Segurança faz colegas reféns para exigir salários atrasados

Atiradores de elite, ruas cercadas e quase cem homens das Polícias Civil e Militar para resolver o caso de um homem que, armado, havia feito três reféns em uma sala da empresa em que trabalhava, no Tatuapé, na zona leste deSão Paulo. O segurança Ricardo do Nascimento, de 32 anos, exigia a presença dos patrões no lugar. Dizia querer receber salários atrasados para comprar remédios para o filho pequeno, que está com pneumonia. Horas depois, na delegacia, ele contou: "Entrei em desespero, pois precisava muito do dinheiro."O segurança foi levado ao 30.º Distrito Policial, onde foi autuado em flagrante sob a acusação de cárcere privado pelo delegado Eduardo Eugênio Kosovic. "Ele usou os colegas como escudo contra os policiais. É evidente que não é assim que se reivindica", disse o delegado. De acordo com ele, outros funcionários da empresa confirmaram o atraso nos pagamentos.Nascimento está no terceiro casamento. Teve um filho em cada um deles. Disse que trabalha há cinco meses no Grupo Century e sempre recebia com quase um mês de atraso - o que a empresa nega. Na segunda-feira, deveria apanhar parte do salário. Não pôde, pois seu turno de trabalho coincide com ohorário de funcionamento do setor de recursos humanos.Na tarde de hoje, ele teria telefonado para o supervisor pedindo que deixasse seu salário com o supervisor da noite. "Quando ia para a empresa, telefonei para casa e soube do que havia ocorrido com meu filho." Ao chegar à Century, o segurança não recebeu o pagamento. De acordo com testemunhas, sacou seurevólver e obrigou os funcionários que achou pela frente, três ao todo, a entrarem numa sala.Depois, exigiu a presença do dono. Em vez dele, quem veio foi a polícia. O Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da PM cercou a empresa e começou a negociar com o segurança. Uma hora depois, ele soltou um dos colegas. Mais uma hora e outro refém foi libertado. Por fim, aproveitando um descuido de Nascimento, o último refém escapou. Sem reféns, o segurança passou a ameaçar matar-se caso a polícia tentasse prendê-lo. Somente depois de muita conversa é que ele resolveu entregar o revólver calibre 38.EmpresaA Century, por meio de seu advogado, Anderson Urbano, apresentou quatro recibos de pagamento assinados por Nascimento, alegando que não estava com os salários atrasados. O advogado afirmou que somente o pagamento das horas extras ia ser efetuado com atraso, mas que isso havia sido acordado com os cerca de 600 funcionários do grupo. Ele afirmou que a empresa está dando assistência à família de Nascimento e pretende também ajudá-lo. "Ele é pai de família, um trabalhador cujo lugar não é a cadeia", disse o advogado.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.