Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Secretário do ES promete 'radicalizar com quem quer radicalizar'

Segundo André Garcia, governo faz pente-fino nos 146 homicídios desde o início da paralisação dos PMs; há suspeita da participação de policiais em ao menos 30

Marcio Dolzan, Enviado especial de O Estado de S. Paulo

14 Fevereiro 2017 | 13h55

VITÓRIA - O governo do Espírito Santo afirmou que está fazendo um pente-fino nos 146 homicídios ocorridos no Estado desde o início da paralisação da Polícia Militar e de que há indícios da participação de policiais em parte deles. Segundo o secretário estadual de Segurança Pública, André Garcia, já há mais de 30 denúncias na ouvidoria nacional de Direitos Humanos sobre isso. Garcia também afirmou que há grupos "radicais" em meio ao movimento que participa do motim e prometeu que o governo vai "radicalizar com quem quer radicalizar".

As declarações foram dadas no fim da manhã desta terça-feira, 14, que marca o 11º dia de motim no Espírito Santo.

"Nós não temos nenhum embate com a Polícia Militar, pelo contrário. A PM faz parte do Estado, faz parte do governo. É uma instituição que nós temos o dever de preservar", declarou Garcia, em entrevista coletiva concedida em seu gabinete. "Mas temos, sim, neste movimento, um grupo radicalizado que tenta desesperadamente, com ameaças e atentados, mostrar à sociedade que o movimento ainda tem força."

O secretário afirmou que já há uma força-tarefa atuando exclusivamente em função disso. Ela é formada também por agentes federais. "Estamos fazendo um pente-fino em todos os homicídios. Já há mais de 30 denúncias na ouvidoria nacional de Direitos Humanos, em Brasília, de crimes praticados no Espírito Santo com suspeita da participação de policiais", declarou.

"Estamos entrando em contato com a ouvidoria porque queremos instruir da melhor forma possível nossos inquéritos. Todos esses homicídios serão investigados e, se houver a participação de militares, de milicianos - que é isso que está se formando neste Estado, milícias radicais -, elas serão combatidas", assegurou. "A segurança pública não pode ficar à mercê de grupos armados, organizados, que pleiteiam qualquer tipo de reivindicação."

Ainda segundo o secretário, "quem aposta em enfrentar a sociedade e o Estado, tem de ter uma resposta na lei". "Vamos restabelecer a ordem e enfrentar quem quer radicalizar. Vamos conversar com quem quer conversar."

Garcia também prometeu uma visita ao frei Pedro Engel, de 80 anos, que ficou com escoriações após ser rendido por assaltantes no Convento da Penha, na tarde desta segunda-feira, 13.

"Esse assalto cometido ontem, no Convento da Penha, também faz parte do nosso rol de investigações especiais", afirmou. "Estamos investigando essa ação suspeita com muito rigor."

Normalidade. A Grande Vitória teve uma manhã parecida com a de segunda-feira, com transito intenso e retomada gradativa do comércio e dos serviços. O transporte público está funcionado.

Algumas lojas, contudo, permanecem fechadas, principalmente nos bairros. Segundo a Polícia Militar, 1.900 PMs atenderam ao chamamento operacional no Estado até a manhã desta terça-feira. Desses, 700 atuam na Grande Vitória.

ENTENDA A CRISE NO ESPÍRITO SANTO

Familiares e amigos de policiais militares no Espírito Santo começaram, na noite de sexta-feira, 3, a fazer manifestações impedindo a saída das viaturas para as ruas e afetando a segurança dos municípios.  Sem reajuste há quatro anos, os PMs reivindicam aumento salarial e melhores condições de trabalho.

O motim dos policiais levou a uma onda de homicídios e ataques a lojas. Com medo, a população passou a evitar sair de casa e donos de estabelecimentos fecharam as portas. Os capixabas já estocam comida

Na segunda-feira, 6, a prefeitura de Vitória suspendeu o funcionamento das escolas municipais e de  unidades de saúde. 

Também na segunda, o governo federal autorizou o envio da Força Nacional e das Forças Armadas para reforçar o policiamento nas ruas de cidades do Espírito Santo. Apesar do reforço, o clima de tensão se manteve no Estado. 

A morte de um policial civil na noite de terça-feira, 7, motivou uma paralisação da categoria na quarta, agravando ainda mais a crise de segurança no Espírito Santo. 

Para tentar conter o motim, o governo criou na quarta-feira, 8, um comitê de negociação com representantes do movimento que impede a saída de policiais militares dos batalhões das principais cidades do Estado.

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