Santos tem maior boom imobiliário em 20 anos

18 prédios estão sendo erguidos na área da orla; 60% vendidos na planta

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

24 de dezembro de 2007 | 00h00

Um apartamento de 410 metros quadrados de área útil, pé-direito de 3,6 metros e preço médio de R$ 5 milhões - R$ 12 mil o metro quadrado. Tem portas de acesso blindadas, assim como as duas guaritas com sistema wireless, caso os ladrões ousem cortar os fios, e elevadores acionados por impressão digital. O projeto é de Adolpho Lindenberg, que assina os prédios neoclássicos espalhados pela capital paulista, e o design de interior, de Sig Bergamin, personalizado para cada uma das 20 unidades. A fachada pré-moldada é a mesma dos luxuosos San Paulo e Plaza Iguatemi, na Avenida Faria Lima. E a diferença? Vista para o mar. O novo edifício é apenas um exemplo da transformação pela qual passa Santos, no litoral paulista: pelo menos 18 novos empreendimentos estão sendo erguidos de frente para a praia ou nos quarteirões próximos. Aos poucos, eles mudam a fotografia da orla, que permanecia praticamente a mesma desde que os primeiros arranha-céus formaram a muralha de concreto na frente do mar. Nos últimos 12 meses, 1.900 novas unidades foram lançadas, o maior número em duas décadas. Outras 2 mil estão previstas para 2008. Incorporadoras, construtoras e imobiliárias da capital, como Camargo Corrêa, Gafisa, Rossi e Lindenberg, desceram a Serra do Mar. Segundo a Real Consultoria, 60% das unidades são vendidas antes do início das obras.Mais dinheiro disponível para crédito, menos juros e possibilidade de financiamentos com maior prazo movimentam o mercado da construção em quase todo o País, mas Santos tem sido considerada uma pérola nesse mar de concreto. Primeiramente, pela descoberta, este ano, de um megacampo de petróleo, que elevará em 50% as reservas brasileiras. Os investimentos e o emprego nas áreas operacionais e de logística estão espalhados por todo o litoral, do Rio a Santa Catarina, mas a inteligência de empresas como a Petrobrás - que exige mão-de-obra qualificada - ficará concentrada em Santos.Só a Petrobrás abrirá na cidade, sede da Bacia de Santos, 1.200 vagas permanentes em dois anos e 3 mil até 2015, para engenheiros, geólogos e geofísicos, com salários acima de R$ 5 mil. Os empregos indiretos devem chegar a 12 mil, segundo o gerente-geral da Unidade de Negócios da Petrobrás na Bacia, José Luiz Marcusso. E profissionais da empresa já estão sendo deslocados para o novo escritório em Santos.A paulistana Lilian Thies, de 36 anos, é um exemplo. Com mestrado em Geografia, ela prestou concurso para a estatal em março de 2006, para uma vaga no Rio. "Sempre gostei de praia. Mas ficar longe de São Paulo e da família me incomodava. Quando soube da oportunidade em Santos, pedi transferência", diz. O marido, o administrador Fabio Alencar, também funcionário da Petrobrás, fez o mesmo caminho. O casal mudou há poucos meses e procura apartamento."Santos é tranqüila, com boa infra-estrutura, sem tanto trânsito ou violência, como no Rio. Faltava o emprego. Agora não falta mais", diz Lilian, que trabalha das 9 às 17 horas, corre na praia no fim de tarde e à noite freqüenta bares à beira-mar. O lado ruim de estar longe da capital é a menor oferta de serviços. Pelo menos uma vez por mês, vai à capital para fazer compras. Viciada em sapatos, dá uma passadinha na Shoe Stock, em Moema, e vai ao Cobasi comprar ração para seis gatos. "O shopping do santista é o Iguatemi", observa o empresário Lourenço Lopes, da Real Consultoria Imobiliária. Segundo ele, uma boa infra-estrutura de hospitais, escolas e nove universidades, rápido acesso à capital, facilitado pela Nova Imigrantes, e a perspectiva de desenvolvimento econômico fazem mais gente descer a Serra para morar no litoral. "Santos se tornou um bairro nobre de São Paulo. O único com vista para o mar", diz Edson Carpentieri, que lançou este ano o primeiro programa de TV local do setor imobiliário, o Jornal da Orla Imóveis. A cidade, segundo ele, terá ainda de se preparar para ofertar mais serviços urbanos. Estimativas apontam para a migração de 50 mil famílias - cerca de 200 mil pessoas - em uma década. Isso aumentaria em 44% a população atual (de 450 mil habitantes). O novo fluxo migratório, porém, poderá intensificar o atual déficit habitacional (veja ao lado) porque parte dos empregos será temporária. A perspectiva de crescimento econômico, que inclui, além da descoberta na Bacia, a modernização do Porto de Santos, que dobrará em dez anos, faz o mercado imobiliário investir mais. "Santos é uma das três cidades que concentrará os investimentos de alto padrão em 2008", diz o diretor de Incorporação da Camargo Corrêa, Maurício Barbosa, que lançou este mês o primeiro projeto na cidade - o Jardim Vila Rica, com apartamentos de 180 metros quadrados, a partir de R$ 650 mil e duas coberturas duplex por R$ 1,4 milhão. Indiretamente, o desenvolvimento movimenta outros setores. "Fiz uma sondagem de mercado nas férias e percebi que, com o crescimento do emprego na cidade, a demanda para meu tipo de negócio também seria maior. O ano de 2007 foi o mais rentável dos últimos três anos", diz o corretor de seguros paulistano Marcelo Jarra, de 40 anos, que se mudou para Santos em busca de tranqüilidade, sem abrir mão do ganho financeiro. Sua família mantinha um apartamento de temporada na cidade desde 1958. Até 2006, ele passava a semana em São Paulo e descia a serra no sábado e domingo. Agora, inverteu a lógica. A cada 15 dias, passa o fim de semana com as filhas, de 12 e 14 anos, na capital.

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