Segurança vira estrela em festa de campanha de Lula

O que deveria ser um evento para dar o primeiro passo da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição e resgatar sua história política, acabou se transformando em palco para discussões sobre a questão da segurança em São Paulo. Em um jantar para 3 mil pessoas em São Bernardo do Campo, no mesmo restaurante onde há 27 anos discutia-se a criação do Partido dos Trabalhadores, Lula e outras lideranças da sigla aproveitaram para rebater as afirmações feitas pelo ex-prefeito de São Paulo José Serra e pelo senador Jorge Bornhausen levantando a suspeita de que os ataques realizados pelo PCC estariam relacionados a uma ação política do PT.Apesar de apresentar um balanço de seu governo e propostas para um eventual segundo mandato, Lula dedicou uma parcela significativa de seu discurso de cerca de uma hora para comentar a conotação política que vem sendo dada aos ataques terroristas. Sempre defendendo que o PT não deve transformar o problema em um objeto de disputa eleitoral, o presidente criticou a postura dos adversários e pediu calma aos petistas na hora de responder aos ataques."Não podemos fazer o jogo que eles querem que a gente faça", disse Lula, que, dirigindo-se ao senador Aloizio Mercadante pediu que não ficasse "nervoso e preocupado em responder". "Porque é no mínimo uma questão de insanidade tentar vincular o PT ao crime organizado quando eles cuidam há 12 anos das cadeias de São Paulo", acrescentou o presidente. Ainda em tom de crítica, Lula afirmou que é necessário que o jogo político não seja "tão rasteiro" . "Leviandade tem limite", emendou.Aplaudido em diversas ocasiões, Lula voltou a colocar instrumentos federais à disposição do governador de São Paulo, Cláudio Lembo, que segundo ele tem sido um "parceiro muito leal". Ofereceu mais uma vez a Força Nacional de Segurança, a colaboração da Polícia Federal e o Exército, caso a administração do peefelista julgue necessário. Lula disse ainda que este é o momento de buscar meios para combater a criminalidade e devolver a tranqüilidade ao povo de São Paulo."A hora não é hora mesquinha de alguém ficar tentando incriminar alguém. A hora é de seriedade", disse Lula, acrescentando que pediu ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que colocasse a questão paulista no topo de suas prioridades. "A hora é de nós dizermos ao povo de São Paulo que o município, o Estado, a União, a sociedade, os sindicatos, as igrejas, a imprensa, a sociedade livre, honesta e trabalhadora têm de ter supremacia e têm de ter a disposição política de vencer aqueles que caminharam para a criminalidade", acrescentou.Lula disse que uma situação em que pessoas morrem não pode ser utilizada como objeto de disputa eleitoral e ressaltou que, apesar de complexo, o tema da criminalidade em São Paulo precisa ser enfrentado "com rapidez e eficiência, mobilizando toda a esfera de poder e toda a sociedade".Um minuto de silêncioO tema da segurança já havia tomado conta do debate antes mesmo de Lula iniciar seu discurso. O presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, aproveitou logo no início para pedir um minuto de silêncio pelas vítimas dos ataques do PCC. Em seguida, disse que o PT e partidos aliados têm tentado conduzir este assunto para longe da disputa eleitoral mas enfrenta agora a atitude irresponsável de membros da oposição, com o compromisso de fazer um debate político de alto nível."Mas hoje algumas pessoas que são candidatas pelos partidos de oposição ao nosso governo fizeram declarações extremamente infelizes, fortes e irresponsáveis", reclamou Berzoini, alegando que o PT dará na Justiça uma resposta às afirmações de Serra e Bornhausen. Ele comparou o momento vivido hoje pelo PT à primeira campanha de Lula à Presidência, em que o partido foi acusado de estar relacionado ao seqüestro do empresário Abílio Diniz. Ainda segundo Berzoini, o PT está comprometido em fazer um debate eleitoral de alto nível, "que não seja apenas para contar votos mas para discutir qual é o futuro que o País merece".A segurança também comandou parte das falas do senador Aloizio Mercadante que, diferentemente de Lula e Berzoini, preferiu não comentar diretamente as declarações de Serra e Bornhausen. O senador, que disputa com o ex-prefeito tucano o governo de São Paulo nas próximas eleições, preferiu criticar a política de segurança comandada pela gestão do ex-governador Geraldo Alckmin no Estado. "Nada é mais frágil neste passado recente do nosso Estado do que a situação da segurança pública", disse Mercadante, citando as dificuldades atravessadas por presos, agentes penitenciários e policiais. "Falta comando nesse Estado, falta autoridade nesse Estado."ReeleiçãoApesar de a questão da segurança ter comandado boa parte da festa, Lula também tratou do tema da reeleição, apontou conquistas de seu primeiro mandato e apresentou propostas para um eventual segundo governo. "Estamos aqui para mais uma jornada de luta", disse o presidente, pouco após ouvir os militantes presentes no evento cantando músicas que embalaram suas campanhas anteriores e abanando bandeiras do PT pelo salão do restaurante São Judas Tadeu.Lula comparou o "sonho" que guiou seu governo a uma partida de futebol, que de acordo com ele se prepara para iniciar o segundo tempo. "Nós não podemos falar do Brasil apenas do que estamos fazendo agora. Nós precisamos sonhar para frente. Porque o nosso sonho é como se fosse uma partida de futebol", disse Lula, acrescentando que está preparado inclusive para uma partida com prorrogação. "Nós vamos para o segundo tempo. E vocês sabem o que foi feito nesse primeiro tempo."Lula apontou como principal prioridade para um segundo governo a educação. "Podem estar certos de uma coisa: se eu for reeleito presidente da República, eleita será a educação como prioridade máxima do nosso governo", disse Lula, acrescentando que será mantida também entre suas prioridades a manutenção do crescimento econômico com distribuição de renda.Outra prioridade, segundo ele, será a reforma política. "Queremos promover uma ampla reforma política, porque a crise ética que se abateu sobre o País é uma crise do sistema político brasileiro em sua inteireza e não apenas de determinados partidos ou indivíduos", disse Lula, em referência ao escândalo do mensalão e às denúncias de corrupção surgidas no cenário político nacional desde o meio do ano passado. "Somente uma reforma política, uma grande reforma política, impedirá que práticas lamentáveis se repitam", acrescentou.Ao tratar da importância de sua reeleição, Lula aproveitou para dizer ao senador Mercadante que está disposto, junto com o vice-presidente José Alencar, a se esforçar ao máximo para ajudá-lo a vencer a eleição estadual. Recomendando ao senador que não se preocupe com a vantagem de Serra nas pesquisas, o presidente disse que teve em Mercadante um aliado fiel durante a crise política e que pretende trabalhar por sua eleição de todas as formas possíveis. "Eu dedicarei cada esforço que for possível dedicar, cada passo que eu puder dar, não apenas para retribuir, mas Alencar e eu temos o compromisso de dar à sua eleição em São Paulo a mesma importância que nós damos à nossa própria reeleição.

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