´Se ele matasse meu filho, me mataria´, diz mãe de Campinas

Aparentemente equilibrada, apesar de visivelmente emocionada, a atendente Mara Sílvia de Souza, 29 anos, concedeu entrevista coletiva, no início da tarde desta sexta-feira, 27, em Campinas. Após passar 56 dramáticas horas em refém de um assaltante, a mulher creditou ao equilíbrio, "que veio não sei de onde", a calma que manteve durante o período em que o assaltante Gleison Flávio de Salles permaneceu com ela e seus filhos em um quarto da casa da rua Cnêo Pompeu de Camargo, no Jardim Novo Campos Elíseos, periferia de Campinas. O seqüestro terminou às 20 horas de quinta-feira, quando o Grupo de Ações Táticas e Especiais invadiu a residência da família após ouvir um disparo feito por Gleison de Salles. O autor da mais longa negociação com reféns do Estado de São Paulo está preso no 2° Distrito Policial de Campinas e será levado para o complexo penitenciário Campinas-Hortolândia. Segundo a atendente, o momento mais difícil dos últimos três dias foi o desfecho do caso. O filho Vitor, 10 anos, já tinha sido entregue pelo seqüestrador e ela e outro filho, Thiago, 7 anos, seriam libertados, quando a polícia devolveu a energia elétrica à casa e Salles viu pela televisão que seu nome já estava sendo divulgado pela imprensa. "Ele ficou irritado. Abriu a janela, deu um tiro. Ligou o gás e deitou com meu filho no chão", disse Mara, chorando. O homem armado usou a criança como escudo, com a arma apontada para a sua cabeça, e ainda pediu para a atendente deitar sobre eles. "Se eu visse que ele ia puxar o gatilho eu ia puxar a arma para a minha cabeça. Se ele matasse meu filho, teria de matar a nós dois", afirmou. Mas a intenção do seqüestrador não era matar os reféns, contou a atendente. "Ele não nos maltratou. Só queria fugir, não queria voltar para a cadeia." O seqüestro começou na terça-feira. Mãe e três filhos almoçavam quando, por volta de meio-dia, ouviram barulhos. Eram os tiros que Salles trocou com um policial à paisana, na casa de um vizinho. "Saí pela porta da sala, numa varanda alta, para ver o que era. Quando vi ele estava dentro de casa. O mais velho (Vitor) correu para debaixo da cama. Ele ficou com a arma apontada para o Thiago e o Murilo. Uma vizinha deu dois telefonemas para eu fechar a casa, mas ele já estava lá", afirmou Mara. O filho caçula, Murilo, foi libertado na terça-feira mesmo, em troca de um colete à prova de balas. "Agradeci muito. O Murilo não ia ter paciência para ficar ali", afirmou a mãe. Durante os três dias, a família se alimentou basicamente de biscoitos. O homem que tinha passagem pela polícia por quatro homicídios brincou com as crianças. "Ele dava conselhos, bons conselhos. Para não seguir o caminho do mal, não responder para os pais", afirmou Mara. Segundo ela, Salles não teve muitas oportunidades de seguir o caminho do bem. Durante a entrevista coletiva, ela se dirigiu à mãe do rapaz. "Quero que a mãe dele saiba que ele em nenhum momento quis nos matar", afirmou. "Falo para ela porque ela é mãe e como mãe não quer que o filho siga o caminho ruim." Um cômodo, muitas ameaças Mara e os três filhos ficaram no quarto dos três meninos durante quase todo o tempo. Ficaram sem energia elétrica, mas na segunda noite, Sales permitiu que Mara fosse até a cozinha pegar água e ela voltou com velas, também permitidas. Mãe e filhos se alimentaram basicamente de biscoitos e água. Urinaram em garrafinhas de plástico ou nas roupas no primeiro dia. "Uma noite, não me lembro porque perdi a noção do tempo, Thiago pediu para comer sucrilhos. Ele deixou", disse a mãe. Aos poucos, Salles foi cedendo. Nos momentos de ira, Sales usava o botijão de gás e a arma para ameaçar as crianças. "Mas ele dizia que não ia fazer nada, só ameaçava para tentar coagir a polícia." Mara afirma que o seqüestrador criou um certo vínculo com as crianças. "É estranho, mas foi como se fosse uma certa amizade". O homem que tinha passagem pela polícia por quatro homicídios brincou com as crianças de jogo da velha, deu conselhos, conversou com os meninos e contou muita coisa de sua vida. "Ele dava conselhos, bons conselhos. Para não seguirem o caminho do mal, não responderem para os pais", afirmou Mara, a mulher que propôs ao seqüestrador ir embora como refém desde que ele libertasse os filhos. "Com certeza, eu não teria dúvida disso. Acho que qualquer mãe faria isso." O seqüestrador dormiu em alguns momentos. E Mara teve vontade de fugir. "Algumas vezes que eu vi que ele estava dormindo, pensei em fazer alguma coisa. Mas eu rezei e pensei: e se eu errar?" Segundo a atendente, Sales não teve muitas oportunidades de seguir o caminho do bem. Mara reclama que tem "o choro está engasgado". A voz embargada não disfarça isso. A calma toda da mulher vem "nem sei de onde", como ela mesma diz. Às vezes, ela atribui a paciência a algo divino, maior que ela, os filhos, o seqüestrador e toda a situação.

Agencia Estado,

27 Abril 2007 | 15h53

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