Secretários dos papas que serão canonizados falam sobre os pontífices

Peregrinos estrangeiros começaram a movimentar Praça de São Pedro e arredores do Vaticano para a canonização, neste domingo, de João XXIII e João Paulo II

José Maria Mayrink, Enviado Especial ao Vaticano

25 de abril de 2014 | 19h34

VATICANO - Dois cardeais que foram secretários particulares dos papas que serão canonizados neste domingo, 27 - d. Loris Capovilla, de João XXIII, e d. Stanislaw Dziwisz, de João Paulo II -, deram seu testemunho sobre a vida deles, em entrevista coletiva no Centro de Imprensa da Santa Sé, mostrando que os dois já eram santos antes de serem eleitos sucessores de São Pedro.

"Falo como um velho cansado e confuso, mas com a alegria e a profunda emoção de ver o papa Francisco canonizar Angelo Roncalli, de quem fui secretário por mais de dez anos, primeiro quando era o patriarca de Veneza e depois no Vaticano", disse Capovilla, de 98 anos. Residente em Sotto il Monte, no norte da Itália, onde João XXIII nasceu, Capovilla foi nomeado cardeal em fevereiro último.

Capovilla vai acompanhar a cerimônia pela televisão, porque a idade não lhe permite viajar. Ele participou da entrevista coleva por teleconferência. Enquanto os tradutores de inglês e espanhol resumiam o que havia falado, o cardeal se agitava em seu escritório, intrigado com a tecnologia da transmissão ao vivo do Centro Televisivo Vaticano. Reagia como uma criança, depois de afirmar que João XXIII foi um santo porque nunca deixou de ser criança.

 

O cardeal Dziwisz, hoje arcebispo de Cracóvia, que foi secretário de João Paulo II na Polônia e depois durante todo o tempo de seu pontificado, lembrou a vida de oração de Karol Wojtyla. "Ele rezava o tempo todo e tinha grande devoção a Nossa Senhora", disse o cardeal polonês. "Antes das audiências, rezava por quem ia encontrar e, depois das audiências, voltava a rezar pelas pessoas com as quais tinha encontrado",.revelou.

Com emoção, Dziwisz disse que estava na ambulância que socorreu João Paulo II, após o atentado de 13 de maio de 1981, na Praça de São Pedro. "O papa não sabia quem havia atirado nele, nem por que tinha feito isso, mas dizia que perdoava o autor do atentado", recordou. "João Paulo II passou por muitos sofrimentos, a começar pela parda da mãe e de um irmão quando era ainda muito jovem", observou.

Cenário. Os peregrinos estrangeiros começaram a movimentar a Praça de São Pedro e os arredores do Vaticano ao chegarem a Roma para a canonização, domingo, de João XXIII e João Paulo II. O tráfego já está proibido a veículos nas ruas paralelas e nas diagonais, onde só podem entrar pedestres. As restrições serão maiores, a partir das 19 horas deste sábado, com bloqueios policiais nos principais acessos à praça. A previsão é de que haverá mais de 800 mil pessoas assistindo à cerimônia no Vaticano, às 10 horas de domingo (5 horas em Brasília).

A Praça de São Pedro será aberta para os peregrinos às 6 horas, mas nessa hora milhares de pessoas já estarão nas proximidades, aguardando a liberação dos pontos de entrada. Centenas de peregrinos deverão dormir nas proximidades em barracas armadas na rua. A estrutura montada para a cerimônia terá 77 ambulâncias, 16 tendas de assistência médica, 18 telões e 990 banheiros químicos. Bares estão proibidos de abrir as portas e restaurantes deixarão de funcionar por iniciativa dos proprietários, que temem não serem capazes de atender à demanda de uma multidão de clientes.

A polícia está fazendo blitze nos pequenos hotéis bed&breafast para verificar suas condições de conforto, segurança e higiene. Milhares de peregrinos ficarão hospedados em conventos e seminários, pagando uma diária de € 30 a 40, com direito a café da manhã. A prefeitura de Roma estima em € 11 milhões os gastos com a canonização. O Vaticano entrará com € 500 mil para pagar as despesas.

Peregrinos. Os católicos vindos de outros países e do interior da Itália chegam de trem e em ônibus de turismo, enfrentando dois a três dias de viagem. Na tarde desta sexta-feira, 25, o agricultor polonês Wlademir Oleksy, de 52 anos, foi cercado por curiosos ao chegar à Praça de São Pedro com um cajado nas mãos e uma mochila nas costas. Ele veio a pé da cidade de Powroznik, na fronteira da Polônia com a Eslováquia. Percorreu 1.700 quilômetros em 42 dias, dormindo em hotéis baratos, paróquias e casas de família. Em Roma, vai se hospedar na Casa dos Peregrinos Poloneses.

"Estive aqui em 1º de março de 1981, dois meses e meio antes do atentado a tiros nesta praça", disse Wlademir. Ao lado dele, 60 concidadãos que vieram de ônibus de Cracóvia, em dois dias de viagem, ouviam o relato de sua aventura e posavam para fotos, com bandeiras polonesas nas mãos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.