Secretaria quer recuperar cinemas

Projeto que será entregue a Kassab e Serra em junho propõe a reforma de seis salas no centro da cidade

Adriana Carranca, O Estadao de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 00h00

O cartaz anuncia: "Filme para adultos!" O título do único longa-metragem, exibido sem interrupções das 9 às 21 horas, todos os dias, é tão chulo que "não fica bem" colocá-lo no letreiro, diz a moça na recepção, vermelha de vergonha. Quem atravessa a catraca do Cine Dom José, no centro, paga os R$ 6 do ingresso sem olhar para os lados e se afunda em uma das 700 poltronas de couro vermelho da antiga sala de projeção. Ao público, de maioria masculina, não é exatamente o enredo o que interessa e ninguém se preocupa se o filme está no começo, meio ou fim.Mas esse entra e sai intenso durante as sessões deve acabar em breve. O proprietário do Dom José, Francisco Lucas - ou doutor Chiquinho, como é chamado -, tem em mãos um projeto para que o espaço para filmes pornôs volte a ser "um cinema de verdade", a exemplo do Cine Olido, com programação da Prefeitura, e o Cine Marabá, que reabre no dia 30 (mais informações no texto ao lado).Os filmes exibidos hoje no Dom José, sem roteiro, ficha técnica ou atores conhecidos, mas com longos close-ups e cenas repetidas ao extremo - embora mude a posição dos protagonistas -, serão, então, substituídos por blockbusters e clássicos. O projeto, que prevê escola de cinema e biblioteca, está sendo estudado pela Secretaria Municipal de Cultura, que pretende entregar ao prefeito Gilberto Kassab e ao governador José Serra, em junho, proposta para revitalizar e retomar a programação normal de seis cinemas do centro - Art Palácio, em processo de desapropriação pela Prefeitura, Marrocos, Ipiranga, Paissandu e Windsor, fechados, além do Dom José.Na proposta dos arquitetos da secretaria, o Ipiranga, projetado por Rino Levy (1901-1965), seria transformado em teatro. Do mesmo arquiteto, o Art Palácio, de 1936, que fica ao lado da Galeria do Rock, poderá abrigar a primeira Radio City Music Hall de São Paulo, segundo o secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil. Como na casa nova-iorquina, o local receberia grandes shows. "Os demais estão bem preservados e podem voltar a ser cinema", diz a arquiteta Lícia de Oliveira, do Departamento de Patrimônio Histórico (DPH). Donos dos cinemas Barão e Metrópole, no centro, também já se mostraram interessados em revitalizar seus espaços. Segundo o projeto apresentado ao DPH, o Metrópole seria transformado em uma casa de espetáculos. ?AGORA SAI??Para que a região que compreende as Avenidas São João e Ipiranga e o Largo Paiçandu volte a ser Cinelândia, apelido que recebeu por abrigar dezenas de cinemas nas décadas de 50 e 60, falta ainda a verba. E falta a articulação deste com outros prometidos planos de revitalização do centro, além de um reforço na segurança da região, para que as salas, renovadas, não fiquem às moscas. "Não adianta só abrir o cinema. Tem de trazer melhorias e aumentar a oferta cultural para criar um fluxo de pessoas que motive donos de restaurantes e bares a abrir à noite. É isso que eu espero há 20 anos para retomar a programação dos meus cinemas. Será que agora sai?", diz Chiquinho, que já foi sócio de mais de 50 salas e mantém as duas restantes, Dom José e Windsor, preservadas. "Só deixo isso aqui quando morrer."

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