Secretário fiel conta que o chefe sempre teve ''tino para a política''

Honório Carneiro, 84 anos, auxiliar de Alencar há 46 anos, diz que o amigo era pragmático, e nunca extremista

Eduardo Kattah, O Estado de S.Paulo

31 Março 2011 | 00h00

BELO HORIZONTE

Honório J. Carneiro era subgerente da extinta Minas Caixa, em Ubá (MG), quando o dinâmico e jovem empresário José Alencar se elegeu presidente da Associação Comercial da cidade, em janeiro de 1965. Alencar havia se mudado para o município da Zona da Mata para assumir a direção da atacadista de tecidos União dos Cometas com a morte do irmão Geraldo, nos anos 1950. Logo após tomar posse na associação, o empresário iniciou a expansão dos negócios e levou Carneiro para trabalhar com ele.

Nos últimos 46 anos o ex-subgerente se firmou como um fiel secretário de Alencar, de quem gozou da intimidade e amizade. "A lição de vida que ele deu é de apego à disciplina e à ordem, à urgência. Sempre queria tudo para ontem. Era um autodidata de primeira categoria", relembra Carneiro, que ocupa a antessala do gabinete do ex-vice-presidente na sede da Coteminas, em Belo Horizonte.

O antigo assessor, hoje com 84 anos, começou a trabalhar com Alencar antes mesmo da fundação da Coteminas, em 1967. Quatro anos depois, foi convocado pelo chefe para integrar a equipe da indústria têxtil.

Na tarde de terça-feira, Carneiro foi informado por uma enfermeira da morte do ex-patrão quando se submetia a uma sessão de hemodiálise. Como sempre faz, às 7h30 de ontem ele já estava no 12.º andar do prédio localizado na zona sul de Belo Horizonte, sede da Coteminas.

Desde os tempos de Ubá, Carneiro identificou em Alencar o tino para a política. "Ele se revelava um grande líder, não só empresarial e social, mas também classista." Ao acompanhar os primeiros passos do ex-chefe na vida pública, ele não se surpreendeu quando o já senador por Minas aceitou o convite para formar chapa com Lula Silva na eleição presidencial de 2002.

Foi testemunha de encontros na Coteminas entre Alencar e o petista José Dirceu, principal incentivador da aliança que sairia vitoriosa das urnas. Em dezembro de 2000, foi homenageado durante a comemoração dos 50 anos de vida empresarial do ex-patrão - evento do qual participou Lula, levado à festa por Dirceu. A pomposa solenidade foi o passo inicial para o chamado acordo entre o capital e o trabalho, que ajudaria a aliviar as resistências do empresariado nacional em relação ao petista.

"Pela grande inteligência dele, Alencar viu que o caminho era o Lula. Tanto que ele saiu do PMDB para ingressar no PL para ficar mais à vontade. Era pragmático. Nunca foi extremista." Após quase cinco décadas de convívio, Carneiro acredita que o legado do ex-patrão foi levar para a vida pública o carisma que construiu como empresário.

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