''Se você faz, é difícil evitar as próximas''

ENTREVISTA

Julia Duailibi, O Estado de S.Paulo

02 Agosto 2011 | 00h00

Menachem Hofnung, professor de Ciência Política

Estudioso das disputas intrapartidárias, o professor Menachem Hofnung, do Departamento de Ciência Política da Universidade Hebraica de Jerusalém, diz que os líderes partidários temem as prévias e, por isso, tentam evitá-las.

Nos seus estudos, o sr. diz que as campanhas intrapartidárias não são suficientemente regulamentadas. Por quê?

Essa é uma questão, principalmente na Europa. Em 2007, estive lecionando em Paris e havia primárias do Partido Socialista. Ninguém sabe quanto dinheiro os candidatos levantaram, qual foi o custo, quem os financiou e quais foram os acordos feitos em troca. E foi uma primária por todo o país, com milhões gastos pelos candidatos. Eu não sei muito sobre o Brasil, mas minha suspeita é que deve haver muito o que fazer nessa matéria.

O eleitor não deveria pressionar por um maior controle?

Minha preocupação é que as pessoas realmente não se importam. E, se elas não se importam, votam nos candidatos corruptos porque, ainda que saibam que são corruptos, acham que podem trazer resultados.

Democracias recentes, como a brasileira, são mais suscetíveis a manipulação de prévia?

Em geral, sim. Mas não posso dizer sobre cada país. O Brasil é um país grande e importante, mas não dá muita transparência. Então não estou muito por dentro do que passa no Brasil. Mas, pelos nossos estudos, países com democracias mais novas são mais suscetíveis a práticas corruptas de candidaturas.

As prévias não são comuns no Brasil. O PT, partido que está no poder, defendia o mecanismo, mas agora diz que a disputa pode levar a racha interno. O sr. concorda com essa tese?

É verdade, a campanha interna pode trazer danos ao partido. Geralmente, as eleições internas são realizadas um pouco antes das eleições gerais. Se há notícias de comportamento ruim ou falhas dos candidatos, isso pode diminuir a chance do partido de ganhar a eleição. Por isso os líderes partidários, se podem, tentam evitar as eleições intrapartidárias. O problema é que, às vezes, há uma pressão para que haja prévias. Elas chamam atenção para a disputa, apresentam o partido como aberto e democrático. Se você faz uma vez, é difícil evitar uma próxima. Há prós e contras: é democrático, mas também é aberto a manipulação.

Partidos no poder temem mais as prévias que os da oposição?

Sim, acredito que esse é o caso. Eles têm mais a perder. Na oposição, você tem que correr riscos. Mesmo se perde, especialmente se está patinando nas pesquisas, não perde muito. Mas, se você está no poder, tem muito mais a perder.

Que tipos de mecanismos de controle de prévias defende?

Primeiro, prestação total de contas. Depois, um comitê de monitoramento eficaz e um generoso financiamento público. As pessoas não gostam que o Estado gaste muito dinheiro com as eleições. Mas se o dinheiro vem do Estado, em geral diz respeito a você ter uma eleição mais limpa.

QUEM É

Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Hebraica de Jerusalém, Menachem Hofnung tem como área de estudo a democracia, o financiamento eleitoral e a disputa interna nos partidos. Entre os textos publicados, está Unaccounted Competition: The Finance of Intra-Party Elections, sobre financiamento de campanhas intrapartidárias.

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