Saúde vira arma de campanha na disputa entre PT e PSDB

Criadas no Rio e adotadas pelo governo federal, as UPAs são defendidas por Dilma; para rebater, Serra usa as AMEs de SP

Wilson Tosta, Clarissa Thomé / RIO, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

Vice-campeã entre seis motivos de insatisfação dos eleitores brasileiros, de acordo com a última pesquisa Ibope, a saúde virou tema de confronto de siglas-símbolo de programas para o setor, brandidas pelos presidenciáveis do PT e do PSDB nas primeiras semanas de campanha.

As Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) - que surgiram no Rio e foram adotadas pelo governo federal - viraram arma de campanha para a presidenciável petista Dilma Rousseff enfrentar os Ambulatórios Médicos de Especialidades (AME), implantados em São Paulo e defendidos pelo tucano José Serra. Depois que o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, reconheceu que, de 500 UPAs prometidas, só 200 ficarão prontas até o fim do ano, as siglas ganharam mais destaque no noticiário. O debate sobre o tema, porém, já fora iniciado.

"O atendimento fica mais ágil, pois, em vez de se deslocar para o hospital, o paciente já tem atendimento na própria UPA", elogiou Dilma no início de agosto, durante visita ao Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília. Duas semanas antes, em Paranavaí (PR), o tucano prometera criar, se eleito presidente, 154 AMEs. "Isso encurtará drasticamente o tempo de espera que hoje é de seis meses em média de uma consulta ou tratamento especializado."

São estruturas diferentes: as UPAs se dedicam ao primeiro atendimento de emergências mais simples, enquanto as AMEs fazem consultas e exames. A preocupação expressa pelos dois primeiros colocados na corrida presidencial tem raízes na opinião pública. De acordo com a pesquisa Ibope realizada entre os dias 2 e 5 de agosto, 30% dos eleitores avaliam que, nos dois anos anteriores à sondagem, os serviços de saúde pioraram um pouco ou muito. O índice perdeu apenas para segurança pública (35%), líder nas reclamações do eleitorado, e superou impostos (28%), educação pública (21%), oportunidades de emprego (16%) e poder de compra ou consumo (9%).

"A Dilma responde com a UPA ao que o Serra falou da AME", disse o vereador e médico Paulo Pinheiro (PPS). Apesar de aliado de Serra, ele tem críticas e elogios aos dois modelos - que, afirmou, são boas ferramentas, mas não podem substituir o sistema de saúde. O Rio tem 36 UPAs, cujo custeio mensal é de R$ 500 mil por unidade. A implantação sai a R$ 3,57 milhões cada, dos quais R$ 2,6 milhões são repassados pelo Ministério da Saúde. São Paulo tem 32 AMEs com custo mensal de R$ 870 mil por ambulatório.

Críticas. Para Pinheiro, as UPAs surgiram de promessa de campanha do governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) em 2006: os postos de saúde 24 horas. Nelas, há clínicos gerais, pediatras, pessoal de apoio e equipamentos. "Se moro em uma favela e meu irmão tem uma crise convulsiva, eu corro com ele para a UPA, onde lhe dão medicação. Acabou a crise, e agora? Mandam para casa. Mas ele pode ter tumor cerebral ou epilepsia. A UPA engana", disse o vereador, para quem os hospitais tradicionais "estão em petição de miséria". Ele também criticou a contratação de médicos sem concurso.

"Se alguém sofrer um acidente na Avenida Brasil (que liga o Centro à zona oeste), terá de ser levado para Saracuruna, na Baixada Fluminense, ou para Niterói, porque não há neurocirurgião em nenhum dos cinco hospitais estaduais ao longo da via."

O secretário de Saúde do Rio, Sérgio Côrtes, rebate as críticas. Ele diz que nenhum dos cinco hospitais estaduais tinha plantões completos com neurocirurgiões. A gestão atual implantou o sistema de ponto biométrico - evitando faltas - e concentrou essas cirurgias em três hospitais - inclusive o Getúlio Vargas, na Avenida Brasil. O número de neurocirurgias subiu de 320, em 2006, para 1.501, em 2009.

De acordo com Côrtes, a UPA não foi criada para substituir a atenção básica, mas para desafogar emergências. "Segundo dados da Secretaria Municipal da Saúde, caiu em 40% a procura em grandes hospitais. Agora, é preciso organizar o sistema. Em cidades como Teresópolis e Nova Friburgo, com boa atenção básica, a UPA só atende pequenas urgências. No Rio é que acontece de o paciente achar que UPA substitui o posto, o saúde da família, a unidade básica de saúde."

O vereador Pinheiro faz restrições às AMEs, em razão da contratação de organizações sociais (privadas) para geri-las. O modelo já funciona no Rio, no Programa Saúde da Família, e deu margem a contratação de instituições com problemas com a Justiça. A Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo ressaltou que o modelo de gestão criado no Estado foi copiado por 71 municípios, 14 Estados e inspirou o Ministério da Saúde. "Os hospitais não fazem licitação para comprar insumos ou medicamentos, mas adotam rígidos regulamentos de compras. Não realizam concurso público e sim seleção dos mais capazes", disse em nota.

Comparação

Sistema de saúde do Rio virou arma de campanha da petista

Dilma Rousseff para enfrentar as AMEs do governo paulista

36 Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs), com custo de R$ 500 mil cada por mês, funcionam

atualmente no Rio

32 Ambulatórios Médicos de

Especialidades (AME), com custo de R$ 870 mil mensal, funcionam atualmente em São Paulo

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