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São Paulo precisa recuperar sua auto-estima

Três respeitados arquitetos estrangeiros viveram no início da tarde de hoje um batismo de fogo defronte a um dos mais complexos desafios urbanísticos do mundo: passearam pelo centro de São Paulo durante cerca de duas horas, passando pela Estação da Luz, Pinacoteca do Estado, Largo do Paiçandu e o antigo Cine Marrocos.Durante a "expedição" à selva urbana, os três urbanistas, que encabeçaram projetos bem-sucedidos em suas cidades de origem, eram sabatinados por jornalistas. Eles eram o espanhol Josep María Botey y Gomez, responsável pelo projeto de restauração de edifícios históricos de Barcelona, como a famosa Casa Battló, de Gaudí; o cubano Rafael Rojas Hurtado de Mendonza, diretor do Plano Mestre de restauração de Havana Velha; e o argentino Alfredo Garay, ex-secretário de Planejamento Urbano de Buenos Aires e um dos responsáveis pela recuperação de Puerto Madero, na zona portuária do Rio da Prata, na capital argentina.Eles estão em São Paulo participando de seminário de recuperação do patrimônio cultural, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura. Foram ao centro a convite do secretário Marcos Mendonça, que os acompanhava no passeio.Botey e Garay são velhos conhecidos dos brasileiros, e sua experiência urbanística têm longo diálogo com o País. O cubano Mendonza só tinha estado no Rio, há quatro anos. "Não faz 24 horas que cheguei, e achei essa cidade muito interessante", afirmou, encantado, cercado de camelôs no Largo do Paiçandu - entre eles, um vendedor de ervas que vendia folhas de babosa a R$ 1,00; homens-sanduíche anunciando compra de telefones celulares; e três músicos peruanos vendendo CDs de música andina a R$ 15,00.Havana VelhaMendonza disse que São Paulo merece uma releitura atenta, por causa de sua diversidade social e arquitetônica. "À noite, caminhando, me lembrou Nova York", disse. Ele está à frente de um projeto que recuperou 5 mil edifícios históricos de Havana Velha e, o que é mais importante, deu-lhes autonomia financeira."O fato de o projeto ser auto-financiado é a chave de todo o estudo", disse. Segundo Mendonza, Havana Velha faturou US$ 70 milhões com o projeto em um ano, explorando a rede hoteleira, de restaurantes e imóveis da região. Sem depender de recursos públicos - nem do Estado -, o programa revitalizou a área."A cidade é resultado de milhões de intervenções em pequena escala, e o Estado não tem como fazer uma intervenção de efeito equivalente", afirma o argentino Alfredo Garay. ?Então, a mudança deve ser inteligente o suficiente para convencer as pessoas a produzir tendências". O problema, adverte, é como descobrir esses disparadores de tendências. Essa é a questão crucial.Garay coordenou a transformação da deteriorada região de Puerto Madero, em Buenos Aires. Segundo ele, um problema adicional da recuperação de uma área é não deixar que a "estética dominante" defina o projeto. "O interesse privado gera tendências dentro do mercado, subordinando a estética à economia".Nenhum dos três urbanistas tem sugestões específicas para dar a uma cidade que tenta se refazer a partir do seu centro, com um corredor de restauros de prédios históricos e "âncoras" culturais - caso da Sala São Paulo, Estação da Luz, Pinacoteca, prédio antigo do Dops, Correios, Igreja de São Cristóvão, Sé.Auto-estimaMas as opiniões convergem num ponto: é preciso recuperar a auto-estima da cidade. Para o espanhol Botey y Gomez, São Paulo deve buscar sua essência. "Barcelona não sofre mudanças drásticas e predatórias porque tem um centro espiritual", diz. "Pode-se mudar os centros de interesse, mas o centro espiritual não se pode tocar".Segundo Gomez, se não se destaca o elemento humano, "não há cultura, nem patrimônio". É preciso melhorar as condições de moradia da população, acrescenta o cubano Mendonza. "As pessoas precisam ter orgulho de sua cidade, essa é a chave", conclui o argentino Garay.

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