São Paulo quer ´tombar´ o código genético paulistano

Canções e festas típicas da capital paulista devem se tornar patrimônio imaterial

Agencia Estado

21 de junho de 2007 | 13h03

"Onde é que mora a amizade, onde é que mora a alegria? No Largo de São Francisco, na Velha Academia". Não se sabe quando exatamente os alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no centro de São Paulo, que completa 180 anos em agosto, começaram a fazer e cantar trovas como essa. Mas não há quem já não tenha pelo menos ouvido uma das quadrinhas de versos nos corredores e festas das Arcadas.Do outro lado da cidade, precisamente nas imediações da Igreja de São Genaro, na Mooca, zona leste, os cantos são outros: música italiana acompanha as milhares de pizzas a napolitana entre outros pratos que fazem todos os anos, durante 13 dias de setembro, a festa de São Genaro, padroeiro de Nápoli, na Itália, e do bairro.Os dois eventos tão distintos são os primeiros na fila de registro de patrimônio imaterial de São Paulo, cujo programa de proteção e conservação foi instituído pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) no último dia 21 de maio, a partir de projeto do vereador Chico Macena (PT).O prefeito promulgou a lei que institui o Programa Permanente de Proteção e Conservação do Patrimônio Imaterial do Município, que vai conservar aquilo que pode ser entendido como uma espécie de código genético de uma comunidade. A Lei nº 14.406 instituiu o Programa Permanente de Proteção e Conservação do Patrimônio Imaterial do Município de São Paulo. A lei poderá promover o reconhecimento de áreas como o Bom Retiro e toda a peculiar cultura que lá se desenvolveu como patrimônio imaterial da cidade de São Paulo. Entende-se por patrimônio cultural o conjunto de aspectos físicos, representados por monumentos, sítios históricos e paisagens culturais. E mais. Aquele que carrega muitas peculiaridades nas tradições, no folclore, nos saberes, nas línguas, nas festas e em diversos outros aspectos, manifestados pelo povo. É uma bagagem intangível da herança cultural de uma comunidade, transmitida oral, gestualmente, ou por escrita, que constitui o patrimônio cultural imaterial. Várias formas de patrimônioNa cidade, o patrimônio imaterial pode vir a ser representado (caso sejam estudados e aprovados) por festas tradicionais, como a de Nossa Senhora Achiropita, realizada no Bixiga, pela lavagem das escadarias (como a registrada no mesmo bairro, que liga a rua Treze de Maio à rua dos Ingleses), e até mesmo pelo Bauru, tradicional sanduíche degustado desde 1934, segundo constam de registros da própria lanchonete onde foi criado. Os bens imateriais só virão a ser inscritos nos livros de registro depois de identificados, avaliados e aprovados pela Secretaria Municipal de Cultura, por intermédio do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo (Conpresp). Pela lei, caberá à administração municipal conhecer, identificar, inventariar e registrar expressões culturais da cidade como bens do Patrimônio de Natureza Imaterial, bem como apoiar e fomentar os Bens já registrados, criando condições para a transmissão dos conhecimentos a eles relacionados. Patrimônio Imaterial nacionalUm dos exemplos do que pode ser inserido no contexto da nova lei é o estudo que está sendo realizado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com o título Multiculturalismo em situações urbanas complexas, que pretende identificar a região do Bom Retiro como potencial patrimônio imaterial. De acordo com Victor Hugo Mori, superintendente regional do Iphan, este é um estudo diferenciado, que avalia a área urbana com todas as suas complexidades. "No projeto do Bom Retiro está sendo estudada a origem do bairro, que mescla culturas de várias etnias. Essa avaliação cria um bairro que pode ter uma caracterização histórica, que está sendo estudada por um grupo formado por antropólogos, sociólogos, historiadores e até arquitetos", explica. O bairro do Bom Retiro guarda marcas culturais bastante diferenciadas e complexas, como a movimentação comercial da rua José Paulino e todo o seu entorno, os restaurantes de diversas especialidades, os letreiros instalados em sinagogas e os pontos comerciais que denotam a cultura dos imigrantes ali instalados. Os primeiros registros de Patrimônio Imaterial brasileiro foram feitos a partir de 2002. São eles: Arte Kusiwa dos Índios Wajãpi; Ofício das Paneleiras de Goiabeiras; Samba de Roda no Recôncavo Baiano; Círio de Nossa Senhora de Nazaré; Ofício das Baianas de Acarajé; Viola-de-cocho, o Jongo no Sudeste e, mais recentemente, o Frevo de Pernambuco.

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