Segunda fase será a mais difícil: achar as caixas-pretas

Para especialista, a missão equivale a procurar caixas de sapatos perdidas nos Pirineus

, O Estadao de S.Paulo

07 de junho de 2009 | 00h00

A descoberta de destroços do voo AF 447 e de corpos de alguns de seus passageiros no Oceano Atlântico representa o início de uma fase ainda mais complexa no trabalho de investigação das causas do acidente. Além da identificação dos corpos, o desafio das Forças Armadas do Brasil e da França será localizar as balizas e as caixas-pretas da aeronave, cujos registros podem ser determinantes para apontar as responsabilidades pelo desastre. As buscas devem se concentrar no mesmo perímetro em que a Marinha brasileira realizava pesquisas: 2,98º Norte, 30,59º Oeste, segundo as coordenadas geográficas divulgadas em Paris. Nessa região, explicou ontem Laurent Kerleguer, engenheiro-chefe de Armamento e especialista em ambiente marinho do Serviço Hidrográfico e Oceanográfico da Marinha (Shom) da França, as profundidades, abissais, variam entre 1.300 e 4.600 metros. Num ambiente dessa magnitude, buscar pelas caixas-pretas do Airbus da Air France é como procurar caixas de sapato perdidas em uma cadeia montanhosa com picos mais altos que os dos Pirineus, na fronteira da França com a Espanha. E com um agravante: a área no Oceano Atlântico foi, até aqui, pouco estudada. "O conhecimento da região não é excelente. Não foi um local objeto de interesse particular até aqui por pesquisadores", frisou o engenheiro Kerleguer. DIFICULDADESO tempo decorrido desde o acidente é outro fator complicador. Entre o primeiro e o sexto dia a contar do acidente, as caixas-pretas foram empurradas na razão de 40 quilômetros por dia - sem contar a força dos ventos - se a região na qual se perdeu tem 4 mil metros de profundidade. Na melhor das hipóteses, os gravadores teriam sido movidos pelas correntes em seis quilômetros por dia, caso tenham afundado em uma área de mil metros de profundidade. "A região é marcada por correntes bastante intensas na superfície e menos intensas a cem metros de profundidade", explicou o engenheiro. Além dessas variáveis, terão influência nas buscas a temperatura e a salinidade da água, fatores que exercem papel na propagação das ondas de som emitidas pelas balizas - espécies de sinalizadores fixados nas caixas-pretas. Um exemplo: se os objetos estiverem a quatro mil metros de profundidade, os barcos de pesquisa terão de estar exatamente sobre o ponto para localizá-los.As únicas razões para otimismo são as esperanças de que as balizas que são fixadas nas caixas-pretas não tenham sido danificadas no momento do choque do avião.Se tudo correr bem, esses sinalizadores emitirão as ondas sonoras por pelo menos mais 25 dias, um sinal que pode ser captado por sonares. DÚVIDAS"A complexidade é imensa. Teremos grandes dificuldades para encontrar as balizas", afirmou Paul-Louis Arslanian, diretor do Escritório de Investigação e Análise para a Aviação Civil (BEA), órgão francês responsável pela apuração das causas do acidente. "E não temos certeza alguma se as balizas ainda estão fixadas nas caixas-pretas."

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