Secretário de saída não avisou nem assessores

Na última noite, deixou o governo rindo e fazendo piadas

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2009 | 00h00

Ronaldo Bretas Marzagão chegou mais cedo ontem à sede da Secretaria da Segurança. Foi ao seu gabinete às 7 horas arrumar gavetas e se despedir dos auxiliares. "Ele estava aliviado e me disse que era preciso saber a hora de sair", disse um deles. Sua queda ocorreu quando tentava mudar a estratégia de imagem. Marzagão se sentia desconfortável desde que foi surpreendido pelas acusações de venda de sentenças em processos administrativos para policiais corruptos e de cargos importantes na Polícia Civil que envolviam seu antigo homem de confiança e ex-secretário adjunto, Lauro Malheiros Neto.A última noite dele como secretário começou com uma ida discreta ao Palácio dos Bandeirantes. Marzagão conversou por 30 minutos com o governador José Serra. Depois foi ao gabinete do chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira Filho, onde permaneceu 20 minutos. Em seguida, voltou ao gabinete de Serra por mais 15 minutos. Saiu rindo e contando piadas. Foi para casa e dormiu. Até seus mais próximos auxiliares souberam do pedido de demissão somente pela publicação feita no Diário Oficial.Perseguido pelos boatos frequentes de demissão desde o fim de seu primeiro ano na pasta, em 2007, Marzagão havia tentado mudar sua imagem nos últimos três meses. No governo, havia quem, como o secretário Luiz Antônio Marrey (Justiça), acreditava que o problema de Marzagão era de "postura", que ele devia ter mais iniciativa e se mostrar mais em público. Avesso a entrevistas, o secretário passou a frequentar locais de crimes de repercussão. O primeiro foi em 19 de janeiro, quando foi a Americana acompanhar a apuração da morte de um casal e de suas duas filhas.Muito diferente de quando Marzagão evitava as entrevistas, como no dia em que policiais civis em greve e militares se enfrentaram na frente do Palácio dos Bandeirantes. A nova estratégia de responder a tudo ficou clara quando o Estado divulgou o DVD em que o advogado Celso Valente, primo e sócio de Malheiros Neto, supostamente revelava o esquema de venda de sentenças e de cargos. Pela primeira vez, Marzagão foi duro. Disse que estava impressionado com as acusações. Sabia, no entanto, que enquanto durasse a investigação ele "sangraria". "O Marzagão errou ao indicar seus auxiliares", afirmou um integrante importante do PSDB. A oposição, acredita, já se preparava para usá-lo como alvo nas eleições de 2010. Marzagão, então, se demitiu.

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