Joel Silva/ Estadão
Joel Silva/ Estadão

Seca severa derruba turismo e pesca no interior de São Paulo e Minas

Oferta de peixe despenca e restaurantes vão buscar produto de outra região; MPF abriu inquérito para investigar se esvaziamento de represa está ligado à operação de hidrelétrica

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2021 | 15h01

SOROCABA - A seca histórica já faz pelo menos 53 cidades das regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste racionarem água. Além disso, o consumo de energia elétrica dispara, enquanto os níveis dos reservatórios não param de cair. A estiagem também tem prejudicado municípios do interior de Minas e São Paulo, que sofrem com esvaziamento de lagos e a morte de peixes. Segundo monitoramento do governo federal, o Brasil vive a pior seca dos últimos 91 anos.

O Rio Grande, que separa Minas e São Paulo, tem 12 hidrelétricas ao longo do seu curso e todas já sentem os efeitos da seca. O nível do Lago de Furnas, formado pela barragem desse grande rio, baixou tanto que uma ponte de concreto coberta por dez metros de água reapareceu na superfície. Em Alfenas (MG), os criadores de tilápias foram obrigados a transferir os tanques-rede para partes mais profundas. “A gente já reduziu a quantidade de peixe alojada, mas se continuar baixando, vamos parar. Só em casa são cinco pessoas que dependem disso”, disse o piscicultor Júlio César Vital. 

Na margem paulista do Rio Grande, o cenário chega a ser desolador. Alguns ancoradouros estão em ruínas e os barcos, avariados pelo tempo, têm o casco ancorado na terra seca. Os troncos secos, antes cobertos pelas águas, agora estão visíveis. Os pescadores Antônio Rodrigues dos Santos e a mulher Meriluci Nascimento dos Santos, que vivem da pesca, viram a quantidade diária de pescado cair de 50 para 10 quilos. “Vivemos do rio e não temos outro lugar para buscar o alimento”, disse Santos.

Em Icém, o reservatório da Usina de Marimbondo está com 10% de sua capacidade. Em 2020, nesta época, operava com 53%. Dono de um restaurante na Praia Mariana, à margem do lago, o empresário Luiz Fernando Neves, disse que há muito tempo não vê a represa tão baixa. “Nesta época, é normal baixar, mas nunca foi tanto assim. A pesca diminuiu e os turistas deram uma sumida. Estamos torcendo pela volta das chuvas”, disse. Com a pesca prejudicada, ele e outros donos de restaurantes trazem pescado de fora para manter o peixe no cardápio.

É o caso do empresário Manoel da Costa Braga, dono do restaurante Peixe Vivo, que fica abaixo do paredão da hidrelétrica. “Estamos aqui há 40 anos e nunca tinha visto situação de seca como esta, principalmente nesta época do ano. O peixe sumiu e temos de pegar pescado de outras regiões para manter nosso cardápio. Cerca de 80% do peixe que antes era pescado no Rio Grande está vindo de fora”, disse. A situação é pior justamente nos fins de semana, justamente quando aparecem os turistas. “Como a geração é menor, as hidrelétricas seguram água e o curso do rio quase seca”.

Cidades como Guaraci (PR), Ouroeste (SP) e Indiaporã (SP), que vivem do turismo e da pesca na Represa de Água Vermelha, também no Rio Grande, contabilizam prejuízos. “O rio está abaixo da média histórica e muita gente depende dele para a pesca e o turismo. O problema da seca não se resume ao rio. Já tivemos casos de poços subterrâneos usados para abastecimento doméstico que secaram”, disse o dirigente do departamento de meio ambiente de Indiaporã, Heidson Bruno Neves.

O nível baixo da represa Lapinha da Serra, em Santana do Riacho (MG), levou o Ministério Público Federal (MPF) a abrir inquérito para investigar se a queda está relacionada ao funcionamento da usina hidrelétrica Coronel Américo Teixeira. Em 2019, a operação da usina teria causado redução abrupta no nível, provocando mortandade de peixes.

A ação foi motivada pela Associação Comercial de Lapinha da Serra devido aos prejuízos para comerciantes e empresários, já que as atividades turísticas estão restritas. A Gênesis Energia, que administra a hidrelétrica, disse que mantém as regras operacionais autorizadas e que a oscilação no nível se deve à estiagem.

Avanço da estiagem também ameaça rios e peixes no Pantanal

No Pantanal, embora a maioria das hidrelétricas instaladas nos rios que irrigam a região seja do tipo fio de água, que não fazem retenção de volume, o nível baixo no reservatório da Usina Hidrelétrica do Manso, na Chapada dos Guimarães (MT), impacta diretamente o bioma pantaneiro. A barragem está em afluente do Rio Cuiabá que, por sua vez, deságua no Paraguai. “Como o nível do Rio Paraguai em Cáceres, no Alto Pantanal, está inferior ao nível do rio em Ladário, no Baixo Pantanal, não está vindo água do Mato Grosso”, disse o secretário de Meio Ambiente e Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso do Sul, Jaime Verruck.

Em 6 de julho, ao menos 40 toneladas de peixe morreram em tanques-redes instalados no reservatório da usina do Manso. Por causa da crise hídrica, o lago estava com pouca água e a usina operava com apenas 25% de sua capacidade. Houve registros de mortandades menores nos dias seguintes, com o avanço da seca e a baixa quantidade de água. A Secretaria do Meio Ambiente de Mato Grosso informou que a morte dos peixes aconteceu em criatório particular e, possivelmente, em decorrência de mudanças bruscas na temperatura na água, sem relação com a operação da usina.

É o segundo ano consecutivo em que o Paraguai, principal rio pantaneiro, apresenta nível de água muito abaixo da média. Com tendência de declínio no nível até o mês de outubro, quando termina o processo de vazante, a situação é crítica em todas as estações monitoradas pelo Serviço Geológico Brasileiro.

Segundo Verruck, por causa do nível baixo, os portos argentinos não têm capacidade para a entrada dos navios tipo panamax, que transportam até 80 mil toneladas de cargas. “Eles estão reduzindo a carga e já tem barcaças operam com 25% da capacidade." Isso se deve, diz ele, à retenção de vazão de reservatórios de usina, que estão fazendo retenção de água para produzir energia por orientação federal. "Temos consequência também para a biodiversidade, afetando a subida e reprodução dos peixes”, disse.

Outro impacto pode ser a morte de peixes em decorrência do fenômeno conhecido como ‘dequada’. Quando o nível do Rio Paraguai está muito baixo e ocorrem as chuvas, a matéria orgânica depositada no fundo do rio é revolvida, havendo redução do oxigênio dissolvido na água e aumento na concentração de dióxido de carbono. O fenômeno mata algumas espécies de peixes, como bagres, cascudos e tuviras que vivem no fundo do rio. Em fevereiro deste ano, houve mortandade relacionada ao fenômeno.

Ministério afirma discutir ações para gestão dos recursos hídricos

O Ministério de Minas e Energia (MME) informou que as instituições do setor trabalham para prover a segurança energética. A pasta destacou investimentos na diversificação da matriz, reduzindo a dependência da hidroeletricidade, dependente das chuvas. “Considerando que a questão hidrológica afeta outros usos dos recursos hídricos, assim como o meio ambiente, foi criada a Câmara de Regras Excepcionais de Gestão Hidroenergética (CREG), onde são discutidas as medidas e ações a serem tomadas para melhor gestão dos recursos hídricos”, disse, em nota.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) informou que enfrenta o período de escassez hídrica em sinergia com os demais setores e todas as ações excepcionais sugeridas ao CMSE seguem diagnósticos técnicos. Antes de serem adotadas, as regras são autorizadas pela CREG, presidida pela pasta de Minas e Energia, e composta por representantes dos ministérios do Meio Ambiente, Economia, Infraestrutura, Agricultura e Desenvolvimento Regional. “Além disso, o Ibama também atua na identificação de medidas mitigadoras junto aos agentes”, disse.

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