Sem demitir, Lula cobra melhora nos Correios

Presidente evitou mudanças para não causar problemas na aliança eleitoral com o PMDB em torno de Dilma

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2010 | 00h00

Insatisfeito com o trabalho de apadrinhados do PT e do PMDB nos Correios, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou ontem de sua equipe uma proposta para "melhorar" a qualidade dos serviços da empresa. A reclamação em forma de pedido foi feita num encontro, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), com os ministros José Artur Filardi (Comunicações), Paulo Bernardo (Planejamento) e Erenice Guerra (Casa Civil).

Como o Estado divulgou no último dia 9, Lula só não demitiu a diretoria dos Correios para não causar problemas para a aliança com o PMDB e a candidatura da ex-ministra Dilma Rousseff à Presidência. Ele, no entanto, deixou claro para o ex-ministro das Comunicações Hélio Costa e o senador Romero Jucá (PMDB-RR) que não aprova a gestão nos Correios. Costa e Jucá são padrinhos do presidente da empresa, Carlos Henrique Custódio, e de diretores influentes.

Assessores do governo relatam que Lula considera o trabalho de Custódio ineficiente e burocrático. As deficiências da diretoria e as brigas internas, na avaliação do presidente, estão por trás dos problemas enfrentados pelos clientes da empresa, como o atraso nas correspondências, especialmente no Sedex. No encontro com Lula, Filardi responsabilizou o diretor de Operações, Marco Antonio Marques de Oliveira, pelos problemas.

O presidente avalia ainda que as divergências entre diretores protegidos pelo PMDB e diretores ligados ao PT comprometem marcas tradicionais dos Correios, como a confiabilidade e a agilidade registradas em pesquisas de opinião.

No início do mês, Lula orientou a ministra Erenice Guerra a avisar aos peemedebistas sobre seu descontentamento com o trabalho de Custódio. Erenice chegou a dizer a líderes do PMDB que o partido precisa indicar um nome com mais capacidade para comandar a estatal.

Custódio participou do encontro de ontem no CCBB com Lula e ministros. Ele deixou o prédio constrangido e sem falar com a imprensa. No dia 11, depois que a insatisfação de Lula com os Correios se tornou pública, Custódio pediu uma audiência com o presidente. Lula não o recebeu.

O prazo para elaboração da proposta de "melhoria" nos serviços é de "mais ou menos" uma semana, relatou Filardi. "Vamos estudar uma solução para melhorar os Correios", se limitou a dizer o ministro das Comunicações. "Se ele (Lula) estivesse satisfeito (com os serviços dos Correios) não teria pedido um plano de melhoria da empresa."

PARA LEMBRAR

Estatal, ''berço'' do mensalão

As investigações da CPI dos Correios foram o embrião do chamado mensalão, esquema de corrupção denunciado pelo ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) em 2005.

O dinheiro arrecadado com o esquema, supostamente envolvendo o deputado, seria usado para engordar o caixa do partido. Após as denúncias, Jefferson ameaçou apontar casos de corrupção que seriam praticados pelo PT e acabou revelando que congressistas aliados do governo Lula recebiam mesada de R$ 30 mil do tesoureiro do PT, Delúbio Soares.

Os parlamentares citados nas denúncias negaram as acusações feitas pelo deputado dizendo que Jefferson tentava desviar a atenção da CPI dos Correios para evitar sua cassação.

Um mês após as denúncias, o publicitário Duda Mendonça, um dos principais marqueteiros políticos do País, admitiu à CPI dos Correios ter recebido no exterior R$ 10 milhões da campanha de Lula, o que levou a oposição a cogitar pedido de impeachment do presidente.

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