Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

‘Se está viva, quero saber. Se morreu, quero enterrar’, diz filha

Famílias alojadas em hotel ainda buscam amigos e familiares; comando delimita perímetros e diz que as buscas vão demorar dias

Bruno Ribeiro e Márcio Fernandes, O Estado de S.Paulo

09 Novembro 2015 | 03h00

MARIANA - Em Bento Rodrigues, distrito mais atingido pela tragédia de Mariana, o Corpo de Bombeiros montou um quartel-general de operações em duas casas que escaparam da tragédia da barragem. Segundo o comandante-geral da corporação, coronel Luiz Henrique Gualberto, não há prazo para o fim das buscas, que devem ainda durar dias.

Desde que se instalaram na região, as equipes de resgate têm feito buscas por delimitação de perímetros. Essa é uma forma de esquadrinhar todas as possibilidades de achar sobreviventes em cada metro quadrado. 

Na zona quente de operação, assim denominada pelo próprio resgate, só uma equipe especializada tem acesso. Com roupas de borracha, os profissionais fazem furos na lama para permitir que um cão farejador possa identificar o odor de pessoas. Ainda em Bento Rodrigues, um imóvel se transformou em um curral. 

Ali estão sendo deixados os animais que foram encontrados ainda vivos durante as buscas. Porcos, patos, um potro, cavalos e galinhas têm sido alimentados pelos agentes.

Hotel. Quem sobreviveu à enxurrada não consegue esquecer amigos e parentes desaparecidos. Dividindo um quarto coletivo em uma escola, que ocupa o prédio do Hotel Providência, um dos que mais receberam desabrigados, a dona de casa Marly de Fátima Felício Felipe, de 31 anos, aguarda aflita por notícias da mãe, Maria das Graças Celestino, de 64 anos, uma das 26 pessoas que constam na lista de desaparecidos. “Ela estava ficando surda”, relata.

Quando as barragens da empresa Samarco romperam, o marido de Marly, Francisco Felipe, de 46 anos, chegou a ver a lama vindo. “Tentaram avisar ela, gritaram. Mas não deu tempo”, diz Marly. Os instantes seguintes foram de pessoas correndo e gritando e crianças sendo jogadas em um caminhão. 

Mas o pior estava por vir. “Quando cheguei na Arena (ginásio onde foram prestados os primeiros atendimentos), só gritava pela minha mãe. Começaram a falar que tinham achado ela presa na cerca, no arame”, diz a filha, tratando os boatos como “uma tortura”. “Mas, de concreto, a gente não sabe nada, nada. O que foi feito (pela Defesa Civil) foi perguntar quantas pessoas tinham na minha família e se estava faltando alguém.”

Segundo Marly, Maria das Graças era viúva havia 17 anos. Quando o filho mais novo casou, ela passou a morar com a filha. “Acordava de manhã, ia para a casa dela cuidar dos cachorros, das galinhas, arrumar a casa e, à noite, voltava para a minha casa.” Na quarta noite após a tragédia, a filha se mostrava realista diante das chances de reencontrá-la. “Somos pobres, mas não somos indigentes. Se está viva, quero saber. Se está morta, quero achar e enterrar.” 

As memórias da mãe se confundem com as da rotina doméstica: “Tínhamos nosso próprio chão, era nosso”. “E as pessoas eram amigas, mais do que vizinhas. Não quero só uma casa. Quero que a Samarco nos coloque todos juntos, como era em Bento Rodrigues”, diz a moça, que agora se hospeda em um hotel com horário de visita para parentes e para refeições.

No alojamento, onde também estão o marido e os filhos, Marly tenta fazer com que as crianças brinquem. Ontem, saiu do hotel para almoçar na casa da prima. “Foi para distrair a cabeça, então fui. As meninas perguntam muito de casa. Já os parentes, que estão ligando, perguntam como estou, o que aconteceu com minha mãe. Não sei o que responder.”

Menina. A lista de desaparecidos inclui a menina Emanuely Vitória Isabel, de 5 anos, que se soltou da mão do pai enquanto tentavam escapar da enxurrada de lama que atingiu o distrito de Bento Rodrigues. A família, em desespero, chegou a colar cartazes informando sobre o desaparecimento da criança, pedindo ajuda em sua localização.

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