Santana de Parnaíba tem a maior desigualdade

Um muro de quatro metros de altura, com rolos de arame farpado no alto envolvendo fios elétricos, é uma das fortes marcas da desigualdade de renda na periferia de São Paulo, divisa dos municípios de Santana de Parnaíba e Barueri. A barreira de concreto separa os fundos do condomínio de luxo Tamboré 1 do Parque Imperial, área de terrenos em situação irregular, ocupada por famílias de baixa renda. "Moro aqui há 15 anos", diz Maria Solange de Souza Farias, de 63 anos, pernambucana de Gravatá. Mãe de dez filhos, ela criou nove. E vive da ajuda de sua prole porque não consegue se aposentar.

Pablo Pereira e José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Segundo dados do IBGE, Santana de Parnaíba é o município onde há a maior diferença de renda em termos absolutos: R$ 1.195. A renda média no município é de R$ 1.799 e a mediana é R$ 603 - ou seja, metade da população vive com menos do que esse valor. Em Santana de Parnaíba, que tem 108 mil habitantes, segundo o Censo de 2010, os registros do governo federal mostram que há pelo menos 6.431 famílias sobrevivendo com renda abaixo de meio salário mínimo. E 5.038 famílias que só contam com R$ 140 por mês para viver. De acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento Social, foram repassados para o município em maio R$ 327,4 mil para atendimento das 2.984 famílias cadastradas no Bolsa Família.

Subindo a rua do muro encontra-se a família de Maria Aparecida da Silva, de 31 anos. Mãe de três filhos, a manicure Cida, como é chamada pelos vizinhos, adianta logo: "Meu marido trabalhou na construção do muro".

O marido, Gilson Araújo Oliveira, de 33 anos, foi um dos operários que trabalharam por cerca de seis meses no reforço do isolamento entre o condomínio, que tem mansões que chegam a valer R$ 10 milhões, em lotes de até 5 mil metros, e o bairro no qual a família de Cida e Gilson vive em um lote de 4 metros de frente por 14 metros de fundo. "Eu trabalhei no segundo muro", lembra Gilson, que é de Capim Grosso (BA).

Cida, que é de Canto do Buriti (PI), trabalhou até outubro em um salão de beleza na área da rica vizinha Alphaville, conjunto de bairros que com Tamboré forma um complexo residencial, comercial e industrial de alto padrão. Ela conta que trabalhava por comissão e faturava até R$ 2 mil por mês. Agora ela planeja abrir seu próprio salão lá mesmo no Imperial.

"Ali (no condomínio) já tinha o muro branco. Mas o pessoal daqui encostava lá. Então eles levantaram o outro muro", explica Valdeci Nascimento, de 61 anos, aposentada, vizinha de Cida. Baiana de Jacobina, ela deixou sua terra em 1999 em busca de vida melhor em São Paulo. E, depois de morar de aluguel no bairro, comprou, com o marido, Julio Jesus dos Santos, 41, um barraco por R$ 6 mil. O casal hoje vive em uma casa que se espicha para cima, laje sobre laje, e de cujo terceiro piso, ainda inacabado, é possível ver os casarões do vizinho condomínio supervalorizado.

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