Segundo turno depende do eleitor de menor renda

A pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira deu à oposição o gás que lhe faltava para tentar levar a eleição presidencial para o segundo turno. Por ora, o movimento detectado pelo instituto aparece circunscrito aos mais escolarizados e de renda mais alta. A questão é saber se ele migrará para outros estratos sociais mais numerosos. Sem isso, a marola pode não chegar a onda.

Análise: José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

A pesquisa aponta para uma redução da vantagem da candidata à Presidência Dilma Rousseff (PT) sobre seus adversários. Foi a primeira feita após a queda da ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, por denúncias de tráfico de influência dentro do governo. E também a primeira depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou seus ataques à imprensa.

Dilma oscilou de 51% para 49% do total de votos, principalmente por perder eleitores entre os mais escolarizados e de renda mais alta. Marina Silva (PV) manteve sua tendência de crescimento e chegou, segundo o Datafolha, a 13%. José Serra (PSDB) foi de 27% para 28%. Ambos subiram nos mesmos segmentos onde Dilma caiu.

A diferença do resultado do Datafolha em relação aos outros institutos não é o porcentual de Dilma, mas os dos adversários e, principalmente, os brancos/nulos/indecisos. Segundo o Datafolha, eles somam apenas 8%, contra 12% no Ibope e 15% no tracking diário do Vox Populi.

A soma dos adversários chega a 42% no Datafolha, mas fica em 36% no Ibope, e em 34% no tracking do Vox Populi. Ou seja: os indecisos estariam migrando em massa para os candidatos de oposição, segundo aponta a pesquisa do Datafolha.

Além da data de campo, há uma diferença entre os institutos: o Datafolha faz sua pesquisa em ponto de fluxo, e os demais, nos domicílios. O perfil do eleitor entrevistado é ligeiramente diferente. Quem está na rua tende a decidir o voto antes de quem não sai de casa. Em tese, nesta reta final, a metodologia do Datafolha pode captar eventuais mudanças de humor do eleitor mais rapidamente. Mas também corre o risco de exagerar o peso dos segmentos mais antenados no total do eleitorado.

Haver ou não segundo turno depende de a tendência entre os mais escolarizados e de maior renda influenciar, por exemplo, os eleitores com nível médio de ensino e renda entre 2 e 5 salários mínimos. Isso ainda não aconteceu nesta eleição. Se o movimento ficar encapsulado no eleitorado de alta renda e escolaridade, Dilma precisaria perder mais da metade de seus votos nesse estrato para deixar de liquidar a fatura em 3 de outubro.

É por isso que a próxima pesquisa Ibope/Estado/TV Globo tornou-se especialmente importante. Ela servirá de tira-teima na comparação do Datafolha com o tracking do Vox Populi. A pesquisa Ibope será divulgada hoje à noite, no Jornal Nacional e nos portais www.estadao.com.br e ww.g1.com.br. E publicada pelo Estado, de forma detalhada, no sábado.

Independentemente de a tendência se confirmar ou não, a pesquisa produziu um fato concreto: deu ânimo às candidaturas de oposição, que voltaram a sonhar com um segundo turno. Por outro lado, eleitores de Dilma que poderiam se abster por dar a eleição por vencida podem mudar de ideia.

É JORNALISTA ESPECIALIZADO EM PESQUISAS

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