Sapo de fora

Não há nada que se diga sobre a maneira de o PT se relacionar com seus aliados que o PMDB não esteja cansado de saber. Adeptos tardios da política de alianças - só aderiram mesmo depois de Lula perder três eleições presidenciais -, os petistas têm exata noção de ocupação de espaço e executam-na com rigor.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2010 | 00h00

Essa história foi contada ao PMDB por Luiz Inácio da Silva em 1989, quando passou ao segundo turno contra Fernando Collor e recusou a oferta de apoio de Ulysses Guimarães.

Arrependeu-se publicamente, tempos depois. No entanto, repetiu a narrativa quando eleito pela primeira vez, em 2002, e desarmou na última hora o acordo feito por José Dirceu para a entrada do PMDB no governo em postos de destaque junto com a banda que havia apoiado o PSDB na eleição, Michel Temer incluído entre os governistas recém-convertidos.

Se o PMDB nutrisse algum tipo de ilusão, teria abandonado qualquer uma na campanha da eleição de agora com a mesma história que, outra vez, o PT contou ao aliado na Bahia em Minas Gerais, para citar só dois dos casos mais ilustres.

Durante a campanha o candidato a vice e presidente do partido, Michel Temer, só apareceu na propaganda de televisão ao final e no primeiro turno ficou apartado, pelo menos de público.

O PMDB ganhou assento na coordenação do programa de governo, após reclamações, e agora Temer recebeu o posto de "coordenador-geral" da transição também após se queixar. Cargo sem significado, pois as tarefas importantes estão com os petistas.

Sabendo de tudo isso e mais um pouco, ainda assim o PMDB acha que vale o trabalho de brigar todos os dias para se afirmar, calar quando for conveniente, falar quando for necessário e usar o poderio do partido no Congresso quando for indispensável lembrar ao Planalto que sapo de fora também chia. E forte.

Alvíssaras. As primeiras entrevistas da presidente eleita não revelaram grande coisa em termos de conteúdo. Mas no tocante à forma, Dilma Rousseff mostrou-se racional, elegante, mentalmente mais desenvolta que na campanha e a léguas de distância do estilo populista do atual presidente.

Povo da floresta. Chama atenção no mapa dos resultados o desempenho do candidato José Serra no Acre: 68% contra 30% para Dilma.

No primeiro turno, Marina Silva ficou em terceiro lugar, contrastando com o sucesso no restante do País.

O senador Tião Viana (PT-AC) disse que o Estado foi "injusto" em relação a Lula.

Mas, segundo quem acompanha a política local, a hostilidade do Acre - governado há 12 anos por uma frente liderada pelo PT - não é contra Lula nem contra Dilma.

Seria contra o governo estadual. O jornalista acreano Altino Machado diz que as principais reclamações são de truculência contra a imprensa, excesso de propaganda enganosa e perseguições a adversários.

Transpartidária. O projeto prevê um viaduto, mas por enquanto figuras proeminentes do PSDB apenas se dedicam à construção de uma ponte de ligação com o PSB.

O partido aumentou em 100% os Estados que governa - eram três, agora são seis - e ficou com mais governadores que o PMDB (cinco).

Quando se fala no PSDB na possibilidade de Aécio Neves ser o candidato a presidente em 2014, ouve-se o conselho para que se preste atenção em Eduardo Campos, presidente do PSB e governador reeleito de Pernambuco.

A ideia não é de exclusão ou substituição. É de composição.

Calma no Brasil. Há no PT a interpretação de que o discurso de Serra pós-derrota foi agressivo por ter sido feito em tom de assembleia permanente, resumido na frase "a luta continua".

Melhor não puxar o assunto, já que Lula saiu da derrota de 1998 dizendo que a vitória de Fernando Henrique havia sido um "estelionato eleitoral".

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