem exemplos no País de estações de tratamento instaladas no leito do rio e isso está em estudo pela Samarco”, completou.

A flotação é uma técnica de remoção de sujeira que utiliza produtos químicos para agrupar os detritos em blocos e depois suspendê-los na água por meio de injeção de bolhas de ar, formando um lodo que pode ser removido com mais facilidade. O método já é utilizado há anos nos lagos dos parques do Ibirapuera e Aclimação, em São Paulo, na Lagoa da Pampulha, em Minas, e no Rio Arroio do Fundo e Piscinão de Ramos, no Rio de Janeiro.

Em 2001, o governo de São Paulo anunciou a flotação como solução para limpar o Rio Pinheiros e poder bombeá-lo para a Represa Billings, aumentando o potencial energético na Usina Henry Borden, em Cubatão. Após paralisação motivada por ação judicial movida pelo Ministério Público Estadual (MPE), testes chegaram a ser feitos entre 2007 e 2010, mas foram considerados insuficientes para eliminar todos os poluentes, como o nitrogênio amoniacal, encontrado no esgoto.

Empresa diz que ainda analisa veto e não detalha estudo

A Samarco informou em nota que ainda está “analisando” a deliberação do Comitê Interfederativo (CIF) que rejeitou o projeto de construção dos três diques e cobrou solução definitiva para conter a poluição no Rio Gualaxo do Norte, em Mariana (MG), e não deu detalhes sobre o estudo envolvendo a técnica de flotação. 

Em fevereiro deste ano, a mineradora concluiu a construção de três diques (S1, S2 e S3) nas áreas das barragens de Fundão e Santarém para tentar impedir que os rejeitos remanescentes chegassem até o Rio Gualaxo, mas as estruturas não deram conta da lama nos períodos chuvosos. Agora, constrói um quarto dique em Bento Rodrigues, distrito devastado pela tragédia. 

“A Samarco reitera que já foi concluído o alteamento do dique S3, estrutura implementada para ajudar na contenção dos rejeitos remanescentes na barragem de Fundão.O dique S4, que é a última estrutura de contenção da empresa antes do rio Gualaxo do Norte, está em fase de obras e será concluído até janeiro de 2017. A empresa continuará com suas ações para contenção dos rejeitos e controle dos processos erosivos”, afirmou. 

75% dos rejeitos do Fundão já atingiram a Bacia do Rio Doce

Levantamento atualizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) revela que mais de 75% dos rejeitos de minério de ferro que estavam estocados na Barragem de Fundão antes da tragédia de Mariana, em Minas Gerais, já vazaram da estrutura rompida há pouco mais de um ano.

Antes do desastre, a barragem operada da Samarco, cujas donas são a Vale e a BHP Billiton, tinha 56,4 bilhões de litros de lama armazenados. No dia do acidente, em 5 de novembro de 2015, 32,2 bilhões de litros foram despejados na região, matando 19 pessoas, deixando 352 famílias desabrigadas e afetando a economia e o abastecimento de água de 27 cidades de Minas e Espírito Santo.

Cálculos recentes feitos pelo Ibama mostram que ao longo do período de um ano que sucedeu a tragédia mais 11,4 bilhões de litros deixaram a barragem, revelando que os três diques de contenção concluídos pela Samarco em fevereiro de 2016 não foram capazes de estancar o “sangramento” de Fundão, o que indica um desastre ambiental continuado.

“Cerca de 60% do volume que vazou permanece dentro de Bento Rodrigues (subdistrito de Mariana), mas ainda é possível encontrar o DNA da mineração a 600 quilômetros do local do acidente porque as medidas de contenção não têm conseguido conter a fração mais fina do material”, afirma Marcelo Belisário, superintendente do Ibama em Belo Horizonte. 

O presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica Santa Maria do Rio Doce, Leonardo Deptulski, afirma que a grande barreira de contenção da lama ainda é a Usina Hidrelétrica Risoleta Neves, conhecida como Candonga, que fica a cerca de 100 quilômetros do local da tragédia, já no Rio Doce. “Lá está sendo feito um trabalho de dragagem combinado com estruturas metálicas de barramento acima da barragem. Essas obras têm sido mais eficazes, mas é preciso executar outras medidas eficientes antes do Rio Doce”, diz Deptulski, que é prefeito de Colatina, no Espírito Santo, cidade também atingida pelo tsunami de lama em 2015.

De acordo com Belisário, um dos problemas para despoluir os rios atingidos, especialmente do Gualaxo do Norte, em Mariana, é que os produtos químicos utilizados pela Samarco no processo de tratamento de rejeitos não possuem registro no Ibama para serem usados no meio ambiente. “Os coagulantes e floculantes que eles usam internamente nunca foram testados fora da área industrial. Não sabemos seus efeitos na natureza e precisaria de tempo para analisá-los”, disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.