Sem blitze, fumantes cooperam no interior

Comerciantes de cidades pequenas, sem fiscais, contam com respeito

Brás Henrique, CRAVINHOS (SP); Tatiana Fávaro, MONTE MOR (SP), O Estadao de S.Paulo

17 Agosto 2009 | 00h00

Enquanto na capital e nos maiores centros urbanos do interior paulista blitze caça-fumaça agem para coibir o fumo em ambientes internos e fechados, nas cidades de pequeno porte, onde há poucos fiscais ou simplesmente não existem agentes, a cooperação dos fumantes tem garantido o cumprimento da lei. A nova regra pegou. Bom para comerciantes - principalmente proprietários de bares, restaurantes e casas noturnas - que escapam de denúncias, da fiscalização (mesmo que pouco frequente) e de indesejáveis multas de até R$ 1.585 - no caso de reincidência, o estabelecimento ainda pode ser fechado por 48 horas ou até 30 dias.Na região de Ribeirão Preto, Cravinhos, com 32 mil habitantes, é exemplo do sucesso da nova lei. A Vigilância Sanitária - um agente e uma enfermeira - começou durante a semana passada a orientar comerciantes, mas ainda não fiscaliza. Alguns proprietários já se adiantaram. Luiz Roberto Mattei Anes, proprietário do Beto Vaca, colocou avisos, orientado pelo contador. "Vou pintar o aviso na calçada também", diz. Na área externa, são 20 mesas, sob toldo.Anes colou adesivos nas paredes, geladeira, espelho do banheiro, balcão. Ele espera por orientação da fiscalização para colar outros. "Ainda não apareceram aqui, mas gostaria de saber se está bom", diz. A maioria da clientela não precisa da repressão. O eletricista José Aníbal, de 51 anos, fumante, respeita. "É ótima (a lei). Ninguém é obrigado a fumar comigo." O agricultor João Benedini, de 44 anos, concorda. "Vai ser bom para o pulmão, para a vida." Contrariado ficou o advogado Aloísio Horta, de 65 anos, ex-fumante. "Não vai pegar, será igual à lei seca, só funcionará no começo." Para o desafio de Horta, o diretor da Vigilância Sanitária, Douglas Uzuelli, manda um recado: o agente ganha as ruas nos próximos dias e o trabalho não vai ser difícil. "Nosso universo para fiscalizar não é grande, pois só temos lanchonetes e barzinhos."A disposição em colaborar tem agradado também aos comerciantes de Hortolândia, cidade com 200 mil habitantes, na região de Campinas. "A fiscalização ainda não veio. Nos primeiro dias, tive de pedir para umas 15 pessoas fumarem lá fora. Agora mudou e os clientes já chegam sabendo que aqui dentro não se pode nem pensar em acender cigarro", diz Marco Antonio Beretta, de 36 anos, dono de bar na Rua dos Estudantes. Por ali, passam de 120 a 150 pessoas nas noites de sexta-feira.Em outro bar e restaurante da cidade, o garçom Daniel Antonio afirma que os clientes estão ajudando bastante no cumprimento da lei. Ainda que alguns reclamem de sair no frio para fumar, não houve necessidade de pedir a nenhum fumante para apagar o cigarro dentro do estabelecimento, no bairro Everest. "A gente ficou com medo que o pessoal, num primeiro momento, não fosse respeitar e que a fiscalização fosse cair em cima. Mas o que aconteceu foi o contrário: os fumantes respeitaram e a fiscalização não apareceu ainda", afirma. "A cooperação deixa a gente feliz. Dá para chegar em casa com a roupa cheirosinha", brinca.Os fumantes, até os mais contrariados, respeitam a lei, apesar de dividirem opiniões sobre a eficácia da medida. "Lei é lei, não tem jeito: até quem critica vai ter de cumprir", disse o operador de máquinas José Aparecido da Silva, 44 anos. "Saio na rua para fumar, numa boa, porque, apesar de ser fumante, sei que é ruim sentir cheiro de cigarro. Só não sei se a gente fumar aqui fora muda alguma coisa", afirmou a ajudante de cozinha Juliana Sampaio, de 23 anos, enquanto acendia cigarro na frente do bar de Anderson Jesus Bull, em Monte Mor, cidade com 46 mil habitantes. Bull, de 28 anos, disse que conseguiu controlar a fumaça com tranquilidade. "De vez em quando um ou outro esquece, mas no geral o pessoal está respeitando", diz o comerciante, logo depois de barrar a entrada de um "esquecido", com o cigarro na mão, para pegar cerveja.

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