WILTON JUNIOR / ESTADÃO
WILTON JUNIOR / ESTADÃO

Segundo dia de desfiles no carnaval do Rio tem exaltação do povo negro

Paraíso do Tuiuti abriu a noite na Marquês de Sapucaí e será punida por ultrapassar em dois minutos o tempo máximo para atravessar a avenida; uma integrante ficou ferida após ser atingida por um carro alegórico

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2022 | 00h05
Atualizado 24 de abril de 2022 | 02h53

RIO - A segunda noite de desfiles das escolas de samba do Rio começou às 22h deste sábado, 23, com a exibição da Paraíso do Tuiuti. Assim como Salgueiro e Beija-Flor na primeira noite, o tema central da escola também foi a exaltação do povo negro e o combate ao preconceito, com o diferencial de fazer uma estreita ligação entre cada personalidade retratada e um orixá (divindade das religiões africanas).

A escola apresentou um desfile menos luxuoso do que a maioria das agremiações que se exibiram na primeira noite e ainda ultrapassou em dois minutos o tempo máximo de 70 minutos para atravessar a passarela do samba, por isso será punida com perda de dois décimos na apuração. Imagens da TV Globo registraram ainda o momento em que uma integrante da Paraíso do Tuiuti ficou ferida ao fim do desfile. A mulher foi atingida por um carro alegórico da própria escola.

O carnavalesco Paulo Barros, um dos mais cultuados da atualidade e responsável pelo enredo da escola que abriu o desfile deste sábado, seguiu seu estilo: todos os carros alegóricos tinham muitos componentes, que interagiam com as esculturas. O abre-alas tinha mais de 30 componentes que saíam da alegoria, faziam coreografia na pista e voltavam.

A lista de personalidades negras retratadas na escola foi extensa: o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira estava vestido como Zumbi e Dandara, as baianas retrataram Ângela Davis, e não faltaram os ex-presidentes dos Estados Unidos Barack Obama e da África do Sul Nelson Mandela.

Outra curiosidade foi que a princesa da bateria, Mayara Lima, recebeu mais aplausos do público do que a rainha, Thay Magalhães. Elas protagonizam um embate desde que a rainha se atrasou para o ensaio técnico, há duas semanas, e a princesa começou o treino liderando a bateria.

A segunda escola a desfilar na noite de sábado foi a Portela, com o enredo “Baobá”. Essa árvore típica da África (e existente também na Austrália) é considerada sagrada por religiões de matriz africana, que a cultuam como símbolo de sobrevivência, sabedoria, ancestralidade e resistência. Trazida ao Brasil por africanos, foi usada por exemplo no paisagismo do Campo de Santana, no centro do Rio, onde alguns exemplares plantados em 1873 seguem firmes, prestes a completar 150 anos. No enredo, o casal de carnavalescos Renato e Márcia Lage associou a árvore à história da Portela, maior vencedora dos desfiles do carnaval do Rio, com 22 títulos.

A terceira agremiação a desfilar na noite de sábado será a Mocidade Independente de Padre Miguel, que também vai apresentar um enredo religioso. “Batuque ao Caçador” discorre sobre Oxóssi, orixá (divindade das religiões africanas) que simboliza o caçador, a fartura e o sustento. Esse orixá também é padroeiro da escola (a primeira quadra da Mocidade foi construída no terreno em que funcionava o terreiro de Tia Chica, consagrado a Oxóssi) e inspirador do toque da bateria da escola – por iniciativa do Mestre (de bateria) André, o toque de suas caixas é baseado no aguerê (toque consagrado a um orixá) de Oxóssi.

Por isso, o enredo é também uma homenagem a todos os ritmistas da escola. A rainha de bateria, Giovana Angélica, raspou o cabelo para o desfile, em homenagem ao enredo.

A quarta escola a desfilar será a Unidos da Tijuca, que vai discorrer sobre a lenda indígena do surgimento do guaraná. A história diz que um casal de índios sem filhos pediu ao deus Tupã que ele os tornasse pais. O pedido foi atendido e nasceu um bebê bonito e saudável. Invejoso de suas qualidades, Jurupari, o deus da escuridão, resolveu matar o pequeno índio. Um dia, enquanto o menino colhia frutos na floresta, Jurupari se transformou em serpente.

Tupã mandou trovões alertando os pais sobre o perigo que o menino corria, mas não houve tempo de salvá-lo. Tupã então mandou plantar os olhos da criança para que deles nascesse uma planta. O fruto dessa planta deveria ser distribuído como fonte de energia. No local onde os olhos foram plantados nasceu o guaraná, fruta que tem o aspecto de olhos. A partir da lenda, a escola vai defender a cultura indígena.

A penúltima escola a desfilar no sábado será a Grande Rio, que vai falar de Exu, outro orixá. A escola vai mostrar a ligação dessa divindade com o lixo, a partir da ideia de transformação, e abordar a existência do aterro sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias (cidade-sede da Grande Rio). Outro objetivo do enredo é desmistificar o orixá, identificado pela cultura ocidental como representante do mal, e combater a intolerância religiosa.

O segundo e último dia de desfiles na Sapucaí será encerrado com a exibição da Unidos de Vila Isabel, que vai homenagear seu integrante mais famoso, o cantor, compositor e escritor Martinho da Vila, de 84 anos. Os integrantes da bateria estarão vestidos com uniforme militar, formando o “Exército de Martinho”, que na juventude foi sargento. A “comandante” desta “tropa” será a apresentadora Sabrina Sato, que volta ao posto de rainha de bateria.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.