Segurança: gasto de Estados cresce 260% em dez anos

Entidade alerta que nem sempre mais verbas significam melhores resultados: líder do ranking de investimentos, Rio é vice-líder em homicídios

Bruno Paes Manso, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2012 | 00h00

Entre 1995 e 2005, o investimento em segurança pública no Brasil cresceu 260%, passando de R$ 36,5 por habitante para R$ 132,6. Os 26 estados e o Distrito Federal gastaram juntos R$ 27 bilhões no setor em 2005. O aumento nos investimentos, contudo, não levou necessariamente a uma melhora nos resultados. O Rio, por exemplo, que em 2005 ficou em segundo lugar entre os Estados com maior índice de homicídios dolosos por 100 mil habitantes, foi o que mais aumentou o investimento na área, passando de R$ 49,5 para R$ 240,1 por habitante entre 1995 e 2005 - crescimento de 385%. "Isso mostra que hoje é preciso ficar atento principalmente à qualidade dos gastos", afirmou o sociólogo Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A entidade, criada para acompanhar os problemas do setor, apresentou ontem o primeiro anuário com dados sobre a segurança, que incluiu informações sobre investimentos e estrutura das polícias. Segundo o anuário, o governo federal investiu R$ 3 bilhões em segurança em 2005, entre verbas das Polícia Federal e Rodoviária Federal e repasses aos Estados. Isso representa metade do gasto feito por São Paulo, Estado que mais investiu em volume total de recursos, R$ 6,2 bilhões, mas que ficou na 10ª posição em dispêndio per capita. "Isso mostra que há espaço para o crescimento dos investimentos da União", diz Lima. Em relação à qualidade dos gastos, outro dado levantado pela pesquisa mostra que os investimentos no setor de inteligência têm sido negligenciados. Em 2005, o governo federal foi o que mais gastou na área, num total de R$ 53,7 milhões. São Paulo, que no ano seguinte enfrentaria a onda de ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC), apareceu apenas na quinta posição, com investimentos da ordem de R$ 4,2 milhões.atrás do Paraná, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. "É preciso ver o que cada unidade considera como inteligência no orçamento. São Paulo hoje acompanha as ocorrências online, criou um departamento de inteligência e investiu muito no setor", pondera o cientista político Tulio Kahn, coordenador de Análise e Planejamento da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo. Em plena luta contra facções criminosas, o Rio foi a unidade da Federação que menos investiu em inteligência em 2005: apenas R$ 70 mil. "Os dados mostram a concepção dos governantes sobre qual deve ser o trabalho da polícia. Aposta-se no confronto em vez do planejamento", disse o cientista político João Trajano Sento-Sé, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. O fato de os maiores investimentos em segurança não provocarem necessariamente queda da criminalidade fez os analistas levantarem diferentes hipóteses. Kahn afirma que em locais onde há crise na área de segurança é de se esperar que os gastos sejam altos. "Se o Rio está em crise, é natural que invista mais. Os resultados não aparecem imediatamente", disse Kahn. O mesmo raciocínio vale para o Piauí, que foi um dos quatro que menos gastou no setor. O Estado fica em segundo lugar entre aqueles com menos homicídios por 100 mil habitantes e tende a investir pouco. "A conclusão principal, no entanto, é que existem gastos que geram melhores resultados do que outros", afirmou o sociólogo Arthur Trindade Costa, da Universidade de Brasília. Como os índices de homicídio não fazem parte do anuário, São Paulo, Estado com a maior redução de assassinatos nos últimos cinco anos - queda de mais de 60% -, só lidera o ranking divulgado ontem num quesito. "Foi o Estado que mais prendeu, passando de 50 mil para 150 mil presos", diz Kahn.

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