Santa Catarina

Quatro meses depois, tragédia não acabou

Rodrigo Brancatelli, ITAJAÍ, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

A vida segue silenciosa na casa de Gisele Reichart, moça de 27 anos cujo rosto magro e expressivo parece marcado pelo sol e pela tristeza. Às 13h30 da última terça-feira, ela cavucava a terra de seu jardim para plantar uma árvore baixinha, torta e cheia de galhos desordenados, que, de tão pequena, mais parecia um arbusto. Moradora do Alto do Baú, área brutalmente devastada pelas chuvas que atingiram Santa Catarina em novembro do ano passado, Gisele quase não fala. Muito menos seus filhos, Vitor e Matheus, de 7 e 2 anos, que perambulam na casa sem brincar, sem correr, sem rir, sem chorar, sem soltar um pio. Ali, não são mais necessárias palavras para expressar sentimentos. Nem para apontar a beleza que, sim, ainda existe por aí - mesmo que na mais tímida e retorcida das árvores."Isso aqui significa muito para todos nós", diz ela. Aquele arbusto todo torto - feio para muitos que o olham acanhado no meio de tantas árvores maiores e mais graciosas - é o que Gisele tem hoje de mais bonito e precioso. Ele estava plantado na porta do sobrado de sua mãe, morta no deslizamento de um morro. O mesmo desabamento ainda matou outros seis parentes; a irmã, dois tios, duas primas e o cunhado. Tudo o que sobrou em pé foi a árvore, replantada na semana passada no jardim de sua casa para servir de um lembrete diário que, mesmo com toda a tristeza dos últimos meses, com toda a vontade de ficar quieta e torcer para que as coisas voltem a ser como antes, é preciso olhar para a frente e reconstruir aquilo que a chuva não conseguiu levar.A catástrofe que começou no dia 22 de novembro do ano passado e que deixou 137 mortos teima em não passar para milhares de famílias catarinenses. A lama secou, o mato cresceu, as câmeras de TV se foram e o comércio retomou suas atividades. Mas, exatos quatro meses depois, ainda há 2.637 pessoas morando em abrigos e outras 9.390 vivendo de aluguel ou de favor na casa de parentes e de amigos. O dinheiro do governo federal para a reconstrução das residências ainda não chegou. Consertos nas estradas ainda não foram feitos. As famílias de Larissa Schawanbach, de 11 meses, e de Erna Cypriano, de 79, ainda não puderem nem mesmo fazer um funeral e enterrá-las, uma vez que os bombeiros abandonaram as buscas há cerca de um mês sem encontrar os corpos. São famílias e mais famílias paralisadas no tempo, que buscam em pequenas coisas do dia a dia a força necessária para reerguer seus tetos e suas vidas.TIJOLO POR TIJOLOEntre segunda e quarta-feira da semana passada, a reportagem do Estado percorreu 845 quilômetros entre as cidades de Navegantes, Itajaí, Ilhota, Gaspar, Blumenau e Luís Alves para encontrar essas histórias de superação de Santa Catarina, pequenos milagres em meio à burocracia oficial. Foi possível reencontrar personagens que continuam dependendo de abrigos para morar, famílias que precisam de um auxílio das prefeituras para sobreviver, regiões que permanecem devastadas e abandonadas. Mas também foi possível descobrir histórias como a de Gisele Reichart, que replantou a árvore de sua mãe para retomar a própria rotina. Ou a de Jaime Lehmkuhel, que, com a ajuda da mulher e dos filhos, está tentando consertar tijolo por tijolo a casa na periferia de Blumenau. Ou, ainda, a da família Martendal , que mesmo com a destruição total da sua indústria de conservas de palmito, continuou pagando em dia o salário dos 15 funcionários. Agora, donos e empregados constroem juntos uma nova fábrica. "Não adianta ficar lamentando", diz Ademir Martendal, que aprendeu na marra o novo ofício de servente de obras. "O trabalho faz esquecer a tragédia e também ajuda a multiplicar as mudanças. Mais gente trabalha, mais gente se envolve. É uma nova vida, diferente da que a gente tinha antes, claro, mas ainda cheia de coisas boas."Há, sim, muito espaço para o otimismo. A liberação do saque de quase R$ 1 bilhão do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) em 14 municípios já garante vários focos de reconstrução. O Sindicato da Indústria da Construção Civil e imobiliárias registraram neste primeiro trimestre um aumento de 20% a 50% no preço dos terrenos. A injeção do FGTS não só deu esperança a 305 mil trabalhadores como também está ajudando a movimentar toda a rede que envolve os 980 mil moradores da região. "Vamos levantar o Vale do Itajaí", resume Anísio Mairing, que corre para consertar um bar em uma das áreas mais afetadas do Morro do Baú, onde nove pessoas morreram a poucos metros. "Aqui é um lugar bom, de pessoas boas. Não é porque houve uma tragédia que tudo acaba."

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