São Paulo pára mais cedo sob ameaça do crime

Comércio, empresas e até repartições públicas foram fechadas mais cedo nesta segunda-feira, 15, e seus funcionários dispensados devido ao medo que tomou conta da cidade de São Paulo desde o início da onda de violência organizada pela facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) na noite de sexta-feira, 12. O rodízio de veículos foi suspenso e os ônibus estão circulando em número reduzido. Trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) continuam circulando normalmente, segundo informações das assessorias de imprensa dos órgãos.O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Transportes Metroviários de São Paulo também confirmou a manutenção das operações, embora manifeste preocupação com o risco de haver superlotação dos trens.A Prefeitura informou que a circulação de ônibus na zona sul da capital está praticamente paralisada, mas não possui estimativa de quantos ônibus estariam funcionando dos cerca de 2.600 que circulam na região. De acordo com a Assessoria de Comunicação da Prefeitura, a decisão de retirar os ônibus de circulação não saiu da administração pública, mas sim dos donos das companhias e dos próprios funcionários, que estão com medo da onda de ataques na cidade. No restante da cidade, os ônibus circulam normalmente, dentro das condições atuais. A Prefeitura contabiliza 47 ônibus incendiados até o momento.A antecipação do horário de pico devido ao caos que a cidade vive desde a última sexta-feira está provocando um congestionamento de 158 quilômetros em São Paulo, muito acima da média para o horário, que é de 41 quilômetros, segundo a Companhia de Engenharia de Trânsito (CET). ComércioO clima de terror fez parte do comércio fechar as portas mais cedo nesta segunda-feira. Quinze shoppings da Grande São Paulo anunciaram que fecharão suas portas até as 18 horas. A lista inclui West Plaza, ABC Shopping, Central Plaza, Interlagos, Continental, Market Place, Iguatemi, ViLla Lobos, Center Light, Paulista, Higienópolis, Center Lapa, Center Norte, Lar Center, Eldorado, Anália Franco e Morumbi.Na rua Teodoro Sampaio, em Pinheiro, zona oeste, tradicional de comércio do bairro, quase todas as lojas foram fechadas por volta das 14h40, com funcionários e clientes em pânico se recusando em ir para a rua. Os lojistas da 25 de Março, no centro, a mais tradicional rua de comércio de São Paulo, também decidiram fechar as portas, com medo de ataques liderados pela facção criminosa PCC. Segundo a Associação dos Lojistas da 25 de Março (Univinco), o objetivo é liberar os funcionários mais cedo e evitar problemas na volta para casa.Na Oscar Freire e Augusta, na zona sul, boa parte das lojas fechou antes do horário normal e o clima é de medo entre os comerciantes. Dona da Renommé Bolsas e Acessórios, na Augusta, Patrícia Rosa do Vale liberou seus seis funcionários. "Vi tudo em volta fechado e não sou eu que vou ficar aqui sozinha", diz Patrícia.Escolas e faculdadesMuitas escolas suspenderam as aulas desta segunda-feira. Nas escolas particulares, muitas fecharam ou recomendaram que os pais buscassem os filhos mais cedo. Já nas escolas estaduais as aulas não foram suspensas, garantiu a assessoria da Secretaria de Educação. Várias faculdades da capital paulista e da Grande São Paulo também cancelaram as aulas para garantir a segurança dos alunos.BancosAté o final da madrugada, a polícia havia registrado 11 ataques a agências bancárias na capital e em Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Não há dúvida para os policiais que todos são fruto da estratégia do Primeiro Comando da Capital (PCC) para desestabilizar a segurança no Estado.Ficou totalmente destruída a fachada da agência do Itaú, na Av. Francisco Morato, em Taboão da Serra. Os criminosos lançaram bomba de fabricação caseira e metralharam todas as vidraças do prédio. Próximo de outra agência do Itaú, na Rua Vicente Pinzon, em Vila Olímpia, na zona sul, o porteiro de um prédio viu três homens portando coquetéis molotov.Ao perceber que eram observados eles disparam em sua direção, mas ele se lançou ao chão e não foi atingido. Em seguida, os criminosos lançaram os coquetéis contra o prédio da agência bancária, que incendiou parcialmente.Na Rua São João Clímaco, também na zona sul, foram lançados coquetéis molotov em agências do Bradesco e da Caixa Econômica Federal. E na travessa, Rua São Silvério, o ataque foi a uma agência do Banco do Brasil. Próximo ao número 3.000 da Estrada de Itapecerica, na zona sul, foram atacadas outras agências do Itaú e da Caixa Econômica Federal.Na Avenida Nazaré, 1500, no bairro do Ipiranga, zona sul, um coquetel molotov foi lançado contra o prédio de uma agência do Unibanco, mas o fogo foi apagado pelo segurança que estava no local.Perto dali, na Rua Bom Pastor, os marginais bombardearam a entrada do Banco do Brasil. Outra agência do mesmo banco, na zona leste, à Av. Campanella, em Cidade A.E.Carvalho, foi metralhada pelo marginais. O 11º ataque aconteceu no bairro de Campo Limpo, onde o alvo foi uma agência do HSBC.Ataques e rebeliõesDesde a noite de sexta-feira, quando começou a onda de violência, pelo menos 81 pessoas morreram em cerca de 180 ataques, segundo balaço divulgado pela Secretaria de Segurança Pública. Destes ataques, 56 foram a ônibus e 8 a bancos apenas na capital. Noventa e um suspeitos foram presos e 38 foram mortos. Quatro cidadãos comuns morreram, assim como 37 policiais civis, militares e agentes penitenciários. O número de feridos chega a 49, entre policiais, agentes penitenciários e civis (15) e 104 armas foram apreendidas. As rebeliões de presos continuam em pelo menos 17 prisões, com cerca de 65 reféns, segundo o último boletim da Secretaria de Administração Penitenciária do Estado, divulgado às 15h30.No final tarde desta segunda-feira, a rebelião nas quatro unidades do Complexo Penitenciário Campinas-Hortolândia foi controlada. Pela manhã, já havia sinais de acordo com os detentos, quando cerca de 300 familiares que estavam junto com os presos começaram a ser liberados.

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