Arquivo pessoal
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Sem emprego e moradia fixa, brasileiros não conseguem sair do Peru em meio à pandemia

Na próxima semana, 180 deles voltarão em um voo fretado de repatriação; no entanto, centenas ainda permanecem sem condições financeiras de retorno

Marina Aragão, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 13h00

A pandemia do novo coronavírus não afetou apenas a saúde de nativos e estrangeiros que estão no Peru. A exemplo disso, centenas de brasileiros estão no país sem condições de retornarem ao Brasil. Muitos sem emprego, moradia, acesso a serviços de saúde e transporte, eles passam dificuldades no país andino. Na próxima terça-feira, 25, 180 que pagaram por um voo de repatriação voltarão ao território nacional. No entanto, centenas ainda permanecem sem novos horizontes. A Embaixada brasileira em Lima estima que cerca de 200 cidadãos brasileiros estão nessa situação.

A contadora Lucilea Barros, de 46 anos, é um deles. Ela, o filho, de 9 anos, e o marido, desempregado há 6 meses, estão lutando para sobreviver na província de Huánuco. "Estamos lutando para ter todo dia o que comer. Sobre a moradia, estamos vivendo de favor e, a qualquer momento, podemos ser despejados. Não há mais condições de continuarmos aqui. Está muito difícil", conta Lucilea. Ela ainda fala da necessidade de voltar a Belém, no Pará, por causa da mãe de 82 anos, que precisa de cuidados especiais devido à idade já avançada.

Também por causa da pandemia da covid-19, os hospitais peruanos estão à beira do colapso e já não conseguem oferecer atendimento de qualidade para pacientes com outras patologias. "Eu tenho problemas de hipertensão, então devido a essa situação, as coisas pioram mais ainda, a gente fica numa tensão, numa ansiedade. Mas, se tiver necessidade de ir a um hospital, não tem como porque estão em colapso", lamenta a contadora.

Felizmente, brasileiros como Lucilea contam com o apoio de outros conterrâneos. Rosana Schiff, psicóloga que trabalha na linha de frente no combate à covid-19 no Peru, é uma das pessoas que coordenam o retorno dos brasileiros à terra natal. Ela administra um grupo no WhatsApp com mais de 200 deles. Este é o quarto grupo que ela coordena.

De acordo com Rosana, já foram realizados 12 voos humanitários, nos quais três ela se envolveu diretamente. Rosana já conseguiu auxiliar mais de 100 pessoas para retornar ao Brasil, com a ajuda do Consulado, e chegou a hospedar 12 brasileiros na véspera de um dos voos porque não tinham onde ficar.

"As pessoas que me procuram não estão apenas com ansiedade, pânico, mas estão com problemas financeiros muito graves; problemas de saúde, não apenas emocionais, mentais, mas problemas muito sérios. Tinha pessoas vivendo na areia, passando fome, frio, com covid-19, câncer, Aids, hipertensão, problemas cardíacos, respiratórios, problemas de coluna", conta.

Rosana está em Lima e fala da dificuldade que brasileiros que estão distantes tem em chegarem até a capital peruana, de onde saem os voos de repatriação. Elas não têm dinheiro para a passagem até a cidade e muito menos para os voos até o Brasil. "A situação está muito pior nesse momento, o tempo passou, o frio aumentou, o contágio do coronavírus é absurdo. O Consulado ajuda com as autorizações, mas financeiramente não pode ajudar ninguém, com as passagens ou os translados. Agora não tem mais voo humanitário, estamos com as pessoas presas aqui."

Jessica Soares, de 32 anos, está com o filho de 2 anos na cidade de Arequipa. A professora de balé, que mora no Peru há 5 anos, teve de fechar o seu negócio devido à pandemia. Desempregada, Jessica quer voltar ao Brasil pois o filho precisa fazer uma operação chamada implante coclear, para pessoas com problemas auditivos. "Infelizmente não estamos conseguindo fazer essa operação aqui porque os hospitais só estão atendendo covid e por questões financeiras também. Neste momento, nós gostaríamos de regressar para estar mais perto da minha família e tentar colocar ele na fila do SUS e conseguir atendimento em São Paulo", conta.

Sobre o voo fretado do dia 25, Jessica disse que não tem condição financeira alguma de arcar com os custos, "apesar de que gostaria muito de estar indo com ele (o filho) o quanto antes". "Também estamos numa situação bem difícil em relação a documentos porque muitos órgãos aqui estão fechadas, então eu queria pedir ao governo brasileiro para nos ajudar", desabafou.

Jessica conta que o marido pretende permanecer no Peru para pagar as dívidas do casal. "A situação está bem difícil porque os bancos não estão ajudando. Nós que temos empréstimos, os bancos estão cobrando muitos juros e taxas muito altas. A minha intenção é que eu possa voltar com meu filho e que meu marido continue aqui, tentando trabalhar", explica. A família de Jessica mora em São Vicente, na Baixada Santista.

Lucilea e Jessica informaram que estão tentando voltar para o Brasil desde o mês de março, quando as fronteiras foram fechadas no Peru. A professora de balé ressalta, no entanto, que quer voltar para a terra natal por questões financeiras e de saúde, prejudicadas devido à pandemia. "Não é porque o Peru é um mau país. Eles me receberam muito bem e sempre tive oportunidade", pondera.

O que diz a Embaixada

A Embaixada do Brasil no Peru informou que o governo peruano autorizou o voo Lima-Guarulhos para o próximo dia 25 de agosto, em horário que ainda será informado. A agência Bonna Tours, que está comercializando a viagem, já fez contato com os passageiros para confirmar o interesse no embarque. Deste voo, sairão 180 brasileiros, que deverão desembolsar US$ 387,52 (quase R$ 2.189) 

“Atendendo a pedidos de brasileiros que permanecem no Peru e que manifestaram o desejo de retornar ao Brasil, a Embaixada manteve contato com agências de viagens peruanas para buscar alternativas mais econômicas para voo charter Lima-São Paulo”, informou a Embaixada.

O valor inclui bilhete de ida para o trecho Lima-Guarulhos, bagagem despachada de até 23 kg, bagagem de mão de até 8 kg por passageiro e transporte em ônibus com saída do shopping Larcomar (Miraflores) até o Aeroporto Internacional Jorge Chávez, conforme exigência do governo peruano.

Para os brasileiros que se encontrem em outros departamentos que não seja Lima, a Embaixada informou que segue dialogando junto às autoridades peruanas com pedido de autorização para deslocamento terrestre.

Procurado, o Itamaraty informou que está em "permanente contato com as autoridades locais e com agências de viagem para verificar a possibilidade de operação de voo da capital peruana com destino ao Brasil, com menor custo possível aos passageiros". Em razão das restrições de circulação determinadas pelo governo peruano, a representação brasileira afirmou que segue também conversando com as autoridades para obter autorizações de deslocamento até Lima e a região de fronteira. 

De acordo com o Itamaraty, até o momento foram repatriados cerca de 38,8 mil brasileiros, em operações que incluíram a contratação direta de voos fretados ou o apoio institucional de nossa rede de embaixadas e consulados. "Com relação ao Peru, o Itamaraty já viabilizou o retorno de 1.785 brasileiros retidos naquele país e a realização de doze voos de repatriação desde o início da pandemia. Estima-se haver cerca de 200 brasileiros localizados no Peru interessados em voo de regresso ao Brasil", informou.

A pasta recomendou ainda que os interessados em retornar ao Brasil acompanhem as informações divulgadas no site da Embaixada em Lima.

A Embaixada do Peru no Brasil informou que o voo da próxima terça também servirá para a repatriação de peruanos que estão no Brasil. No entanto, segundo o Consulado peruano, apesar de "manterem permanente comunicação, a assistência aos brasileiros é uma responsabilidade exclusiva do Itamaraty". 

Sem previsão para abertura de fronteiras

Na última segunda-feira, 17, o Peru descartou a autorização de voos internacionais e a reabertura de suas fronteiras, fechadas por cinco meses devido à pandemia e por causa de um significativo aumento das infecções por coronavírus. “Não é hora de abrir voos internacionais porque não conseguimos conter a propagação da pandemia”, disse o ministro dos Transportes e Comunicações, Carlos Estremadoyro, ao canal de televisão N.

O Peru tem seus hospitais saturados com mais de 14 mil pacientes com covid-19 e sem suprimentos vitais, como oxigênio medicinal. O país andino enfrenta um surto de pandemia desde que iniciou um processo de desconfinamento gradativo em 1º de julho em busca da reabertura da economia.

O ministro peruano, por sua vez, relativizou o impacto que a chegada de turistas poderia ter sobre a debilitada economia peruana. “Não é que isso vá nos beneficiar economicamente, não é uma grande contribuição. Ninguém em nenhuma parte do mundo quer viajar a lazer, isso só vai acontecer em meados do ano que vem”, estimou Estremadoyro.

O Peru acelerou o desconfinamento para recuperar sua economia, que entrou em recessão no final de junho quando acumulou dois trimestres de contração e uma queda do PIB de 17% no primeiro semestre em relação ao mesmo período do ano passado.

As infecções começaram a diminuir em meados de junho, mas aumentaram com o fim da quarentena obrigatória em 18 dos 25 departamentos do Peru. As fronteiras estão fechadas e os voos internacionais proibidos desde de 16 de março. Apenas voos de repatriação são permitidos.

Com 33 milhões de habitantes, o Peru é o terceiro país na América Latina em mortes pela pandemia, depois do Brasil e do México, e o segundo em infecções, atrás somente do Brasil. De acordo com dados da Universidade Johns Hopkins, o Peru soma quase 559 mil casos confirmados do novo coronavírus e quase 26,9 mil mortes.

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