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Secretário de administração de presídios pede demissão

Nagashi Furukawa acaba de deixar o cargo de secretário da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo. Abalado pela onda de ataques e rebeliões em presídios, deflagrada pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) no último dia 12, ele já havia decidido pedir demissão, como adiantou o Jornal da Tarde em reportagem exclusiva, publicada nesta sexta-feira, 26.Segundo a nota oficial divulgada pelo governo paulista, a demissão foi acertada durante audiência com o governador Cláudio Lembo realizada nesta manhã.Ainda segundo a nota, o Furukawa será substituído por Luiz Carlos Catirse, pedagogo, funcionário de carreira da própria secretaria. Catirse é atualmente coordenador de unidades prisionais do Vale do Paraíba e litoral. Ele se apresenta a Lembo às 14 horas desta sexta, no Palácio dos Bandeirantes.Carta de demissãoNa quinta-feira, 25, Furukawa enviou um mensageiro ao Palácio dos Bandeirantes com a missão de entregar ao governador Cláudio Lembo (PFL) sua carta de demissão. Duas fontes confirmaram ontem ao JT a disposição do secretário em desistir de administrar um dos setores mais problemáticos do Estado, com seus 144 presídios, mais de 100 mil condenados unidos em uma facção, o Primeiro Comando da Capital (PCC), que mostrou seu poder de força dias atrás, em uma série de atentados e rebeliões.MotivosMas o fator que mais pesou na decisão de Furukawa, segundo pessoas próximas a ele, teria sido a falta de sintonia entre ele e Saulo Abreu Filho, secretário da Segurança Pública. Com visões divergentes na condução das políticas de segurança pública e gestão do sistema carcerário, que deveriam se complementar para garantir a ordem e a paz no Estado, Furukawa teria se sentido magoado com algumas atitudes e palavras de Abreu Filho nos dias pós-guerra deflagrada pela organização criminosa.Na quinta-feira, 25, Furukawa desmarcou compromissos já agendados. Diretores de penitenciárias de todo o Estado haviam marcado para hoje um ato de apoio a Furukawa.CriseNas últimas duas semanas, as atenções da sociedade se voltaram para a crise da segurança no Estado de São Paulo, marcada pela série de ataques e rebeliões atribuídos ao PCC.Entre os dias 12 e 18 de maio, 293 ataques deixaram 125 mortos, sendo 31 policiais civis e militares, 3 guardas civis, 8 agentes penitenciários, 4 civis e 79 suspeitos. Além disso, a megarrebelião que atingiu 87 unidades prisionais do Estado, entre penitenciários, centros de detenção provisória e cadeias, deixou 18 detentos mortos.A ofensiva foi deflagrada pelo PCC depois que as autoridades transferiram seus líderes para a carceragem do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), em São Paulo, e cerca de 760 presos ligados à organização criminosa para a Penitenciária 2 de Presidente Venceslau. A transferência foi feita justamente porque o governo estadual descobriu que o PCC planejava uma megarrebelião para este final de semana, aproveitando o Dia das Mães.Dos 293 ataques, 82 foram de ônibus incendiados e de 17 agências bancárias e caixas eletrônicos destruídos. Os outros 136 ataques foram a carros e bases da polícia, entre outras instalações da segurança pública. A estação do metrô Arthur Alvim, na Capital, também foi alvo de ataque, assim como uma garagem de ônibus e um veículo da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Além disso, as casas de 56 policiais também foram atacadas. Cidade acuada pelo medoNa segunda-feira, dia 15, o medo das ações da organização criminosa provocou o caos na capital. Os ataques ao longo do dia provocaram a paralisação de grande parte do serviço de transporte público em várias regiões da cidade. O temor se estendeu ao comércio, que fechou as portas mais cedo. No meio da tarde, a cidade viveu um horário de pico antecipado, com milhões de pessoas tentando voltar para casa num volume jamais visto nem mesmo nos piores dias de trânsito. Os congestionamentos se estenderam por toda a cidade. Os ônibus que circulavam eram insuficientes para o número de pessoas e ficaram lotados. Táxis vazios viraram um artigo raro. Com a debandada, um toque de recolher informal, a cidade ficou deserta. Às 21 horas, o movimento de ruas e avenidas era o equivalente das madrugadas de clima frio.Mas, ainda na segunda-feira, o PCC determinou o fim das rebeliões nos presídios do Estado e a suspensão dos atentados a quartéis, delegacias policiais, fóruns, agências bancárias, ônibus e estações do metrô. A ordem teria sido dada após uma longa conversa, no domingo, entre o líder da facção, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, a advogada Iracema Vasciaveo, o corregedor da Administração Penitenciária, Antonio Ruiz Lopes, o delegado José Luiz Ramos Cavalcante e o coronel Ailton Araújo Brandão, chefe do Comando de Policiamento do Interior da região de Presidente Prudente. AcordoO governo nega que tenha havido acordo com Marcola. Mas detalhes da reunião foram confirmados pelo então secretário Furukawa. "Era para transmitir para pessoas fora daqui uma notícia que levaria ao fim dos atentados e rebeliões." A notícia que seria passada era a de que Marcola estava bem. A advogada, ligada à entidade Nova Ordem - que trabalha na ressocialização de detentos - também negou o acordo. "Foi uma demonstração de boa vontade (do governo)", disse, em referência ao atendimento rápido do seu pedido para ver Marcola e mais sete líderes do PCC - feito no sábado pela manhã. Iracema disse que pediu a visita atendendo a parentes dos presos. Furukawa autorizou o encontro. "Não fiz nada que envergonhe o povo de São Paulo", disse o ex-secretário, na semana passada, quando vazou a notícia do suposto acordo. Um preso como Marcola, internado no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) não pode receber visitas e a entrada do advogado - Iracema não é representante legal do líder do PCC - tem de ser marcada com até dez dias de antecedência. Na terça-feira, 16, o governador Claudio Lembro confirmou que autorizou a visita da advogada a Marcola, mas negou o acordo. "Eu autorizei a visita dela. Ela foi levada em um avião da Polícia Militar até o presídio de Presidente Bernardes, falou com seu cliente, que é esse senhor Marcola, e retornou. (...) Não houve acordo nenhum", disse Lembo.A ordem para o fim dos atentados foi propagada na manhã de segunda, por telefone celular, menos de 12 horas depois do encontro nas dependências do Centro de Readaptação Penitenciária (CRP) de Presidente Bernardes, onde Marcola está detido desde o fim da tarde de sábado, 13.O Diretor do Departamento Estadual de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), o delegado Godofredo Bittencourt, negou que a cúpula da Secretaria da Segurança Pública ou da Secretaria de Administração Penitenciária tenha negociado uma trégua com a liderança da facção. "Não tem negociação nenhuma com bandido", disse.Depoimentos secretosNa quarta-feira, 17, foi divulgada a informação de o ex-funcionário terceirizado da Câmara dos Deputados Arthur Vinicius Pilastre Silva, confessou ter recebido R$ 200,00 em troca de um CD contendo o depoimento secreto em que Godofredo Bittencourt antecipava à CPI do Tráfico das Armas a informação de que chefões do PCC seriam transferidos para presídios de segurança máxima no interior de São Paulo. Os advogados Sérgio Wesley da Cunha e Maria Cristina Rachado foram acusados de terem comprado a gravação para transmiti-la ao líder do PCC, Marcos Camacho, o Marcola. A CPI pediu à Justiça Federal a decretação da prisão preventiva dos dois advogados, mas ainda não houve resposta. Segundo autoridades policiais, a informação da transferência dos presos foi decisiva para a decisão de Marcola ordenar o início da série de atentados que aterrorizou São Paulo na semana passada.CPINesta quinta-feira, 25, Cunha, Maria Cristina e Silva passaram por uma acareação na CPI. Após o fim da sessão, o presidente da comissão, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), cobrou da Justiça Federal a prisão preventiva dos advogados. "Não temos dúvida do envolvimento dos dois com o crime organizado", afirmou.Durante a maior parte da acareação, os dois advogados se negaram a responder a perguntas, recorrendo ao direito de só falar na Justiça. Disseram, claramente, que as respostas poderiam incriminá-los. Deputados da comissão declararam que o depoimento de Arthur Vinicius foi o único que se manteve coerente, enquanto os dois advogados caíram, segundo os parlamentares, em inúmeras contradições e fizeram afirmações inconsistentes.Antes disso, Cunha foi preso por desacato a agente público, durante sua acareação com Silva. O advogado saiu da sala da CPI algemado. Durante a acareação, o deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), irritou-se com as negativas de Cunha em responder às perguntas e afirmou: "o senhor aprende rápido com a malandragem". E o advogado respondeu: "a gente aprende rápido aqui". Com isso, vários deputados da comissão argumentaram que o advogado havia cometido desacato e pediram sua prisão.Já a advogada Maria Cristina Rachado caiu em contradição. Ela que, no primeiro depoimento não falou em promessa ou cobrança de dinheiro pela gravação, acabou se contradizendo na quinta-feira, 25. "Ele (Artur) não queria receber dinheiro lá dentro (da loja)", afirmou a advogada. Em outro momento da acareação ela afirma que "ele (Artur) achou que eu tivesse mais dinheiro", sempre negando, porém, que tenha pago pela cópia da gravação. Os mortosEm meio a denúncias de execuções e de que inocentes estariam sendo mortos pela polícia na reação aos ataques, o Ministério Público Estadual deu 72 horas para que a polícia de São Paulo divulgasse a lista integral dos mortosNesta quinta-feira à noite, quatro horas antes de expirar o prazo, o diretor do Instituto Médico-Legal, Hideaki Kawata, entregou a um promotor do Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (Gecep) cópias dos laudos sobre os mortos a tiro que foram examinados na unidade central do IML, em Pinheiros, na zona oeste. A entrega ocorreu às 20 horas.Trata-se do mesmo material recolhido pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo e entregue na quarta, 24, ao Ministério Público Estadual (MPE). Portanto, faltam os laudos de mortes ocorridas em outras cidades do Estado. O MPE informou que não recebeu nenhum BO. Em todo caso, para a secretaria, apenas o prazo para a entrega dos laudos do IML venceu ontem, pois o instituto foi notificado da ordem do MPE antes das Polícias Militar e Civil. A primeira entregará os talões das ocorrências com mortes, enquanto a Civil mandará os BOs de todos os casos de morte na semana da guerra do PCC. Tudo isso, nesta sexta.A decisão do secretário da Segurança Saulo Abreu é mandar informações amplas de pelo menos 174 mortes. A justificativa é que o pedido de envio de documentos sobre os casos feito por Pinho foi muito vago. Assim, para evitar mal-entendidos, a secretaria optou por uma lista maior. Dessa forma, o MPE receberá os BOs de 79 pessoas mortas em tiroteio pela polícia, das 31 mortes feitas no mesmo período pela polícia sem que - segundo a secretaria - os casos estivessem ligados ao PCC, além de 18 casos de mortos em rebeliões. Por fim, a secretaria mandará os BOs dos 46 casos de agentes públicos e de civis mortos nos atentados. Além disso, Saulo vai mandar os laudos do IML que faltam.Texto atualizado às 12h23

Agencia Estado,

26 de maio de 2006 | 10h56

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