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Padre Cícero é alvo da devoção de milhares de fiéis Acervo/Estadão

Santo no coração do povo, padre Cícero continua distante do altar da Igreja

'Estado' inicia nesta terça-feira, 22, publicação de reportagens sobre 'santos populares'. Distantes ainda de serem considerados santos pela Igreja Católica, como Irmã Dulce, muitos são alvo de devoção de milhares de fiéis

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 12h00

SOROCABA - Romarias em louvor ao padre Cícero levam 2,5 milhões de devotos por ano a Juazeiro do Norte, no interior do Ceará. O templo do religioso tornou-se o segundo mais procurado por peregrinos no País, atrás apenas do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil. Apesar de já ter sido entronizado pelos devotos, que atribuem a ele curas e milagres, o padre Cícero continua distante dos altares católicos. Como em outros casos de "santos populares", o reconhecimento das virtudes e dos exemplos de vida de Padim Ciço, como é conhecido popularmente o padre Cícero Romão Batista, encontra resistência no clero.

Nem a recente canonização de Santa Dulce dos Pobres, no último dia 13, trouxe mais alento a milhares de devotos que lutam pelo reconhecimento desse e de outros "santos populares brasileiros". No caso do padre Cícero, ele obteve a reconciliação póstuma com a Igreja, mas continua longe da canonização oficial. "Não existe e não pode existir ainda um 'processo de beatificação', pois o referido Padre morreu sob as penalidades eclesiásticas (suspensão do uso da ordem sacerdotal) e diversas outras dificuldades na sua relação com a hierarquia da Igreja daquela época", disse ao Estado o padre Rocildo Alves Lima, chanceler da Diocese de Crato, no Ceará.

Historiadores contam que a relação do padre com o clero brasileiro da época já não era boa em razão do envolvimento do religioso com política. "Além de sacerdote, padre Cícero era também fazendeiro e político, filiado a partido. Ele foi o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, em 1911, quando o povoado foi elevado à cidade, e chegou a vice-governador", conta o reitor da Basílica Santuário Nossa Senhora das Dores, padre Cícero José da Silva. Segundo ele, o padre de quem adotou o nome convivia com os coronéis e foi eleito deputado federal, mas não assumiu o cargo. Entre seus devotos estava Virgulino Ferreira da Silva, o cangaceiro Lampião, com quem ele se encontrou ao menos uma vez.

'Milagre'

Foi nessa igreja, construída pelo religioso em 1875, que se deu o episódio marcante na vida de padre Cícero. No dia 1º de março de 1889, ao colocar a hóstia consagrada na boca da devota Maria de Araújo, o pedaço de trigo teria se transformado em sangue. O "milagre da hóstia" logo se espalhou pela região. O fenômeno teria se repetido diversas vezes durante dois anos. As narrativas de boca em boca apontavam o próprio Cristo se manifestando em Juazeiro através de uma beata e pelas mãos de um padre santo.

Atendendo pedido dele, a diocese formou uma comissão com dois padres, dois médicos e um farmacêutico para investigar o suposto milagre. Em outubro de 1891, a comissão chegou à conclusão de que não havia explicação natural para os fatos, então considerados milagrosos. Insatisfeito, o bispo dom Joaquim José Vieira nomeou outra comissão, composta apenas por um padre e seu secretário, que considerou o "milagre" uma fraude. O bispo acatou esse resultado e suspendeu as ordens sacerdotais do padre Cícero. Ele também determinou que Maria de Araújo fosse afastada da igreja.

Em 1898, padre Cícero foi a Roma e se reuniu com o Papa Leão XIII e com membros da Congregação do Santo Ofício. Ele teria conseguido sua absolvição, mas em seu retorno a Juazeiro, a decisão foi revista pelo Vaticano. Chegou a ser anunciada a excomunhão do religioso, porém, descobriu-se depois que a punição não fora aplicada. Em 2001, quando ainda era cardeal, o papa Bento XVI mandou investigar o caso, vendo a possibilidade de reabilitar o padre brasileiro perante a Igreja. Em 2006, o bispo dom Fernando Panico viajou para o Vaticano com uma comissão de religiosos, políticos e fiéis para defender a reabilitação. Em dezembro de 2015, padre Cícero recebeu o perdão da Igreja.

Não há consenso no clero sobre a uma futura canonização do padre. O bispo dom Gilberto Pastana, da Diocese de Crato, vê Cícero como "ícone da caridade e serviço ao próximo". Agraciado com o "Troféu Padre Cícero", dado aos que se destacam no cenário de Juazeiro, dom Gilberto disse que o religioso foi um ser humano exemplar. "É muito bom recordar e agradecer a Deus a vida deste homem." Já a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) informou que "o processo do padre Cícero Romão Batista continua na Congregação para a Doutrina da Fé, onde ainda precisam ser elucidadas algumas questões e ainda não chegou à Congregação para a Causa dos Santos".

Devotos de outros religiões

Para os devotos do "padim" que lotam Juazeiro do Norte em novembro, quando acontecem as principais romarias, o padre já é santo. "Difícil achar uma casa que não tenha uma imagem dele. Eu tenho um oratório com imagens e fotos dele, em agradecimento a uma cura", diz a professora Maria Rosalina Oliveira, que leciona na rede municipal de Juazeiro. Ela conta que um sobrinho se recuperou de um acidente grave após intercessão ao "padim". O padre é admirado até mesmo por evangélicos, que não admitem o culto a santos. "Sou evangélico, mas respeito e o trato com o maior carinho. O que falta no mundo é amor ao próximo e padre Cícero foi um exemplo disso, por isso os evangélicos o admiram e respeitam", disse o secretário de Turismo e Romarias de Juazeiro, José Bezerra Feitosa Junior.

Segundo ele, a cidade "respira" padre Cícero. "A atuação dele contribuiu para o estágio de desenvolvimento que Juazeiro tem hoje, acima da média nacional. Ele foi nosso primeiro prefeito, foi um visionário, transformou nossa cidade em um polo educacional. Temos um aeroporto que só perde para o de Congonhas, em São Paulo, em pousos e decolagens." A pasta do evangélico Feitosa Junior coordena as romarias a templos católicos como a matriz de Nossa Senhora das Dores, construção barroca inaugurada pelo padre em 1875, e a Capela do Perpétuo Socorro, também construída por ele e onde seus restos mortais repousam sob o altar-mor. A estátua do padre, com 27 metros, na Serra do Horto, está entre as dez maiores em concreto das Américas.

O governador do Ceará, Camilo Santana (PT), chegou a se encontrar com o Papa Francisco, reforçando o pedido de beatificação do servo de Deus. "Disse ao papa que éramos muito gratos pela reconciliação de padre Cícero com a Igreja, que só aconteceu graças a ele. O papa, inclusive, está estudando a beatificação do padre de forma muito positiva", afirmou o governador. Santana deixou uma imagem do padre Cícero com o pontífice.

A diocese de Crato, que abrange Juazeiro do Norte, admite que há uma nova postura em relação ao padre. "O que mudou até o presente momento foi o olhar sobre o citado padre e o fenômeno crescente das romarias de Juazeiro. Os últimos pronunciamentos emanados da Congregação da Doutrina da Fé e da Secretaria de Estado do Vaticano ofereceram novas orientações para um mais amplo entendimento do conjunto de fatos, vindo a incentivar novos estudos e uma revisão das orientações do passado", disse o chanceler.

Menos badalada que Padre Cícero, a jovem cearense Benigna Cardoso da Silva, natural de Santana do Cariri, está mais próxima de se tornar santa. A jovem foi brutalmente assassinada a facadas, aos 13 anos, em 1941, depois de resistir ao assédio sexual de outro adolescente. Para a população, a "heroína da castidade" deu a vida para não cometer pecado. A diocese do Crato abriu o processo de beatificação em 2011. Dois anos depois, a jovem foi nomeada serva de Deus pela Igreja Católica. No dia 3 de outubro, a Santa Sé promulgou o decreto de reconhecimento do seu martírio, o que lhe abre as portas para a beatificação.

Leia o especial completo sobre os 'santos populares'

  1. Santo no coração do povo, padre Cícero continua distante do altar da Igreja
  2. Venerável frei Damião fica mais próximo da canonização
  3. Bento do Portão, Menino Guga, Izildinha e outros 'santos populares' em SP
  4. Aparições da Virgem Maria são vistas com prudência pela Igreja
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Venerável frei Damião fica mais próximo da canonização

'Estado' publica segundo capítulo da série sobre os 'santos populares'. Distantes ainda de serem considerados santos pela Igreja Católica, como Irmã Dulce, muitos são alvo de devoção de milhares de fiéis

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

23 de outubro de 2019 | 13h00

SOROCABA - Frei Damião de Bozzano é cultuado como santo há décadas pelos nordestinos, mas o processo de canonização dele patinava havia quase 20 anos no Vaticano. Este mês, os devotos que lutam para ver uma imagem desse servo de Deus nos altares das igrejas tiveram um motivo para comemorar. O papa Francisco assinou decreto reconhecendo as virtudes heroicas do frade capuchinho da Ordem Franciscana que evangelizou o Nordeste e que dizia ser apenas um “mensageiro” de Deus.

Este é o segundo capítulo da série sobre "santos populares". O primeiro foi sobre padre Cícero, cujo templo religioso está atrás apenas do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.

A Arquidiocese de Olinda e Recife considerou que a declaração de venerável é um grande passo rumo à beatificação. “Com a comprovação de um milagre ocorrido pós-morte do frade, ele poderá ser declarado beato. Com mais um milagre, acontecido depois da beatificação, ele será inscrito no álbum dos santos, a canonização”, explicou frei Jociel Gomes, postulador da causa da beatificação.

Embora nascido na Itália, em 1898, filho de camponeses de sólida formação católica, foi no Brasil que o frade dedicou 66 anos de sua vida às missões de evangelização. Eram jornadas de conversão que duravam de segunda-feira a domingo, com sermões, catequeses e visitas a doentes e presos. Frei Damião atendia confissões por mais de 12 horas por dia, o que lhe valeu uma deformação na coluna que o deixou encurvado.

A vida do religioso é contada no documentário “Frei Damião - O santo do Nordeste”, dirigido pela pernambucana Deby Brennand, com estreia prevista para novembro. O italiano Pio Gianotti nasceu em Bozzano, Toscana, foi recrutado e lutou na 1.a Guerra Mundial, e se tornou fra Damiano da Bozzano (frei Damião de Bozzano) ao se ordenar frade capuchinho, em Roma.

Já no Brasil, encarnava a figura de um padre carrancudo, que proferia sermões condenando de políticos corruptos a maridos infiéis, sempre em tom ameaçador. Diz a lenda que até os sapos se calavam quando ele pregava. Dizia que não era santo, apenas um frade. Era anticomunista e tinha ideias conservadoras, criticando o “exagero” da minissaia. Isso não impediu que arrastasse multidões.

Para a artesã Maria Nucicleide da Silva Viana, moradora de São Paulo, que confecciona paramentos litúrgicos, frei Damião já é um santo.

“Minha mãe estava muito doente e havia passado por vários médicos, até ser diagnosticada com um tumor no pâncreas. Quando foi internada para a cirurgia, no hospital São Paulo, os médicos disseram que a chance de cura era de menos de 1%. Ela foi à capela do hospital, onde o frei Damião também estava internado, e o encontrou lá em oração. Minha mãe falou sobre a doença e pediu que intercedesse por ela. O frei disse: ‘Minha filha, você pode morrer de outra doença, mas dessa você será curada’. Ela recebeu a graça, ficou boa”, contou à reportagem. 

O frei morreu em Recife, no dia 31 de maio de 1997 e seu corpo está enterrado na capela de Nossa Senhora das Graças, no Convento São Félix, na capital pernambucana. Em Caruaru, no interior, fiéis mandaram erguer uma estátua dele. Em São Joaquim do Monte, milhares de romeiros caminham todo ano para homenagear o frade, na Romaria de Frei Damião. A peregrinação termina na estátua do frade. Em 2004, foi inaugurado o Memorial Frei Damião na cidade de Guarabira, Paraíba, também percorrida por ele em suas missões.

Responsável por encaminhar o processo de beatificação, frei Jociel Gomes, da arquidiocese de Olinda e Recife, disse que a Santa Sé já avalia três relatos de milagres atribuídos ao capuchinho. “A declaração de venerável é o primeiro passo, pois foram reconhecidas suas virtudes cristãs em grau elevado. Para virar beato, precisamos comprovar pelo menos um milagre. Depois, será preciso outro milagre para a canonização”, explicou.

Para muitos devotos, ele já está canonizado. “Eu abracei este santo. Ele fez oração tocando a minha cabeça”, disse a professora Pollyana Andrea, moradora de Paulista, região metropolitana de Recife.

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Bento do Portão, Menino Guga, Izildinha e outros 'santos populares' em SP

'Estado' publica terceiro capítulo da série sobre 'santos populares'. Distantes ainda de serem considerados santos pela Igreja Católica, como Irmã Dulce, eles são alvo de devoção dos fiéis

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2019 | 12h00

SOROCABA - Pessoas que, após a morte atraem a devoção popular, nem sempre encontram respaldo no clero católico para se tornarem candidatas a santas. Em São Paulo, há vários exemplos de "santos populares" que ainda não receberam um olhar da Igreja Católica. Muitos têm a própria existência envolta em lendas que dificultam a transição pelos rigorosos cânones católicos.

É o caso de Antônio Bento, o Bento do Portão, que viveu no bairro de Santo Amaro, zona sul de São Paulo, entre fins do século 19 e início do século 20. Dizem que era mendigo, curandeiro e prestador de serviços eventuais, como buscar lenha e água para os moradores da época, que lhe pagavam em alimentos e cigarro de palha.

Antônio ganhou o apelido porque, quando tinha fome, sentava nos degraus dos portões das casas, esperando que lhe dessem um prato de comida. Ele morreu em 1917, próximo à entrada do cemitério de Santo Amaro. Quando houve necessidade de exumar seu corpo, ele foi encontrado intacto. Entre os supostos milagres, está o de uma mulher que, necessitando amputar as pernas, pediu a ele e ficou curada.

Antonio da Rocha Marmo, o "menino dos milagres", nasceu em 1918 no bairro do Bom Retiro, centro da capital. Desde criança, Antoninho gostava de simular a celebração de missas e abençoava as pessoas que passavam diante da janela de sua casa. Logo, a população passou a apreciar sua religiosidade. Ele ganhou fama de prever o futuro, tendo previsto a própria morte. O menino faleceu aos 12 anos de tuberculose e seu corpo está sepultado no Cemitério da Consolação. É um dos túmulos mais visitados. Mais de um século após sua morte, fiéis manifestam sua devoção ao "santinho" na página dedicada a ele em redes sociais.

Menina Izildinha

Menina Izildinha, como ficou conhecida Maria Izilda de Castro Ribeiro, morreu de leucemia, em 1911, aos 13 anos de idade, em Guimarães, Portugal. Na década de 1950, um de seus irmãos decidiu mudar-se para o Brasil e trazer o corpo da irmãzinha. Quando foi feita a exumação, o corpo continuava intacto, 40 anos após a morte da menina. O homem comprou um jazigo no Cemitério São Paulo e a comunidade portuguesa passou a visitar o túmulo.

Logo surgiram notícias de graças alcançadas por intermédio dela. Em 1958, já um empresário bem sucedido, o irmão decidiu mudar-se para Monte Alto, no interior, para abrir uma indústria, e levar o corpo da irmã. A fama da "santinha" a precedeu e a comunidade portuguesa da cidade se mobilizou para fazer um grande mausoléu na praça central.

Novos "milagres" foram relatados e o culto cresceu. Na década de 60, a menina virou objeto de disputa judicial. O irmão decidiu voltar para São Paulo e pretendia levar o corpo de volta ao antigo mausoléu. A população de Monte Alto se mobilizou e conseguiu que o corpo de Izildinha fosse incorporado ao patrimônio da cidade. O túmulo dela em São Paulo, mesmo sem o corpo, continua sendo venerado pelos fiéis.

Menino Guga

O Menino Guga, nome pelo qual João dos Santos Sobrinho ficou conhecido, morreu em 1946 aos três anos de idade. Contam as histórias que seu espírito era tão elevado que ele começou a falar com três meses e, ao seis, já estava andando. A criança previu sua morte com 15 dias de antecedência. Seu túmulo, em São Paulo, é venerado pelos que acreditam em seu poder de operar milagres.

Os devotos de Felisbina Muller atribuem a ela vários milagres, como a cura de pessoas e, principalmente, de animais de estimação. Sem registro de seu nascimento, a mulher morreu em São Paulo, em 1923. Houve várias tentativas de exumar seu corpo, mas ele permanecia sempre intacto.

Outros casos

O caso das 13 Almas Benditas remete a uma lenda do livro de São Cipriano, segundo a qual a cada sete anos, 13 espíritos de mortos em catástrofes apareceriam, ajudando as pessoas a resolverem seus problemas. No Brasil, as 13 almas seriam vítimas do incêndio do edifício Joelma, acontecido em fevereiro de 1974. Um curto-circuito teria provocado um incêndio no 12º andar e o fogo se espalhou, atingindo 20 dos 25 andares, deixando 179 mortos e 300 feridos. Muitas pessoas, em desespero, se jogaram do prédio.

Os corpos de 13 pessoas que ficaram sem identificação, por terem sido carbonizados no interior de um elevador, foram enterrados lado a lado no cemitério São Pedro, na Vila Alpina. Muitas pessoas atribuem milagres a essas almas e, além de flores, depositam copos de água sobre as lápides, com o intuito de aliviar o sofrimento das vítimas do fogo. A Igreja Católica não reconhece essas pessoas como milagreiras, mas o local é palco de peregrinações e orações.

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Aparições da Virgem Maria são vistas com prudência pela Igreja

'Estado' publica quarto e último capítulo da série sobre os 'santos populares'. No Brasil, foi constituída, em 2011, comissão para observação de Nossa Senhora em Anguera, na Bahia

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2019 | 12h00

SOROCABA - Fruto de devoção de fiéis no mundo todo, a Virgem Maria registra 2 mil aparições ao longo dos séculos, segundo o site The Miracle Hunter, que reúne registros das aparições marianas. A primeira da qual se tem registro é a de Nossa Senhora do Pilar de Saragoza, na Espanha. Maria apareceu ao apóstolo Santiago, o Maior, às margens do Rio Ebro, no ano 40 depois de Cristo. A aparição que envolveu mais videntes foi registrada em 2000 e 2001 para milhares de pessoas, em Assuite, no Egito.

A Igreja Católica sempre foi prudente diante desses registros e só 16 delas foram aprovadas pelo Vaticano, enquanto outras 28 contam com a aprovação dos bispos locais. O Concílio de Trento (1545-1563) estabeleceu o bispo local como a primeira autoridade para julgar a autenticidade de uma aparição mariana, ou seja, reconhecer que as revelações constituem uma chama autêntica de Cristo ou de seus santos para a Igreja. Com esse reconhecimento, a Virgem pode ser venerada de uma maneira especial. Após a aprovação episcopal, a aparição pode ser objeto de uma declaração oficial do papa.

Entre as aparições marianas que contam com reconhecimento da Santa Sé de destacam a da Virgem de Guadalupe, no México (1531); Nossa Senhora da Siluva, na Lituânia (1608); Virgem da Medalha Milagrosa, na França (1830); Nossa Senhora de Sión, em Roma (1842); a Virgem de La Salette (1846) e Nossa Senhora de Lourdes (1858) na França; Nossa Senhora de Gietzwald, na Polônia (1877); a Virgem de Fátima, Portugal (1917), e a Mãe do Mundo de Kibeho, Rwanda (18981).

Em muitos relatos de aparições de Maria, a Igreja nunca se pronunciou. Em outros casos, como o de Medjugorge, na Bósnia e Hersegovina, a Igreja ainda estuda o parecer dos bispos da Iugoslávia, país que se dividiu após as guerras, para os quais “não é possível estabelecer que houve aparições ou revelações sobrenaturais”. A Virgem Maria teria aparecido para cinco adolescentes e uma criança. Em 2010, o Vaticano constituiu uma comissão internacional, sob a autoridade da Congregação da Doutrina da Fé, para determinar a sobrenaturalidade ou não do fenômeno.

No Brasil, a pedido do Vaticano, foi constituída em 2011 uma comissão de observação das aparições de Nossa Senhora em Anguera, na Bahia. Um monsenhor, um padre e um psiquiatra passaram a estudar as mensagens que Maria, a Rainha da Paz, teria transmitido ao confidente Pedro Régis. As aparições tiveram início em 1987 e se prolongaram por mais de duas décadas. Entre padres e bispos da região, há ceticismo em relação às mensagens transmitidas a um único vidente.

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