Segurança ainda falha em prédios assaltados

Simulando entregas ou buzinando, reportagem entra em 5 edifícios

Camilla Haddad, JORNAL DA TARDE, O Estadao de S.Paulo

05 Agosto 2009 | 00h00

Alvo de arrastões neste ano, condomínios de alto padrão de São Paulo ainda apresentam graves falhas na segurança. A pé, com o pretexto de entregar flores a uma moradora selecionada em um site telefônico, ou ao estacionar um Ford EcoSport preto na frente das garagens à espera da abertura do portão, a reportagem conseguiu driblar a vigilância em 5 dos 10 residenciais. Os prédios visitados estão localizados nos bairros de Higienópolis, Paraíso, Lapa, Vila Leopoldina e no centro. De janeiro a julho, pelos menos 14 condomínios foram assaltados na capital paulista. A simulação, realizada na quinta e na sexta-feira passadas, foi acompanhada pelo especialista em segurança Felipe Gonçalves. A bordo do EcoSport, com vidros escuros, a reportagem conseguiu entrar no primeiro prédio, em Higienópolis. Em março, houve um arrastão no local e sete famílias foram assaltadas. O porteiro estava em uma guarita recuada, se intimidou com a buzinada e abriu rapidamente o portão da garagem. "Muitos porteiros têm medo do morador, que costuma brigar por causa da demora em abrir o portão", explicou Gonçalves. "E isso é o que prejudica (a segurança do condomínio)." Com o automóvel já dentro do imóvel, o porteiro cometeu mais um erro. "Boa tarde, vocês vão em qual apartamento?", perguntou. A repórter afirmou que desejava comprar uma unidade e que estava à espera do corretor de imóveis. Diante da justificativa, o porteiro orientou a reportagem a estacionar o veículo em uma vaga nos fundos da garagem. Nesse momento, a reportagem revelou o motivo da visita: testar a segurança do local. O porteiro pediu, então, para a equipe deixar o local. Bastou um sinal de positivo de dentro do carro e o segurança abriu o portão da garagem de outro edifício, no Paraíso, zona sul da capital. Em março, uma quadrilha invadiu o local e 13 pessoas foram feitas reféns. Ao ser questionado sobre o motivo da liberação do veículo, o funcionário se justificou. "Achei que fosse o senhor F., do segundo andar. O carro também é parecido", explicou. Na Vila Sônia, zona sul, o porteiro agiu corretamente ao ser chamado para pegar pessoalmente um buquê de rosas. Ele permitiu que a reportagem deixasse as flores apenas na gaiola - um espaço entre dois portões. O funcionário, no entanto, errou ao aparecer perto da grade depois de um apelo de que as flores iriam amassar. No caso de um assalto, ele poderia ter sido facilmente rendido naquele momento. Questionado sobre a conduta, o funcionário não quis se justificar. O síndico foi procurado, mas também não respondeu à reportagem. Em um residencial na região central, a repórter afirmou ao zelador que procurava um imóvel para alugar. Ele ficou cerca de cinco minutos conversando e, em seguida, abriu as portas do prédio sem qualquer resistência ou restrição. Revelada a real intenção da visita, ele disse que aparentemente não havia razões para desconfiança. Também em um prédio de Higienópolis, a reportagem se identificou como representante de uma empresa de segurança. O vigia, de terno e gravata e com rádio comunicadores, ficou próximo às grades para receber um cartão que lhe seria entregue. "Deixe aí na grade que eu pego", afirmou ele, mas, em seguida, se aproximou e começou a conversar. Nesse momento, segundo especialistas, ele poderia ter sido rendido por bandidos. Em outro prédio, na Vila Leopoldina, zona oeste da cidade, o portão estava aberto. A reportagem entrou e não houve nenhum problema para uma conversa sobre imóvel para locação. Em um edifício na Lapa, os portões estavam abertos e a repórter conseguiu entrar. AUMENTO DE ROUBOS A Secretaria da Segurança Pública diz que não divulga a quantidade de edifícios invadidos e que essa estatística entra como roubos. No segundo trimestre deste ano, houve aumento de 65.635 para 68.524 desse tipo de crime no Estado - o maior número de registros desde o início da série histórica, em 1995.

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