Se a canoa não virar... Olê, olê, olá... Eu chego lá

Island Escape e Bar Brahma se juntam para um cruzeiro de carnaval

Viviane Kulczynski, O Estadao de S.Paulo

21 Fevereiro 2009 | 00h00

Sexta-feira, 13. Porto de Santos. Na água, o navio britânico Island Escape, de bandeira das Bahamas, famoso pelas viagens temáticas desta temporada. A bordo, gente de todo tipo: bebês e beberrões, casais e caçadores de aventuras, amadores e profissionais. O tema da vez é carnaval, amparado na fama do Bar Brahma - que há anos mantém um camarote disputados no Anhembi. A viagem é um indo e vindo, com escala em Búzios. E uma rápida manobra na Baía de Guanabara.A atração da esquina mais famosa do País é reproduzida, em três dias e três noites, num gigante de 40 toneladas, para pouco menos de 1.700 passageiros. "Couvert artístico": pacote a partir de cinco vezes de US$ 77,80. Em troca: hospedagem (nesse preço, uma cabine categoria "p", mais para porão que deck 3), refeições livres, tradicional feijoada do bar regada a chope e shows com Banda Bar Brahma, Naninha & Banda Nova Morada, Royce do Cavaco, Joe Roberts, Carolina Soares e as estrelas: Demônios da Garoa e Jair Rodrigues. Mas um cruzeiro carnavalesco é mais que ziriguidum. Quem é doente do pé aproveita, mesmo assim. Há lugar sem cuíca nem pandeiro, surdo nem viola. Já o bom sujeito... Ah, esse se farta de alegria, de bebida e de suor.Segunda-feira, 16. Terra firme de novo (para alguns ela ainda balança). Alguns vão para mais um dia de trabalho. Outros devem só se recuperar. Antes da despedida, ainda se ouve: "Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mãããão." De resto, só lembranças:A minha alegria Atravessou o mar E ancorou na passarelaFez um desembarque fascinanteNo maior show da terra(?É Hoje?, Didi e Mestrinho, União da Ilha, 1982) Jovens, bonitos e simpáticos, eles estão num canto mal iluminado, perto das caixas de som, esperando pela música. Ela de calça justa, baby look e salto. Ele de calça jeans, camiseta e sapato confortável. Que chapéu é acessório para noite mais boêmia, a dos Demônios da Garoa. E lá vem o som. Naninha e sua turma atacam num samba bom. E eles disparam passos inacreditáveis, entortando pernas que tentam copiá-los. Cambada de invejosos, os que olham e não acreditam no que veem. "Devem ser profissionais", assopra um despeitado. Ela tem 33 anos e é bancária. Ele, 36, trabalha com transportes. Vivem em São Bernardo, no ABC paulista. Há dez anos, por coincidência, fizeram aulas de dança de salão. Eram então dois jovens com destinos que pareciam dançar em ritmos diferentes. Ele era casado. Ela tinha namorado. Não se conheciam, não tinham amigos em comum, não frequentavam os mesmos lugares. Ela já sabia as técnicas do requebrado. Ele era tão duro na dança que o professor lhe sugeriu sutilmente que seria mais fácil pular do 3º andar a conseguir se soltar. Tomando distância cautelar da janela, deu um baile no instrutor. Tanto fez que conseguiu. Acertar o passo e a vida.Relacionamentos desfeitos, estão casados a uma dupla de anos. Na cerimônia do "sim", o vestidão da noiva encurtou lá pelas tantas. E a valsa virou uma inusitada gafieira. Desde então, eles vêm rodopiando onde conseguem, quando podem. Não mais nas aulas, que os dois pararam de frequentar. Ao filho, do primeiro casamento, ele quer ensinar alguns passos, "para desendurecer o moleque". E antes que a conversa se estenda, ela bate o pé no ritmo que se ouve ao fundo e estica os braços. É a senha. Lá vem outra música.E deixa a vida me levar(Vida leva eu!)...Sou feliz e agradeçoPor tudo que Deus me deu(Zeca Pagodinho, 2002)Elza nasceu em 7 de fevereiro de 1925. Teve sete filhos (três já faleceram), não desafina nem perde o rebolado. Viu muitos e muitos carnavais. Aos 84 anos, saia rodada, camisa bem passada e sapatinho baixo, bate palmas, mexe o corpo, distribui sorrisos e pisca os olhos já meio opacos por detrás de lentes grossas. Percebe que, sem querer, virou atração. Mas, espere, minha filha, é o Jair Rodrigues no palco, ela aponta. Sim, ela caprichou no penteado para ver o bamba cantar e pular e rir às pampas. São dois incansáveis. "Quantos anos ela tem?" Quem responde uma dezena de vezes é uma das duas filhas que lhe acompanham na viagem. Ninguém fica impassível diante da resposta. Se encantam com a senhora que se deixa levar no embalo da música, que não se senta nenhuma vez ao longo de uma hora e meia de show e ainda recebe abraços e beijos carinhosos. A tripulação lhe cumprimenta com reverência e tira fotos e chama a família toda pelo nome. É uma gente especial. Seu neto é do staff. É um dos animadores do navio. Se a disposição está no sangue? Regis tem dois dias para provar a quem puxou. Ah, foi à Dona Elza, sem dúvida. Ela ainda repete a hora e meia de pé na apresentação dos Demônios da Garoa, duas noites depois. E, dessa vez, quase grudada no palco.Chegou a turma do funilTodo mundo bebeMas ninguém dorme no ponto...Aonde houver garrafa, aonde houver barrilPresente está a turma do funil(?Turma do Funil?, Mirabeau, Milton de Oliveira e Urgel de Castro, 1956)Família dificilmente rima com folia. Mas a trupe longe... Isso bem que dá samba. Melhor: balada-fim-de-férias. Vinte meninos e meninas paulistanos, simplesmente amigos ou amigos dos amigos ou amigos dos amigos dos amigos, não dormem no ponto. Embarcam para beber, cair e levantar uma porção de vezes. Champanhe, cerveja, vodca com suco de frutas, energético, gelo, muito gelo. Tudo junto, tudo separado. Haja resistência. Quem não resiste, culpa o balancinho nana-neném da embarcação. E dê-lhe passar mal. Para driblar o calor da empolgação etílica, os rapazes tratam de montar o Cordão dos Peladões. Fortes e bronzeados, ao ar livre ou no frio de lascar das áreas fechadas, exibem as barrigas de tanquinho, os músculos talhados na academia, e as respectivas marcas das cuecas - que é para isso que serve abolir os cintos. Elas são a própria Chiquita Bacana, com e sem casca de banana nanica. Abusam de beijos e amassos, que, afinal, ninguém é de ferro - só as cadeiras nada ergonômicas da danceteria, usadas sem parcimônia pela molecada. Eles com elas e, sobretudo, elas com elas, sempre para os cliques das pragas digitais. Na boate do deck 12, com isolamento acústico capaz de não permitir que o samba se misture ao bate-estaca, protagonizam festas quase particulares, com os sugestivos nomes de Singles Party e Ibiza Night. As caixas de som viram palco para os gogo boys improvisados, que mais conferem a silhueta no vidro embaçado do que propriamente acompanham o tum-tum-tum-tum-tum da música. Não fosse a trabalheira, quem radiografa tudo - rosnando coisas incompreensíveis - é o barman, um figura de poucas palavras das Bahamas, naturalizado americano e agora íntimo da balada à brasileira. Linda morena, morenaMorena que me faz penarA lua cheia que tanto brilhaNão brilha tanto quanto o teu olhar(?Linda Morena?, de Lamartine Babo, 1932)Placar arrasador. Quatro passistas tomam uma "surra" de duas amadoras. No samba, no samba. As morenas esculturais, passageiras para lá de chamativas, abusam da sensualidade para atrair todos os olhares, flashes e câmeras em modo "filmagem". Cenário: beira da piscina, noite úmida de sábado. Na companhia de um oficial de folga, elas protagonizam um show à parte. Atiçadas pela massa - a trupe do Cordão dos Peladões e afins -, as gatas fazem uma dança sensual que beira - ops, escorrega, resvala - o sexual. E lá vêm palmas dos afoitos. Música alta, combustível pro showzinho que vem a seguir. Momento de euforia generalizada. Generalizada talvez não seja bem a palavra. Há casais constrangidos na plateia. Uma moça pena para conter o homem que trança as pernas e ameaça cair na piscina toda vez que se aproxima para vê-las em melhor ângulo. E lá vêm assobios. Rebolam daqui, posam dali, apuram o olhar fatal e fazem beicinho... Insinuam-se as garotas para o oficial, e ele para elas. O trio faz fuzarca e arranca mais gente da "arquibancada" para engrossar o caldo da curiosidade. Até onde eles vão? Uma delas tira a blusa, fica de shortinho e sutiã pretos. Ela posa de frente, de lado, de costas, vira novamente para a câmera e mostra a tatuagem que tem no braço: aponta para palavra em vermelho, com letras bem desenhadas e para a barriga durinha: é o nome da filha. E o ensaio fotográfico se completa, num momento para maiores de 18 anos.Taí eu fiz tudo pra você gostar de mimAi meu bem não faz assim comigo não Você tem, você tem que me dar seu coração(?Ta-Hí!?, de Joubert de Carvalho, 1930)Papinho mole. Sedutor. Olho no olho. Um drinque para aliviar o calor. É o ataque dos "Fardas Brancas" e das "Marias Escotilha". Ataque e defesa de times que só querem saber de ganhar. E a regra é clara: prorrogação é coisa rara. Mais fácil sair gol olímpico em final de campeonato. Nesse vale tudo, do lado dos oficiais, quem tem maior patente se sai melhor. Lá vai uma cantada básica de graduado: "Quer ver a cabine de comando?" Elas fazem marcação sob pressão - e se viram na língua que for preciso. Podem passar um show inteiro rebolando até prender a caça. Mas, bobeou, dançou. A fila anda. Às vezes, em questão de minutos. (Em tempo: há passeio guiado à cabine de comando, em grupo, à luz do dia, mediante o pagamento de US$ 10 per capita.) Olha, olha, olha, olha a água mineral, água mineral, água mineral!(?Água Mineral?, Carlinhos Brown)Os preços do navio, sabidamente, são em dólar e bem além do razoável. A título de curiosidade, uma latinha de cerveja custa US$ 5. Mas isso não preocupa uma passageira prevenidíssima, que viaja na companhia de duas amigonas. Ela enche a mala de garrafinhas de água e - pasmem - passa incólume pelo raio X do embarque. Vale lembrar que é proibido carregar bebidas na bagagem, diz na papelada que vem junto com o contrato do pacote turístico. Valeria a regra só para as alcoólicas? Melhor não testar, sob pena de ter tudo revistado por causa de meia dúzia de embalagens da mais pura H2O. Vergonha maior é admitir o delito e em seguida descobrir que no restaurante aberto 24 horas a água é gelada, insípida, inodora, incolor e... Gratuita.Quem não gosta de sambaBom sujeito não é É ruim da cabeça Ou doente do pé(?Samba da Minha Terra?, de Dorival Caymmi, 1940)Epa, epa, epa. Gosto não se discute. Mas uma senhora com bastante laquê no cabelo, maquiagem carregada, vestido comportado e sandália anabela tomou, decididamente, o vapor errado: "Eu não gosto desta barulheira. Meu negócio é ópera", confessou, batendo em retirada para um salão sem foliões.

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