Santos é considerado fugitivo nº 1 pela polícia de Alagoas

Segundo autoridades policiais, pai de Eloá corre risco de morte por ser um ?arquivo vivo?

Eduardo Reina, Bruno Tavares e Ricardo Rodrigues, O Estadao de S.Paulo

22 Outubro 2008 | 00h00

O delegado João Mendes, ex-secretário de Segurança de Alagoas e coordenador das ações para desmantelamento da "Gangue Fardada", disse ontem que o ex-cabo Everaldo Pereira dos Santos, pai da garota Eloá Cristina Pimentel, era um dos bandidos mais temidos do grupo que aterrorizou Alagoas e Estados vizinhos na década de 90. Para a polícia de lá, ele é o Amarelinho. "Ele (Everaldo) participou de inúmeros crimes dentro e fora de Alagoas e, com o soldado Cícero Felizardo (o Cição), formava a dupla mais temida da gangue", disse Mendes. Pelas fotos e imagens de TV, Mendes reconheceu Aldo José da Silva, pai da menor morta pelo namorado Lindemberg Alves, como sendo o cabo Everaldo. Ele é considerado o fugitivo número 1 de Alagoas. "Ele tinha participação muito ativa no bando", afirmou. Hoje vereador de Maceió, Mendes disse que a operação foi a mais arriscada de sua vida e vários policiais, além de Lessa, tombaram no combate aos criminosos, que agiam sob o comando de militares de alta patente e eram financiados por políticos locais. O próprio Mendes sofreu emboscadas. A quadrilha, conforme o delegado, era poderosa e diversificada. Tinha como chefe o então tenente-coronel da PM Manoel Cavalcante e era integrada por militares de várias patentes. Eles praticavam crimes de pistolagem, assalto a banco, carro forte, chantagem, roubo de carga e receptação de carro roubado, entre outros. "O povo alagoano ainda acha um sonho ter se livrado da gangue, por causa da enorme quantidade de membros com poder de polícia e a proteção de políticos influentes e empresários." Hoje preso na Penitenciária Federal de Catanduvas (PR), o Cavalcante tinha apoio político do deputado estadual João Beltrão (PP-AL), que teve o mandato suspenso por envolvimento com a quadrilha desbaratada na Operação Taturana, além de ligações indiretas com vários caciques políticos. Os trabalhos para desarticulação da quadrilha começaram em julho de 1997 e se estenderam a fevereiro de 1998, numa série de tiroteios, emboscadas e ações espetaculares. "Mais de 40 foram presos, mas infelizmente alguns, como o cabo Everaldo, conseguiram escapar ao cerco", relata. Segundo o delegado, Lessa foi assassinado por exigir que a gangue apresentasse um responsável pela morte, por vingança, de um preso internado numa UTI de Maceió. ADVOGADO O criminalista Ademar Gomes ficou surpreso quando um dos irmãos de Eloá telefonou para o seu escritório, no segundo dia do seqüestro, querendo marcar uma visita. "Não entendi nada: não sou psicólogo, não sou negociador. O que eles podiam querer de mim?", relembra. Diante da insistência, o advogado chegou a explicar que a família perderia dinheiro, pois não teria como ajudar e ainda teria de cobrar pela consulta. A resposta o intrigou ainda mais: o valor não importava, era preciso resolver um problema pessoal. Enquanto Eloá era mantida refém pelo ex-namorado, o pai dela, um irmão e um parente contaram ao criminalista detalhes sobre o passado da família em Alagoas. "O pai chorava o tempo todo, tive de mandar trazer água com açúcar para ele", conta Gomes. O advogado deu duas alternativas a Santos: desaparecer e evitar que fosse capturado ou acompanhar o desfecho do seqüestro da filha correndo o risco de ser descoberto pela polícia. "Como pai, ele optou por ficar ao lado da família até o fim", disse. Na madrugada de ontem, ao ser informado de que jornais de Maceió haviam publicado as suspeitas da polícia a seu respeito, o ex-cabo da PM alagoana decidiu fugir. "Não fui no enterro (de Eloá) para não ser preso", admitiu, e alegou que sabia que havia sido reconhecido no segundo dia de negociações na semana passada. A Polícia Civil de Alagoas considera Santos um arquivo vivo e teme por sua vida. "Ele está correndo risco de morte", disse o delegado-geral do Estado, Marcílio Barenco. "Acredito que ele usava a espingarda para sua proteção, assim como utilizou documentos falsos." Em 1991, o delegado Ricardo Lessa e seu motorista, Antenor Carlota, foram cercados por um bando armado na porta da casa do sogro de Lessa. "Meu irmão foi metralhado, levou mais de 15 tiros", conta Ronaldo Lessa, ex-governador do Estado. "Ele nem teve tempo de fazer as denúncias." IMPUNIDADE Durante mais de três anos, a quadrilha permaneceu impune. "O coronel Cavalcante chegou a se candidatar a deputado e, mesmo preso, tentou se eleger", contou Ronaldo Lessa, que chegou a ficar sob proteção da Polícia Federal depois das denúncias feitas contra os matadores. "A Justiça demora, mas chega. Só é lamentável que as coisas tenham ocorrido dessa forma. A menina não tinha nada a ver com essa história." Para evitar ser localizado pela polícia alagoana, cabo Santos teria deixado o Estado em 1993, ano em que foi expulso da PM por deserção. Trocou de nome, comprou documentos falsos e passou a morar com a família em Santo André. O pai de Eloá não contava aos filhos sobre seu passado. "Eu evitava falar sobre isso. O passado, essas coisas, eu queria apagar", disse Santos.

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