Sem dormir desde segunda-feira

Era a primeira vez que os vizinhos Diones Ribeiro, motoboy e taxista de 26 anos, e Paulo Cesar Ribas Figueiredo, vigilante de 23 anos, vestiam suas fardas verde-oliva de bombeiro comunitário de Gaspar, município no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Quer dizer, durante o treinamento de cinco meses pelo qual passaram, chegaram a ajudar em um acidente de trânsito e também compraram pão para o tenente do batalhão. Na última sexta-feira, no entanto, estavam em plena festa de formatura do grupo de bombeiros voluntários da cidade quando foram convocados às pressas. Entraram na viatura voando, botas novas, fardas limpinhas, sorrisos nervosos, sem saber que corriam para ajudar colegas, namoradas e familiares da própria comunidade.Justamente onde Diones e Paulo Cesar moravam, em um vilarejo chamado de Sertão Verde, hoje tudo está coberto de água, lama, tijolos, móveis quebrados, fotografias rasgadas, lixo e muita tristeza. Pelo menos sete pessoas morreram, seis da mesma família, todas soterradas pelo morro que desabou sobre as casas. Elas foram encontradas entre a noite de anteontem e a manhã de ontem pelos bombeiros comunitários, que estão sem dormir desde segunda-feira e combatem o cansaço e as olheiras com a esperança de ainda encontrar alguém vivo nos destroços. "Eram todos meus amigos, eu vi todos eles antes de morrerem. Quando chegamos aqui no bairro, a água estava na altura do peito. Não demorou mais do que dez minutos para ouvirmos o barulho da terra vindo para cima da gente", diz Paulo Cesar, olhos baixos, cheio de reticências, visivelmente emocionado. "Quando me inscrevi para ser bombeiro comunitário, nunca imaginei que ia passar por uma tragédia dessas", completa seu colega Diones, com seu jeitão de adolescente. "A gente está aqui ajudando de graça porque nos preocupamos com as pessoas, com a cidade. Acho que não parei de trabalhar desde que o morro desmoronou simplesmente porque não quero parar e pensar em como vai ser a vida daqui para a frente."Como há apenas seis ou sete bombeiros militares em Gaspar, há tempos que a cidade forma turmas de voluntários que trabalham de três a seis horas no batalhão de bombeiros, sem ganhar absolutamente nada por isso. Trabalham por prazer, pela possibilidade de ajudar, de contribuir. Atualmente, eles trabalham por necessidade, quase que por obrigação cívica. Isso porque muitas comunidades de Gaspar continuam isoladas, com risco de desabamentos em vários pontos, e quase não há ajuda de outros órgãos. Ali em Sertão Verde, por exemplo, onde vivem 2 mil pessoas, só é possível chegar de helicóptero ou mesmo a pé, com lama até o joelho e um cheiro insuportável de fezes e lixo. Grandes terrenos de pasto viraram piscinas, ruas se transformaram em rios. Depois da enxurrada do fim de semana, esse e outros bairros de Gaspar viraram locais sem acesso, sem vida, sem luz e sem lei. "Não saio da minha casa simplesmente porque à noite vem um monte de gente saquear", diz o mecânico Lourival Nascimento, de 40 anos, morador de Sertão Verde. "Eu durmo com um facão, simples assim. Aqui do lado roubaram a geladeira ontem à noite. Lá na rua de cima roubaram uma televisão de 29 polegadas. Esses bastardos se aproveitam da tragédia... Aqui na frente morreram sete pessoas e mesmo assim os criminosos vêm aqui tirar proveito da situação."VISÃO DA MORTEDiones e Paulo Cesar ouvem a todos os moradores e tentam ajudar, mas retrucam que pouco podem fazer no momento. Os dois colegas nunca tinham ao menos visto um corpo. Mesmo assim, na madrugada de ontem, quando nenhum policial civil ou militar se prestou ao trabalho de ir até Sertão Verde, eles ajudaram a retirar da lama que cobre a sua comunidade os corpos de uma mãe com sua filha, ambas abraçadas."Eu ouvi a minha filha chorando, pedindo socorro, mas, quando tentei ajudar, a terra do barranco voltou a desmoronar e me jogou longe", diz o estampador André de Oliveira, de 29 anos. Além da mulher Débora e da filha Ester, de 26 e de 3 anos, que morreram abraçadas, Oliveira também perdeu o filho Elienai, de 9 anos, a sogra Maria Marlene, a cunhada Franciele, de 17 anos, e a prima Jéssica, de 14. Também morreu na tragédia o namorado de Jéssica, de 18 anos. Toda a família foi enterrada na manhã de ontem, sem nenhum tipo de funeral ou velório, em caixões mais simples disponíveis na região. "Eles estavam todos na varanda de casa quando a terra começou a descer, não deu tempo de nada. Só eu que estava do outro lado da rua, conversando com um amigo... Eu queria estar dentro de casa, mesmo que fosse para morrer com eles. Pouca gente sabia, mas a minha mulher estava grávida. Tínhamos até pensado no nome, Eliá se fosse menino ou Elisama se fosse uma garota. Foram 11 anos de história ao lado da minha esposa, construindo uma família, mas num piscar de olhos tudo se foi, tudo acabou", contou.

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