Samuca, a grife das livrarias

Novato no ramo, ele transformou seu negócio em ponto de encontro

Valéria França, O Estadao de S.Paulo

05 Outubro 2008 | 00h00

Amigos, parentes, funcionários e mesmo clientes chamam o livreiro Samuel Seibel, de 54 anos, de Samuca. E o tom de intimidade que às vezes pode parecer inadequado soa muito natural. Explico: quem chega a uma das quatro unidades da Livraria da Vila se sente à vontade, como se estivesse numa sala de visita e não numa loja. Os vendedores não pressionam o comprador. Em contrapartida, tem leitor que fica horas, sem exagero, fuçando nas bancadas à procura de novidades, sentado nos sofás ou no café. Todas as lojas têm um. Além disso, os clientes encontram amigos, que não raro estão por lá. Trocam figurinhas com outros compradores, vendedores e, freqüentemente, sem saber, com o próprio Samuca. "Sou ótimo vendedor", gaba-se ele, que está sempre numa das unidades. Com roupas despojadas e tênis, ele pode mesmo ser confundido com um dos seus 130 funcionários. Não só por causa dos trajes. Ele está sempre agitando e se misturando com as pessoas. Talvez seja um efeito da malhação diária. Ele faz musculação, nada e corre no Parque do Ibirapuera, que fica próximo de sua casa. Em 2005, chegou a participar de uma maratona em Berlim, na Alemanha. Na quarta-feira, embarcou para a Itália, com o objetivo de fazer uma viagem de bicicleta pela Toscana com a família - a mulher, Débora, de 48 anos, e os filhos, Flávio, de 27, e Rafael, de 25. Talvez seja pelo fato de gostar de fazer amigos e de engatar numa conversa animada, a ponto de esquecer uma reunião marcada. "Além de distraído, ele é um grande otimista. Sempre acha que tudo vai dar certo e por princípio confia nas pessoas", conta Débora. "Outro dia, estava em casa e um taxista tocou a campainha. O motorista trazia as coisas do Samuca, o laptop e a mala." O livreiro tinha chegado de uma de suas viagens de negócios e, para ganhar tempo, pegou um táxi, desceu na livraria, mas pediu ao motorista que seguisse para sua residência com os seus pertences. "Imagine, era um motorista que ele não conhecia." Os manobristas do estacionamento da unidade da loja da Vila Madalena, zona oeste, onde funciona o escritório central, estão acostumados com esse jeitão diferente do patrão. E já não estranham quando recepcionam Nero, um golden retriever de 4 anos, caramelo, freqüentemente despachado sozinho, de táxi, da casa para a livraria. Mas o que impressiona de fato é a maneira como Samuca virou um livreiro. Foi assim, digamos, da noite para o dia. Em agosto de 2002, para participar de uma meia maratona, viajou para o Rio num fim de semana. Na época, era diretor comercial da Leo Madeiras - empresa com 36 lojas pelo País que herdou do pai, Bernard, judeu imigrante da Romênia, que chegou ao Brasil no início do século passado. A família Seibel ainda tem a Satipel, empresa de MDF (placas de madeira), e preside o conselho administrativo do braço nacional do grupo francês Leroy Merlin. Durante a estada no Rio, passeando em Ipanema, bairro da zona sul, Samuca viu que a Livraria Renovar havia aberto uma unidade do café da Colombo, tradicional casa do centro da cidade. "Quando entrei, escutei harpas", conta. "Tomei consciência de que esse era o negócio que queria para o resto da vida." A partir daí, começou a pesquisar e a conversar com outros empreendedores. "Ele levou o case para discutir com o nosso grupo", diz o amigo Sergio Kuczynski, de 50 anos, dono do restaurante Arábia. Os dois faziam parte do Renaissance Executive Forums, uma prática importada dos Estados Unidos onde CEOs, isolados pelos altos cargos, se reúnem para discutir carreira, negócios, incertezas, suas fragilidades e até mesmo aspectos que envolvem a vida pessoal. "Apesar de vir do ramo industrial, no fundo, Samuca foi um livreiro a vida toda." Kuczynski refere-se à paixão que o amigo sempre teve pelos livros. "Desde pequeno, quando morávamos no Bom Retiro, no centro, sempre vi meu pai lendo. Ele tinha uma biblioteca em casa, mesmo sendo um simples gerente de loja", conta Samuel. "Quando era pequeno, ele contava que havia conhecido Jorge Amado, na época em que morou na Bahia." Samuel acreditava nas histórias do pai, como todo filho, mas tinha dúvidas se o inverso valia, ou seja, se o escritor também conhecia de fato seu pai. Mais tarde, recém-formado em Jornalismo, sem querer esbarrou com Jorge Amado numa festa em Paris. "Disse que era filho de Bernard. E não é que ele se lembrou do meu pai e ainda falou de minha mãe, Rosinha?" MERCADO OSCILANTE Dois meses após ter "escutado som de harpas" no Rio, Samuca soube que a Livraria da Vila - até então com uma loja, a da Rua Fradique Coutinho - estava à venda. No início de dezembro, saiu dos negócios da família e comprou a livraria. "É muita coragem deixar um ramo estável como o industrial e comercial para investir num setor extremamente oscilante", elogia o editor Pedro Paulo de Sena Madureira, no ramo há 42 anos. Samuca conseguiu transformar a livraria de bairro em grife. "Ela não é gigantesca, como a Saraiva e a Cultura, mas média. E sobretudo a loja da Alameda Lorena tem um acervo muito completo de títulos nacionais", diz o editor. "Ele ainda inovou. Absorveu o que a Livraria Cultura já vinha fazendo desde a década de 80 e deu a sua cara, o que resultou num atendimento excepcional, muito personalizado." Samuca conseguiu transformar a livraria num ambiente tão agradável que virou ponto de encontro. Muita gente vai mesmo a passeio. "Fui criado no tempo em que o livro era a principal fonte de informação. Talvez por isso nunca tenha parado de ler." Idealista, na época do colégio, Samuca fazia parte do movimento estudantil. "Eu saía com o Bob Wolfenson (fotógrafo) pichando as ruas da zona norte. Não tínhamos a menor noção do perigo. Estávamos em plena ditadura." Quando se formou em Jornalismo, acreditou, por curto período de tempo, que poderia "mudar o mundo com sua pena"- ele trabalhou no Estado e na Folha de São Paulo. Mais tarde, acabou fisgado pelo irmão, Hélio, de 55 anos, que lhe ofereceu a oportunidade de montar um jornalzinho na empresa do pai. O jornalzinho virou uma área de marketing e o jovem idealista, diretor comercial, que ajudou a alçar a Leo Madeiras de um pequeno negócio no Gasômetro, no centro, à categoria de rede nacional. "Quando fiz 50 anos vi que havia completado minha obrigação familiar. Contei a Hélio sobre os meus planos, e ele disse que o negócio tinha a minha cara." Em julho, inaugurou a quarta casa da Livraria da Vila, num dos mais sofisticados shoppings de São Paulo, o Cidade Jardim, uma loja com 2.500 metros quadrados, duas vezes maior que a unidade da Alameda Lorena. "Meu maior prazer é ver as pessoas descobrindo coisas novas na livraria", resume.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.