Sargento diz que viu espancamento comandado por traficantes

Ele relatou ter procurado superior para dizer que o caso daria 'merda'; tenente não teria se importado

Marcelo Auler, O Estado de S. Paulo

04 de julho de 2008 | 16h11

Ao ser interrogado na tarde desta sexta-feira, 4, pelo juiz Marcelo Granado, da 7.ª Vara Federal Criminal do Rio, o sargento do Exército Renato Alves admitiu que, no momento em que saíam do Morro da Mineira, no sábado, dia 14 de junho, após a entrega de três moradores do Morro da Providência aos traficantes locais, ele viu um dos rapazes começar a ser espancado pelos meliantes.   O sargento procurou então seu colega de patente Maia, que tinha anteriormente conversado com os traficantes, recomendando: "pede para liberar os rapazes que estão sendo espancados". Ouviu do sargento que os jovens seriam liberados. Não satisfeitos, o sargento Alves procurou o tenente Vinícius Guidhetti, que comandava o grupo, a quem alertou: "Isto aqui vai dar merda. Vai dar merda". Em resposta, o tenente recomendou: "Caga, caga!". Questionado pelo juiz do 'grau da merda', o tenente explicou que, para os jovens, poderia significar a morte por espancamento.   Mesmo alegando que não sabia que estava indo para o Morro da Mineira, o sargento acabou admitindo que quando deixou o quartel no caminhão com os três jovens sabia que o tenente pretendia "aplicar-lhes um trote". A princípio o castigo seria escrever na testa dos rapazes a sigla CV e abandoná-los na rua para que voltassem a pé para a favela em que moravam.   O sargento, que também caiu em algumas contradições, narrou ao juiz ter tomado conhecimento 20 minutos antes do início do interrogatório, por intermédio de um outro sargento do Exército que mora no Morro da Providência, que os traficantes daquela comunidade, ligados ao Comando Vermelho, estariam oferecendo R$ 10 mil pelas cabeças dos 11 militares envolvidos na morte dos três jovens. Ele pediu para não ter sua imagem divulgada durante o depoimento. "Não sabia que estava indo para o Morro da Mineira. Estou preso há 18 dias e me preocupo com a família."   O juiz não mostrou-se muito convencido ao questionar porque os traficantes quereriam vingar a morte dos jovens. Granado também admitiu que entre os 11 militares pode ter algum "que entrou nessa história de gaiato", mas explicou ao sargento que a prisão de todos foi decretada por conta das contradições que eles têm caído. Ele recomendou, meio ironicamente: "É preferível dizer a verdade, mas se a verdade não for possível, que mentira seja pelo menos coerente".   Outro que caiu em contradições foi o soldado Júlio de Almeida Ré, que no caminhão cuidava da vigilância, de pé na boléia. Foi ele quem alertou para a presença de homens armados quando o caminhão entrou no Morro da Mineira. Sua principal incoerência foi alegar ter visto os jovens serem levados aos traficantes apenas pelo tenente, quando outros depoimentos apontam para a participação de mais militares na entrega dos rapazes aos criminosos. Um deles chegou a ser levado à força, segundo relato dos praças.   Para as procuradoras Patrícia Nuñez e Neide Cardoso de Oliveira, "as responsabilidades foram hierarquizadas" - alguns teriam tido participação menor no episódio. As procuradoras estão tentando chegar ao grau de envolvimento de cada um.   Atualizado às 20h10

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