Samba reciclado bom de público, ruim de nota

Escolas reeditam músicas consagradas de carnavais passados; até agora, nenhuma agremiação conquistou o título

Mônica Ciarelli, O Estadao de S.Paulo

23 Fevereiro 2009 | 00h00

Ao reviver um samba-enredo consagrado em 1976, a Império Serrano emocionou ontem o público das arquibancadas e dos camarotes da Marquês de Sapucaí, no Rio, ao abrir a primeira noite do Grupo Especial carioca. Antes de a verde-e-branco de Madureira pisar na avenida, o samba-enredo A Lenda das Sereias já ecoava pelo Sambódromo. A música, de autoria de Vicente Mattos, Dinoel Sampaio e Arlindo Veloso, consagrou-se sucesso em regravações de Clara Nunes e Marisa Monte. Com paradinhas espetaculares da bateria de Mestre Átila, a escola mantém a esperança de fugir do rebaixamento. A reedição de sambas empolga o público, mas a estratégia ainda não garantiu um lugar de destaque no pódio do carnaval a nenhuma agremiação. A atriz Quitéria Chagas, há quatro anos à frente da bateria da Império, disse que o refrão - ela mora no mar, ela brinca na areia/no balanço das ondas, a paz ela semeia - conquistou os foliões e a reciclagem da música deve garantir a permanência da escola na elite. "Estou confiante porque o samba animou muito e foi contagiante", disse. Se ficar no Grupo Especial, a tática de relembrar um clássico resultará em êxito à Império.Um samba-enredo consagrado, de acordo o pesquisador Hiram da Costa Araújo, pode, sim, assegurar o espaço entre as grandes. "Para as escolas menores, enredos antigos visam evitar que elas caiam do Grupo Especial", explicou. Com objetivo de subir, a Império da Tijuca, do Grupo de Acesso, por exemplo, reeditou neste ano o enredo Mundo de Barro de Mestre Vitalino, de 1977. Além disso, o estudioso disse que a releitura se torna uma vantagem para as escolas que contam com menos recursos - caso da Império que teve R$ 3,3 milhões, cifra inferior à média de R$ 5 milhões das concorrentes. "Optamos por carros alegóricos menores. A Império apostou na criatividade. É o que permite o nosso orçamento", explicou ontem a carnavalesca Márcia Lage.A releitura dos clássicos, porém, pode significar um risco. Desde 2004, quando a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa) permitiu o uso de antigas músicas, quatro escolas já buscaram inspiração em carnavais passados para conquistar o público e os jurados. A Estácio de Sá, por exemplo, acabou rebaixada em 2007 ao reeditar Tititi do Sapoti, cantado pela própria agremiação 20 anos antes. Em 1987, porém, a escola garantiu o quarto lugar.A Tradição, escola que nasceu de uma dissidência entre integrantes da Portela, também não obteve sucesso ao reviver um dos sambas-enredo mais conhecidos da azul-e-branca de Madureira, o Contos de Areia, de 1984. Em 2004, de um universo de 14 escolas, terminou o carnaval em quarto lugar. Naquele mesmo ano, a Império Serrano também repetiu outro samba-enredo famoso, Aquarela do Brasil, de 1964, chegando em nono lugar. Ambas as escolas, mesmo com aperto, garantiram as vagas no Grupo Especial. Até hoje, a mais bem sucedida foi a Viradouro, com o samba-enredo Círio de Nazaré, de 1975, da antiga Unidos de São Carlos, atual Estácio de Sá. A escola de Niterói conquistou o quarto lugar no carnaval de 2004.RELEITURAVicente Mattos, de 70 anos, é o único dos três compositores do samba-enredo ainda vivo. A inspiração para repeti-lo veio de um pedido do carnavalesco Fernando Pinto, que precisava que a letra incluísse as rainhas do mar. A música cita nominalmente todas elas: Oguntê, Marabô, Caiala e Sobá, Oloxum, Inaê, Janaina e Iemanjá. Há 33 anos, a Império terminou o carnaval em sétimo lugar, prejudicada pela quebra do carro de som. Se, em 1976, o enredo priorizou as rainhas do mar, a releitura de Márcia Lage, mulher do também carnavalesco Renato Lage, focou os mistérios do mar. A intenção foi contar a história do medo e do fascínio do ser humano pelo mar, em um desfile delicado. Ela abriu o desfile com o carro alegórico Netuno e encerrou com Iemanjá. Os cerca de 250 integrantes da bateria ganharam fantasias de oficiais da Marinha. A fantasia da rainha Quitéria continha ouro e esmeralda. Agora, será leiloada para reverter os recursos para a agremiação.

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