Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Sem dinheiro, venezuelanos percorrem 200 km a pé da fronteira até Boa Vista

Falta de recursos para comprar passagem de ônibus de Pacaraima até a capital de Roraima leva imigrantes a andarem por até cinco dias na BR-174 sob sol forte e dormirem no acostamento

Fabiana Cambricoli, enviada especial, O Estado de S. Paulo

23 Abril 2018 | 05h00

PACARAIMA (RR) - O salário de ajudante de cozinha que Cristóbal Guerra recebia no fim do mês mal dava para garantir dois dias de comida para ele e os quatro filhos. Castigado pela hiperinflação e pelos preços exorbitantes que assolam seu país, o venezuelano de 38 anos juntou o pouco dinheiro que tinha e comprou, na última semana, uma passagem de ônibus para Pacaraima, município de Roraima que faz fronteira com a Venezuela. Sua intenção era chegar à capital do Estado, Boa Vista, a 215 quilômetros da fronteira, onde acreditava que teria mais chances de conseguir um emprego. 

Ao desembarcar no território brasileiro, depois de quase 24 horas de viagem, Guerra trocou os bolívares (moeda venezuelana) que ainda lhe restavam por reais para comprar o bilhete para Boa Vista. Descobriu que todo o patrimônio que tinha se transformara em R$ 24, insuficiente para pagar os R$ 30 da passagem.

Pegou, então, sua mala e decidiu fazer os 215 quilômetros a pé. “Não podia ficar parado esperando uma solução. Preciso logo de um emprego e a única saída era caminhar”, conta. O Estado o encontrou quando já havia percorrido 60 quilômetros na BR-174, que liga as duas cidades brasileiras. Ele já estava na estrada há um dia e meio. “Com sorte, consigo chegar à Boa Vista com mais dois dias de caminhada”, diz. 

Assim como Cristóbal, dezenas de venezuelanos faziam o percurso a pé na última quinta-feira, quando a reportagem esteve no local. Debaixo de uma temperatura de 34°C nos momentos mais quentes do dia, eles caminham somente com uma pequena mala ou mochila, sem comida na bagagem nem protetor solar na pele. Para agilizar o trajeto, alguns tentam uma carona, mas poucos eram atendidos. A viagem, que de carro leva três horas, costuma durar de quatro a cinco dias a pé.

No período da noite, os estrangeiros dormem em comunidades indígenas nas margens da estrada ou estendem um lençol no acostamento da rodovia. Em alguns trechos mais estreitos da BR-174, porém, nem acostamento existe e os imigrantes pernoitam no meio da mata.

Era em um desses cenários que o mecânico Francisco da Encarnación, de 31 anos, descansava com os dois irmãos, a mulher e a filha de 1 ano. Os cinco saíram da cidade de Barcelona, norte da Venezuela, para buscar uma chance de trabalho no Brasil, mas, ao chegarem aqui, também não conseguiram arcar com os custos da passagem de Pacaraima a Boa Vista.

“Sabíamos que R$ 1 valia 34 mil bolívares, mas, quando chegamos na fronteira, estavam cobrando 70 mil bolívares por R$ 1, então ficamos com pouco dinheiro”, conta. Na mala, a família havia trazido 6 milhões de bolívares, o que, no câmbio de moedas, transformou-se em R$ 85. Após comprarem comida só restaram R$ 20, insuficientes para a passagem. “Esperamos conseguir pelo menos uma carona para minha mulher e minha filha. Não é fácil fazer esse trajeto, imagina com uma criança no colo”, diz ele.

Fluxo. A cada dia, mais venezuelanos entram no País por Pacaraima. Às 7 horas de todas as manhãs, o posto da Polícia Federal no município já acumula mais de cem pessoas na fila. Segundo agentes da PF, mais de 700 imigrantes estão cruzando a fronteira diariamente, a maioria com destino a Boa Vista – ontem, o Estado mostrou que a capital já reúne mais de 40 mil refugiados. Com os centros de acolhida superlotados, a maioria vive em praças públicas sem acesso a água nem banheiros. 

A maioria dos venezuelanos que atravessa a fronteira, no entanto, tem pouca ideia do caos que está na capital de Roraima. Para eles, que nos últimos meses viram parentes morrerem de fome, chegar a um país onde é possível comer já é uma grande vitória.

 

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Crime cresce em Boa Vista e imigração de venezuelanos leva a culpa

Entre 2015 e 2017, o número de boletins registrados na capital de Roraima passou de 7.929 para 15.266, dos quais apenas 63 tiveram os imigrantes como autores

Fabiana Cambricoli, enviada especial, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

BOA VISTA - Com o aumento da população, Boa Vista viu o número de ocorrências criminais dobrar. Mas apenas 0,5% dos crimes foi cometido por venezuelanos, segundo a Polícia Civil. Entre 2015 e 2017, o número de boletins registrados na capital de Roraima passou de 7.929 para 15.266, dos quais 63 tiveram os imigrantes como autores. Os crimes mais comuns foram lesão corporal, furto e roubo.

A impressão entre a população de Boa Vista, no entanto, é de que são os venezuelanos que estão trazendo mais criminalidade à cidade. A crença é reforçada por crimes violentos praticados por imigrantes, como a tentativa de assalto e esfaqueamento da comerciante Damiana Marques, de 59 anos.

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Um venezuelano que frequentava seu mercadinho para fazer recargas de celular um dia tentou roubá-la. Mesmo sem reagir, a mulher foi esfaqueada no braço e nas costas e ficou em estado gravíssimo por causa dos ferimentos. “Perdi muito sangue, fiquei três dias na UTI e ainda vivo com medo até hoje porque ele nunca foi preso”, afirma ela, que instalou grade na porta do comércio após o episódio, ocorrido em junho do ano passado.

Agora, os clientes só podem fazer compras por meio de uma janelinha. “Não sou contra ajudar os imigrantes, mas nós, brasileiros, não podemos ficar esquecidos.”

 

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Imigrantes venezuelanos disputam até restos de comida em Roraima

Pelo menos três restaurantes de Boa Vista distribuem marmitas com sobras do almoço para distribuir a estrangeiros

Fabiana Cambricoli, enviada especial, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

BOA VISTA - Por volta das 15 horas, a maioria dos restaurantes de Boa Vista que têm serviço de self-service já está fechada, mas, nas últimas semanas, filas de até 50 pessoas se formam na porta dos estabelecimentos perto desse horário. Não são clientes comuns, mas sim venezuelanos famintos à espera de sobras.

Com a chegada de mais refugiados à cidade e a falta de vagas em abrigos, os que vivem em praças começaram a buscar alternativas para comer. Inicialmente, ONGs e igrejas entregavam refeições nos espaços, mas, com o aumento do fluxo migratório, a oferta não tem sido suficiente para todos.

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Pelo menos três restaurantes da cidade passaram, então, a fazer marmitas com as sobras do almoço para distribuir aos estrangeiros. Assim que os comércios abrem as portas para entregar os restos, dezenas de imigrantes, alguns com crianças de colo, se espremem para conseguir pegar uma marmita. “É triste porque na Venezuela tínhamos profissão, casa, carro. Vir para outro país e passar por isso é humilhante. A gente só queria um trabalho para poder pagar pela nossa comida”, diz Alfredo Rafael, de 43 anos.

 

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Trabalho informal avança em Boa Vista e cria 'feira' de imigrantes

Ruas do entorno de abrigo para venezuelanos viraram uma espécie de feira ao ar livre, com venda de alimentos e cigarros e prestação de serviços.

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

BOA VISTA - Ao som de salsa e reggaeton, o cabeleireiro venezuelano Leonardo Vivas, de 27 anos, corta o cabelo de um conterrâneo em uma barbearia improvisada montada na calçada do abrigo Tancredo Neves, em Boa Vista. As ruas do entorno viraram uma espécie de feira ao ar livre de venezuelanos, com venda de alimentos e cigarros e prestação de serviços.

O trabalho autônomo foi a opção encontrada por imigrantes que não conseguem emprego na capital de Roraima. Alguns vendem os poucos itens que trouxeram da Venezuela, como cigarro, farinha e biscoitos. Outros, como Vivas, reproduzem o ofício que tinham no país de origem. “Trabalhava desde os 15 anos como cabeleireiro em Caracas. Trouxe os equipamentos e estou aqui fazendo o mesmo: corte, sobrancelha, tintura”, conta ele, que cobra R$ 7 pelo corte, mas, diante da necessidade de sobreviver no Brasil, aceita fazer o serviço em troca de produtos. “Já aceitei camisas e outros itens”, conta. A clientela é formada pelos próprios imigrantes, que, com baixa renda, buscam serviços com preços mais acessíveis.

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Do outro lado da rua onde Vivas trabalha é possível encontrar outra barbearia, mais barracas vendendo alimentos e um ponto de conserto de celulares e computadores. “Tenho carteira de trabalho desde o ano passado, mas não consigo emprego. O jeito é trabalhar por conta”, afirma Juan Hernandez, de 25 anos.

Outra mudança no mercado de trabalho de Boa Vista trazida pela imigração foi a redução no valor das diárias pagas a profissionais autônomos. Com muita mão de obra barata disponível, empregadores estão oferecendo condições precárias de trabalho, com valores de R$ 10 para um dia de trabalho em fazenda ou de R$ 20 a R$ 30 para a diária de um pedreiro – quando a média para esse tipo de serviço entre brasileiros é de cerca de R$ 100.

Outro problema é a demora na emissão de documentos, com a chegada de um grande contingente de imigrantes. “Solicitei residência em fevereiro e só consegui agendar para maio a emissão da Carteira de Trabalho”, afirma Osvaldo Mendoza, de 35 anos.

 

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Prostituição vira opção para imigrantes venezuelanas em Roraima

Na Venezuela, elas deixaram família e trabalho; nas ruas de Boa Vista, usam agora o sexo como sustento

Fabiana Cambricoli, enviada especial, O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h00

BOA VISTA - Com dois filhos pequenos para criar e grávida do terceiro, a atendente de loja Silvia (nome fictício), de 24 anos, viajou da Venezuela para o Brasil no mês passado em busca de um emprego e de uma fonte de renda que permitisse a ela enviar dinheiro à família. Ao chegar a Boa Vista, o que encontrou foram milhares de conterrâneos desempregados e nenhuma oportunidade. Foi então que passou a fazer parte do grupo de centenas de jovens venezuelanas que, sem emprego, começaram em 2017 a se prostituir nas ruas da capital de Roraima.

As garotas de programa estrangeiras se concentram no bairro Caimbé, principalmente na Rua Leôncio Barbosa, que passou a ser chamada pelos moradores da cidade de Rua Ochenta (oitenta, em espanhol), em referência ao valor médio cobrado por uma hora de programa com as venezuelanas. Há, porém, aquelas que, por desespero, cobram de R$ 30 a R$ 50.

Nas duas visitas que fez ao local, uma no período da noite e outra de dia, a reportagem do Estado contou dezenas de mulheres. A maioria aparentava 20 e poucos anos e estava distribuída pelas diversas esquinas.

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Moradores contam que a presença de garotas de programa nas calçadas se intensificou com o aumento da imigração venezuelana na cidade. Antes, dizem eles, duas ou três casas noturnas do bairro reuniam garotas de programa brasileiras, mas elas trabalhavam apenas dentro dos estabelecimentos. “Agora são dez quarteirões tomados. Tem gente que faz sexo ao ar livre, tem tráfico de drogas. Minha mulher e minhas filhas não podem sair na rua porque são confundidas com prostitutas. A gente está preso dentro da própria casa”, diz um servidor público de 48 anos que mora no bairro há 12.

Medo. Amiga de Silvia, Jessica (nome fictício), de 29 anos, confirma que praticamente todas as jovens que trabalham na rua são venezuelanas, mas conta que a condição de imigrante traz mais insegurança a elas. “Tem clientes que são agressivos, que nos xingam, que não querem pagar. Sabem que estamos com menos direitos aqui”, comenta ela, que era professora na Venezuela. Assim como muitas jovens, Silvia deixou uma criança em seu país.

Diante da insegurança, as venezuelanas tentam criar uma rede de proteção. Silvia e Jessica moram em uma casa alugada com outras oito garotas de programa. Cada uma paga cerca de R$ 100 por mês por uma cama em quartos coletivos. Elas também têm uma espécie de convênio com uma pousada do bairro para onde costumam ir com os clientes. “A gente nunca aceita ir para a casa deles, é muito perigoso. E na pousada, os donos conhecem a gente e brigam com os clientes que não querem pagar”, diz Silvia.

No caso dela, a condição de imigrante ainda trouxe outro receio: o de ser deportada caso busque um serviço de saúde para o acompanhamento da gravidez. “Preciso começar o pré-natal porque não fiz nenhum exame ainda, mas tenho medo de procurar um hospital e descobrirem que não tenho documentação correta”, diz ela. Os postos de saúde brasileiros, porém, estão prestando atendimento independentemente da condição do imigrante.

Silvia e Jessica fazem companhia uma a outra durante as cerca de 12 horas que passam na rua à espera de clientes. O movimento de carros, embora intenso, não indica muita oferta de trabalho. Com a grande concorrência de profissionais na rua, as jovens contam que fazem no máximo dois programas por dia. Elas dizem que pretendem, assim que possível, encontrar outro tipo de trabalho, para poder deixar as ruas de Boa Vista. “A verdade é que me sinto horrível fazendo isso, mas quando vejo que aquele dinheiro vai comprar comida para o meu filho na Venezuela, a sensação é um pouco melhor”, conclui Jessica.

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Roraima quer que União feche fronteira entre Brasil e Venezuela

Documento aponta aumento da criminalidade e elevação do atendimento em saúde; Temer chamou proposta de 'incogitávell'

Amanda Pupo, Rafael Moraes Moura, Fernando Nakagawa, enviado especial de O Estado de S. Paulo ao Peru

13 Abril 2018 | 16h32
Atualizado 13 Abril 2018 | 19h36

BRASÍLIA E LIMA - O Estado de Roraima entrou com ação no Supremo Tribunal Federal (STF), nesta sexta-feira, 13, para exigir que a União feche temporariamente a fronteira entre Brasil e Venezuela e repasse recursos adicionais para suprir os custos causados pela imigração de venezuelanos no Estado. A relatoria da ação é da ministra Rosa Weber. Assinada pela governadora de Roraima, Suely Campos (PP), a ação aponta que a "crise econômica, política e social da República Bolivariana da Venezuela ensejou uma verdadeira explosão no fluxo migratório", e que o Estado está suportando os custos e prejuízos sem ajuda efetiva da União. A proposta foi considerada "incogitável" pelo presidente Michel Temer (MDB) e também foi rejeitada pelo ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira.

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Entre as consequências da crise, o documento aponta aumento de criminalidade, elevação quantitativa de atendimento nas unidades de saúde do Estado e aumento de matrículas para o ensino público. Além de pedir mais recursos e fechamento provisório da fronteira, Roraima também solicita que a União atue de "maneira imediata na área da fronteira", com medidas administrativas na área de controle policial, saúde e vigilância sanitária.

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Apesar de citar a medida provisória editada pelo presidente Michel Temer (MDB) após a ida a Roraima, que dispõe sobre medidas de assistência emergencial para acolhimento a pessoas em situação de vulnerabilidade, o Estado aponta que a União não efetivou "absolutamente" nada de transferência de recursos para reposição dos gastos "já suportados e futuros". Diz ainda que Roraima está "suportando incalculável impacto econômico decorrente da entrada desordenada de imigrantes venezuelanos em território roraimense".

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A ação ainda reclama da demora na efetivação da ajuda, já que Roraima decretou em dezembro de 2017 estado de emergência, e a MP só foi publicada em fevereiro de 2016.

"Aliás, nada de efetivo foi implementado até o momento, mesmo após a MP, a não ser a transferência de apenas e tão somente 266 venezuelanos para os Estados de São Paulo e Mato Grosso, o que representa um fato ínfimo, considerando os mais de 50 mil que, muitos deles, perambulam pelas praças da capital Boa Vista", afirma trecho do documento.

Criminalidade

O aumento da criminalidade e da aparição de doenças também são associadas com a falta de fiscalização e medidas para tratar do fluxo migratório. Segundo o documento, o descontrole nas fronteiras tem "oportunizado a prática de inúmeros crimes internacionais, de tráfico de drogas e armas, inclusive com a participação de membros de facções criminosas conhecidas pelo Estado Brasileiro".

O documento afirma que, com base em dados da Polícia Civil do Estado, o número de homicídios no saltou de 24 para 44, quando comparado o período de fevereiro e março de 2017 com o mesmo período de 2018. Segundo relatório da Defesa Civil de Roraima citado na ação, em apenas quatro meses do ano em curso, 82 crimes foram praticadas por venezuelanos, "o que é estarrecedor se comparado ao ano de 2012, em que restou apurado apenas sete crimes praticados por venezuelanos"..

Ainda segundo a ação, nas unidades de atendimento de saúde estaduais, o número de atendimentos aumentou aproximadamente 3000% no ano de 2017, "com destaque para os partos de mulheres venezuelanas realizados na única maternidade pública da unidade federativa".

"Não há dúvida que a entrada descontrolada de venezuelanas pela fronteira Brasil/Venezuela tem causado enormes prejuízos à população deste que é o menor Estado da federação, cuja sobrevivência financeira depende, quase que exclusivamente, de repasses constitucionais", manifestou a governadora, que assina o documento junto de procuradores de Roraima.

Ação

Caso o STF não permita o fechamento da fronteira, o Estado pede que, alternativamente, seja efetivado pela União um controle para limitar o ingresso de venezuelanos "a uma quantidade compatível com a capacidade do Estado Brasileiro de acolher e prover as necessidades básicas de tais estrangeiros". Até o momento, a Advocacia-Geral da União (AGU) não se manifestou sobre a ação.

'Incogitável'

Em Lima, no Peru, onde participa da 8ª Cúpula das Américas, o presidente Michel Temer disse que o fechamento da fronteira com a Venezuela é uma possibilidade "incogitável". O presidente afirmou aos jornalistas que avaliou a petição do governo de Roraima e notou que muitos dos pedidos feitos pelo Estado do Norte do País já estão sendo executados. "Fechar fronteira é incogitável", afirmou.

O presidente disse que "não é hábito do Brasil" fechar fronteiras e que a hipótese solicitada pelo governo de Roraima não encontra respaldo no Palácio do Planalto. "Isso não é habito do Brasil. O Brasil não fecharia fronteiras e nem espero que o Supremo venha decidir dessa maneira", disse.

"Creio que esse pleito não sei se tem, com a devida vênia, muita significação. Percebi que muitas das medidas pleiteadas já estão sendo tomadas", disse Temer, ao mencionar a assistência do governo federal com recursos financeiros e profissionais para o atendimento dos venezuelanos que fogem das condições do país vizinho. O presidente deu como exemplo a adoção de um documento de identidade provisório emitido aos venezuelanos - proposta da Procuradoria-Geral da República.

Sobre a hipótese de o Brasil adotar punições ao governo da Venezuela, Temer disse que Brasília já tem feito isso pela via diplomática. O presidente deu como exemplo a não permanência da Venezuela no Mercosul. "Tempos atrás até tentamos mandar alimentos e remédios para lá e foi negado pelo governo da Venezuela. Queremos ajudar humanitariamente", disse.  

'Tenha santa paciência'

Já o ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Pereira, rechaçou enfaticamente a proposta de fechamento da fronteira do Brasil com a Venezuela solicitada pelo governo de Roraima. "Essa é uma ideia... Tenha santa paciência", disse o chanceler no lobby do hotel que hospeda a delegação brasileira em Lima. 

"O governo federal está fazendo muito, ajudando tanto o governo do Estado, como as prefeituras", disse o ministro, ao ser questionado sobre a ação do governo de Roraima no Supremo. "Temos recursos materiais, gente ajudando, colaboração com a sociedade civil. Estamos fazendo muito e vamos fazer tudo o que for necessário."

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