Sargento da Casa Militar de Yeda bisbilhota 30 políticos

Cesar Carvalho, preso desde sexta, usava sua senha restrita para acessar sistema de consultas do Rio Grande do Sul; entre os espionados está ex-ministro da Justiça

Elder Ogliari, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2010 | 00h00

Pelo menos 30 pessoas tiveram seus dados acessados indevidamente pelo sargento Cesar Rodrigues de Carvalho, lotado até há poucos dias na Casa Militar da governadora Yeda Crusius (PSDB) e preso preventivamente desde sexta-feira. A relação foi divulgada ontem pelo promotor Amilcar Fagundes Freitas Macedo.

Ele é o coordenador da Operação Agregação, que investigou supostas extorsões que o militar teria praticado contra donos de caça-níqueis em Canoas, região metropolitana de Porto Alegre.

A força-tarefa, integrada também pelo Núcleo de Inteligência do Ministério Público e pelo Comando de Policiamento Metropolitana, descobriu que o sargento usava sua senha restrita para acessar dados do Sistema de Consultas Integradas do Estado com fins diferentes da função de proteger a segurança da governadora e de sua família.

Entre os bisbilhotados estão o ex-ministro da Justiça e atual candidato ao governo do Estado, Tarso Genro, outros dois políticos do PT, o senador Sérgio Zambiasi e mais quatro filiados ao PTB. Ainda estão na relação quatro delegados de polícia e quatro oficiais da Brigada Militar, cinco advogados, quatro jornalistas, empresários e assessores do governo do Rio Grande do Sul.

Como a senha "master" permitia, o sargento também acessava informações sobre investigações que poderiam ter como alvo ele mesmo, a governadora e funcionários próximos a Yeda, como o ex-chefe de gabinete Ricardo Lied e as assessoras Walna Vilarins e Sandra Terra.

O que mais chamou a atenção da força-tarefa foram acessos a informações e fotografias de crianças, filhas de deputados e de uma desembargadora, que tiveram seus nomes preservados. "Que tipo de insegurança uma criança poderia causar à governadora?", questiona o promotor.

Ele considera que acessos que não tiveram a finalidade de Estado, como busca de réus ou fugitivos, violaram dados sigilosos. O promotor diz que só a sequência da investigação vai revelar quais as intenções que o sargento tinha e que uso fazia ou faria dos dados. Não estão descartadas hipóteses como busca de motivos para chantagem ou pressão sobre pessoas comuns ou autoridades para fins econômicos ou políticos. Macedo acredita que o militar não agia sozinho. "Acho que há uma cadeia de comando aí."

Reação. A divulgação da lista revoltou as vítimas da espionagem. O presidente da seccional gaúcha da Ordem dos Advogados do Brasil, Claudio Lamachia, pediu "rápido, objetivo e cabal esclarecimento por parte da Casa Civil de como se dá a violação de um sistema, capaz de devassar a vida das pessoas".

O PT emitiu nota para manifestar "indignação" pelo fato de "um servidor ligado ao gabinete da governadora utilizar-se de informações para investigar ilegalmente personalidades e entidades da sociedade gaúcha".

O PT destacou que em 2008 ocorreu episódio semelhante, quando um assessor do Palácio Piratini acessou dados de um candidato do partido. O presidente regional do PTB, Luiz Augusto Lara, um dos espionados, disse que o partido vai trabalhar para convocar o sargento a ir à Assembleia depor.A Brigada Militar anunciou que o inquérito tem prazo de 40 dias.

A governadora Yeda Crusius limitou-se a informar, pelo Twitter, que determinou à Brigada Militar e à Companhia de Processamento de Dados (Procergs) que incluam no software do Sistema Integrado de Consultas um mecanismo de contagem pela média de acessos para proteger o sistema.

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