Secretários autorizaram infiltração de presos

A cúpula das Secretarias da Administração Penitenciária e da Segurança Pública tinha conhecimento e participou do planejamento da operação - considerada ilegal pelo Ministério Público Estadual - em que morreu um detento retirado da prisão para se infiltrar em um grupo ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Além do preso, quatro integrantes da quadrilha morreram. Ocorrida em junho de 2001, essa ação, ao contrário do que se pensava, não foi feita pelo Grupo de Repressão e Análise dos Delitos de Intolerância (Gradi), mas por outro grupo até agora secreto da Polícia Militar, ligado ao Comando de Operações Especiais (COE), do 3.º Batalhão de Choque. Essa equipe foi montada por ordem do então comandante-geral, coronel Rui Cesar Melo, a pedido do secretário da Segurança Pública da época, Marco Vinício Petrelluzzi, sucedido na pasta por Saulo Abreu. O Gradi, acusado de montar uma armadilha para matar 12 suspeitos na Castelinho, era rival dessa equipe. Desta vez não é um preso que faz as revelações, mas o chefe da equipe do COE, o tenente Fabio Paganotto Carvalho. Além dos mortos na operação, dois suspeitos de integrar o PCC foram presos e acusados de tentar matar os policiais disfarçados de bandidos que acompanhavam o detento retirado da cadeia, Fernando Henrique Rodrigues Batista, o Chacal. Foi nesse processo que Paganotto depôs. Petrelluzzi disse que esteve com o tenente Paganotto. "Era sobre um caso de Avaré, que iam pedir autorização para um preso fazer um trabalho, mas eu não sabia que tipo." Petrelluzzi disse que isso era legal e nunca deu aval a nenhuma operação sem a devida autorização judicial. A decisão de montar a equipe foi tomada após o resgate de presos que deixou dois PMs mortos na Rodovia Castelo Branco, em 2001. "O então comandante-geral da PM me convocou e pediu para montar uma equipe. O secretário da Segurança Pública, que na época era Petrelluzzi, mandou levantar informações", diz o tenente. Ele conta que iniciou o levantamento por Avaré. Na cadeia dominada pelo PCC, havia presos que passavam informações ao diretor. Um desses era Chacal, que resolveu colaborar. Os policiais deram um telefone celular da PM para Chacal manter na cela. O aparelho servia para o preso fazer contatos - as ligações eram gravadas. Descobriu-se que um grupo da zona norte planejava seqüestrar os filhos do diretor da prisão e do capitão da PM de Avaré para trocá-los por líderes do PCC. O diretor da prisão levou a fita para o secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa. O tenente participou da reunião com Furukawa, na qual a fita foi ouvida. Dada a gravidade do caso, avisaram a Secretaria da Segurança, onde houve nova reunião. ´Problema meu´O tenente explicou que precisaria soltar Chacal para que ele os levasse até onde estava a quadrilha que planejava o resgate. "Foi exposto o problema e o secretário da Segurança disse: ´Esse problema é meu. Vou entrar em contato com o juiz-corregedor e eu vou conseguir a autorização para o preso acompanhar vocês´", relata o tenente. Petrelluzzi nega ter dito a frase. Chacal foi transferido de Avaré para o Centro de Observação Criminológica (COC), em São Paulo. Em 19 de junho de 2001, a então diretora da Coordenadoria das Unidades Prisionais da Grande São Paulo, Elizabeth Regina Duarte, fez o ofício 071/2001, pedindo ao juiz-corregedor Octavio Augusto Machado de Barros Filho "autorização para retirada do preso pelo Serviço Reservado da PM a fim de proceder diligências". O juiz deferiu. "Autorizo, com retorno no mesmo dia." Chacal morreu à tarde. A retirada de presos para infiltração e a morte de suspeitos levou o procurador-geral de Justiça, Luiz Antonio Marrey, a pedir abertura de inquérito para apurar a conduta do secretário da Segurança, Saulo Abreu, e dos juízes Barros Filho e Maurício Lemos Porto Alves.Leia mais?Deixar a polícia trabalhar é agir dentro da lei?, afirma Petrelluzzi Nos EUA, informantes recebem proteção

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